Opinião Um político medíocre e um extraordinário escritor

Um político medíocre e um extraordinário escritor

O Governo vai tirar conclusões da greve da CGTP? Não o creio.
Baptista Bastos 16 de novembro de 2012 às 12:24
O Governo vai tirar conclusões da greve da CGTP? Não o creio. Apesar de ela constituir, com os últimos movimentos de massas, um avantajado motivo de reflexão, nada parece demover o monolitismo político, social e moral desta estranha gente. Este comportamento não tem a ver com determinação: configura uma obstinação mais própria do totalitarismo. Não é excessivo dizer que a democracia portuguesa está seriamente amolgada, e que os valores republicanos são constantemente tripudiados. Mas é constrangedor assistir, nas televisões, ao bando de guarda-costas que rodeia qualquer membro do Executivo, quando se deslocam.

Nunca, na história democrática portuguesa, o afastamento de quem governa os governados foi tão preocupantemente evidente. Aqueles têm medo destes, exactamente porque foram quebrados os laços sociais determinantes numa sociedade. A relação política quedou-se num círculo muito reduzido, que só tem interesse sociológico exactamente por ser reduzido e consubstanciado num poder quase absoluto.

As manifestações desse poder são frequentes. Não apenas nas decisões governamentais como nos discursos solenes, cuja soberba raia as fronteiras da insolência. Por exemplo: no dia da greve geral, Passos foi à reabertura da fábrica SICASAL. Tudo bem. Os empresários daquela fábrica, há um ano destruída por um incêndio, não deixaram de pagar os salários aos trabalhadores, numa demonstração de sentido social já raro. Claro que os trabalhadores se empenharam em reerguer a fábrica, e esta simbiose de decisões e vontades será de relevar. No entanto, Passos demonstrou uma particular agressividade ao felicitar os que, no dia da greve, foram trabalhar. A provocação era tão clara que até entre os apoiantes do Governo a conduta caiu mal.

Claro que Passos e os seus não gostam de greves. Mas quem gosta? Não serão os trabalhadores. Falo do que sei, para referir que as relações políticas, por serem, igualmente, sociais, exigem um cuidado sereno. Numa altura em que a sociedade portuguesa vive numa crispação de resultados imprevisíveis, as palavras e as frases têm de ser atentamente sopesadas.

Os quase 40% de jovens desempregados, e o aumento, para 15,8% de excluídos sem emprego deviam ser motivo de inquietação de Passos, cuja acção política e social é, dia a dia, mais canhestra. Acrescente-se a esta e a outras misérias irresolvidas pelo Governo, o número, revelado oficialmente, de dez mil miúdos portugueses que vão para escola sem comer, facto que se prolonga durante o dia. Só ao fim da tarde, ou à noite, é que comem alguma coisa. Passos é permanentemente omisso em aludir aos factos que vão derruindo o que nos resta de equilíbrio social e moral. Que se passa com esta gente?


LEMBRANDO RUBEN A.
Os infortúnios que nos cercam, e que não parecem comover o Executivo; no meio do ruído, do desapego às coisas da vida, e do oportunismo criminoso de alguns - um livro veio iluminar os dias. O poeta Liberto Cruz e sua mulher, Madalena Carretero Cruz, ambos ensaístas, investigadores do fenómeno literário, publicaram, pela Editorial Presença, "Ruben A. Uma biografia", que constitui um admirável trabalho de remoção do silêncio que paira sobre a obra de um dos mais extraordinários prosadores do nosso tempo. Ruben Andresen Leitão, historiador, ou Ruben A., romancista, memorialista, colaborador de jornais, foi uma figura ímpar da cultura portuguesa. E os seus biógrafos, com minúcia e rigor, relatam as peripécias de uma vida agitada, cujo estilo e visão do mundo Salazar detestava.

Está tudo neste livro. Até os amigos que, na casa do Monte Olivete, se encontravam em reuniões impensáveis. Conheci-o no "Diário Popular", jornal em que colaborava com uma secção imperiosa e pedagógica, "Livros Escolhidos", do melhor que a Imprensa de então (e a de agora) publicava. Se a prosa de Ruben era desconcertante, ele era a imagem devolvida dessa prosa. Sempre a correr, permanentemente agitado, movendo-se com uma presteza incomum, as características da sua vida são admiravelmente retratadas por Liberto Cruz e por Madalena Carretero Cruz. Eles acentuam a invulgaridade do destino deste imenso escritor; aquilo que constituiu a matéria fundamental da sua existência; os amigos que o não largavam e, também, as torpes invejas, os silêncios sobre a sua obra, e os entusiasmos de pessoas que viam nele o que ele realmente era: um intelectual fora das normas, um romancista sem par e um homem generoso e cordial. Por favor: não percam esta biografia e atirem para os fojos as fancarias que por aí pululam. Este livro é, igualmente, um implacável retrato de Portugal. Bem hajam os dois biógrafos por nos restituírem Ruben A., na dimensão exacta da sua grandeza.


b.bastos@netcabo.pt




Marketing Automation certified by E-GOI