Weekend Virgolino Faneca sugere a Jairzinho que crie o J5. O G20 que se cuide

Virgolino Faneca sugere a Jairzinho que crie o J5. O G20 que se cuide

Jair Bolsonaro, Jarizinho para os entendidos do futebol, vai formar um time de futebol de cinco, com o Donald, o Recep, o Kim e o Rodrigo. Será o J5 e vai dar uma coça ao G20. Virgolino Faneca dá a táctica.
Virgolino Faneca sugere a Jairzinho que crie o J5. O G20 que se cuide
Celso Filipe 02 de novembro de 2018 às 17:00
Caro Jairzinho

Desculpe a ousadia de o tratar pelo diminutivo, mas deste modo consigo associá-lo ao futebolista Jairzinho, ponta-direita de técnica excepcional e um dos heróis do campeonato do mundo de 1970. Assim custa menos engolir a sua eleição como Presidente da República do Brasil e dá-lhe até uma certa dignidade, por exemplo, na comparação com o seu homólogo dos EUA. Você tem nome próprio igual ao de um futebolista famoso, o líder norte-americano tem nome próprio igual ao de uma personagem famosa de banda desenhada. Quem fica a ganhar? Além de que um dos seus sobrenomes é Messias, o que lhe dá acesso imediato a Deus, circunstância favorável à resolução dos problemas que afligem o seu país.

Agora que já marquei pontos nesta abordagem onomástica à sua pessoa, é hora de passar à essência das coisas, o que neste caso se consubstancia numa proposta absolutamente notável para pôr ordem neste mundo desordenado, no qual as pessoas colocaram os valores no caixote do lixo indiferenciado e reagem despeitadas quando convidadas a fazerem a reciclagem dos sentimentos.

A minha proposta, Jairzinho, é a de criares um clube rival ao G20, mas mais selectivo, porque já se viu que este não funciona. Podemos chamar-lhe J5, na medida em que foi ideia tua (eu sei que foi minha, mas entrego-te a paternidade da mesma a troco de uma camisola autografada do Ronaldinho Gaúcho) e será composto por ti, em representação do Brasil, pelo senhor com nome de boneco animado, dos EUA, pelo senhor Kim da Coreia do Norte, que tem mais patologias do foro psicológico do que aquelas que Freud conseguiu identificar, pelo senhor Rodrigo, das Filipinas, um facínora que diz ser justiceiro, e pelo senhor Recep, da Turquia, o qual classificou de forma sábia a democracia: "É como um comboio: quando se chega ao nosso destino, saímos."

O J5, Jairzinho, vai mudar a forma de olharmos para o mundo, isto é, se ainda tivermos mundo para olhar. Por isso, fecho os olhos e imagino uma reunião do J5. Tu começas por dar as boas-vindas aos teus colegas presidentes e falas da imprensa, essa erva daninha que importa arrancar para que a verdade, tal como vocês a concebem, vingue. Evocas a vossa nobreza de carácter e introduzes o tema da investigação científica, sublinhando que é preciso dar passos significativos no sentido de se encontrar uma cura para a homossexualidade.

De seguida, propões o regresso de todos os afrodescendentes a África porque, sendo afros e habitando num outro continente, estão a trair a sua terra-mãe. Trata-se de um bom argumento, até porque a traição, acrescentas, devia ser um crime punível com a pena de morte. Claro que o Donald vai dizer que este conceito também se deve aplicar aos mexicanos, sugestão que tu aplaudirás de forma entusiástica, acrescentando à lista os argentinos.

Enquanto tal, estou a ver, embora continue de olhos fechados, o Kim suspirará, desabafando de seguida que está farto de conversa e que pretende divertir-se, seja fazendo uns testes de mísseis nucleares ou indo assistir a um ensaio de uma escola de samba, ao que tu lhe sugeres a primeira hipótese porque as ditas agremiações são um antro do pecado. O Recep irá afirmar que concorda com tudo, desde que o deixem levar o pastor Edir Macedo para a Turquia de forma a preencher o vazio deixado pelo traidor Fethullah Gülen, e que ensinem a verdade na escola, abolindo mistificações como a teoria da evolução.

Jairzinho, a tua eleição funciona para o Brasil como um fusível mal ligado. Fará curto-circuito a qualquer momento. O que vale por dizer que será um líder disruptivo. Vais ver que o J5 te alcandorará aos panegíricos da história. Eu, como não quero fazer-te sombra, aproveito e vou fazer uma viagem espacial com o Branson, não vá o Diabo tecê-las.

Um abraço deste teu


Virgolino Faneca
 

Quem é Virgolino Faneca

Virgolino Faneca é filho de peixeiro (Faneca é alcunha e não apelido) e de uma mulher apaixonada pelos segredos da semiótica textual. Tem 48 anos e é licenciado em Filologia pela Universidade de Paris, pequena localidade no Texas, onde Wim Wenders filmou. É um "vasco pulidiano" assumido e baseia as suas análises no azedo sofisma: se é bom, não existe ou nunca deveria ter existido. Dele disse, embora sem o ler, Pacheco Pereira: "É dotado de um pensamento estruturante e uma só opinião sua vale mais do que a obra completa de Nuno Rogeiro". É presença constante nos "Prós e Contras" da RTP1. Fica na última fila para lhe ser mais fácil ir à rua fumar e meditar. Sobre o quê? Boa pergunta, a que nem o próprio sabe responder. Só sabe que os seus escritos vão mudar a política em Portugal. Provavelmente para o rés-do-chão esquerdo, onde vive a menina Clotilde, a sua grande paixão. O seu propósito é informar epistolarmente familiares, amigos, emigrantes, imigrantes, desconhecidos e extraterrestres, do que se passa em Portugal e no mundo. Coisa pouca, portanto.






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