Vinhos Vinho, arte e festa

Vinho, arte e festa

Quem gosta de vinhos com carácter e de produtores que não embarcam em modas tontas só tem de ir este fim de semana ao Cais Novo, no Porto. O Simplesmente Vinho é outra coisa.
Edgardo Pacheco 24 de fevereiro de 2018 às 13:00
O Underdog Castelão 2008 tem notas vegetais e fumadas, à mistura com cheiros e sabores de alcaçuz ou casca de ameixa. Na boca, elegante e fresco. Custa 15€ 


Em matéria de feiras, festas e festivais de vinhos, passamos do 8 ao 80. Noutros tempos nem sabíamos organizar um evento vínico decente; hoje não haverá um único presidente de câmara que não queira um festival no seu território.

Tudo isso é natural. E tudo isso acontece entre a ilha do Corvo e Vladivostok. Qual é então o problema? Provavelmente, alguma falta de imaginação em matéria de conceitos e formatos, visto que, de feira para feira, a regra é a famosa chapa 5. É certo que a equipa da revista Grandes Escolhas tem tido a capacidade de organizar provas paralelas nos seus eventos, que funcionam como aulas sobre o vinho e a sua história (coisas irrepetíveis), mas, no resto, estamos perante "stands" com produtores a vazar vinho no copo para milhares de passantes, alguns dos quais já a necessitar mais de Gurosans do que de vinho.

Donde, o Simplesmente Vinho (que começa hoje e termina amanhã, no Porto) é uma pedrada no charco. Não é inédito nem pioneiro, mas é uma bênção porque, à cultura do vinho, acrescenta a cultura da música e a cultura das artes plásticas, com debates sobre temas actuais (este ano sobre os incêndios). Quer dizer, quem for hoje e amanhã aos Cais Novo, à beira-rio, pode provar vinhos únicos, ouvir músicos alternativos e conversar com artistas variados, num ambiente informal e vanguardista. Tudo isso porque João Roseira - criador do projecto - é uma figura iconoclasta no mundo do vinho.

Este Simplesmente Vinho copia outro evento que nasceu em França. A grande feira de vinhos da Europa - a francesa Vinexpo - passou a ser uma espécie de dia dos namorados, em que, gostando-se ou não do parceiro/a, há que comprar sempre qualquer coisinha. Os produtores marcam presença com os seus vinhos-padrão, e os especialistas e o povo lá vão prová-los. Ponto. A dada altura, alguém teve a ideia de organizar, na mesma data da Vinexpo e no mesmo território, um evento de vinhos com produtores fora da caixa, aqueles que, mantendo a genuinidade do conceito de terroir (em França e não só), têm vinhos tão diferentes quanto excelentes. Num mundo padronizado, o evento apelidado de "salão trade-off" foi considerado um sucesso.

Ora, o Simplesmente Vinho inspira-se neste conceito e, durante dois dias, e enquanto decorre o Essência do Vinho no Palácio da Bolsa, junta, no Cais Novo, 100 produtores de Portugal, Espanha e França, que têm como propósito despertar a curiosidade de gente que gosta de vinhos diferentes.

Diferentes porque, primeiro, estamos perante produtores que caem na categoria de vigneron, querendo isto dizer que o vinho testemunha a paixão e o respeito que um determinado agricultor tem pelas suas vinhas num território muito específico, sendo que, muitas vezes, é o próprio agricultor quem trabalha a terra, vindima, fermenta e vende o vinho em cadeias curtas. Segundo, porque muitos destes vignerons fazem questão de apresentar vinhos com castas autóctones e quase abandonadas, ora por serem difíceis de trabalhar, ora por darem vinhos que precisam de tempo em garrafa, ora ainda por exigirem consumidores cultos. Terceiro, apaixonados pela natureza, estes vignerons utilizam técnicas de cultivo amigas do ambiente, seja pela utilização mínima de produtos químicos, seja pela sua eliminação total, pelo que, neste "salão trade-off", passam muitos produtores bio e biodinâmicos.

O enólogo Hugo Mendes, que lançou o irreverente Castelão Underdog, é um dos enólogos convidados, por ser alguém que anda sempre à procura da diferença. Diferença, mas atenção, em bom.

Consultor na Adega Cooperativa da Labrugeira, descobriu este vinho tinto de 2008, feito por um colega seu, em estado de abandono. Provado, revelou-se um grande vinho de uma casta mal-amada na região, mas ainda importante na Península de Setúbal.

Lá está, é mal-amada porque dá algum trabalho na vinha e porque das suas uvas resultam uns tintos abertos de cor, pouco alcoólicos e com notas herbáceas. Donde, longe dos concentrados de fruta e álcool das castas modernas (portuguesas ou estrangeiras). Portanto, o homem que lançou este Underdog - assim chamado por recordar aqueles tipos por quem ninguém dá nada, mas que depois se revelam campeões de qualquer coisa - fica muito bem no Cais Novo. E como ele haverá outros 99 vignerons. Vignerons, artistas, chefes, investigadores e gente preza a diferença. Portanto, uma festa inteligente.
O Simplesmente Vinho decore hoje e amanhã no Cais Novo, Rua de Monchique, nº 120, Porto. Abre às 16 e fecha às 22h. Um bilhete diário com direito a provas e concertos custa 18€.
O Simplesmente Vinho decore hoje e amanhã no Cais Novo, Rua de Monchique, nº 120, Porto. Abre às 16 e fecha às 22h. Um bilhete diário com direito a provas e concertos custa 18€.

  




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Anónimo 25.02.2018

Na falta da legítima trincadeira gosto muito do castelão (piriquita). No tempo dos meus avós apenas cultivavam trincadeira legímima, tinta-mole, malvazia e fernão-pires. Isso é que era vinho! Infelizmente, hoje plantam-se castas não adequadas ao tipo de terra pois o pessoal esquece-se que o que faz um bom vinho é não só a videira como a terra onde está plantada. Recordo-me de há 50 anos levarem castas carrascudas e bem tintas do Cartaxo para a minha terra (Peralva-Tomar) e ao fim de 10 anos a pinga já saía palheta. Bebam com moderação!

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