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Viriato Soromenho-Marques: A Alemanha tem beneficiado do medo

Para o filósofo Viriato Soromenho-Marques, depois do Brexit, a “equipa da fragmentação europeia” ganhou uma vantagem muito confortável sobre os partidários da unidade.

Miguel Baltazar
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O jogo está muito inclinado para a desagregação. Depois do Brexit, se de um jogo se tratasse, a equipa da fragmentação europeia ganhou uma vantagem muito confortável sobre os partidários da unidade. É assim que o filósofo Viriato Soromenho-Marques observa a dialéctica da União Europeia. Não exclui um recuo britânico face aos reflexos negativos do referendo. Por isso, defende que devemos dar tempo ao Reino Unido, um tempo que os 27 deveriam aproveitar para fazerem cenários sobre as consequências de uma desagregação europeia. Talvez a perspectiva de uma "destruição mútua assegurada" os fizesse arrepiar caminho. Soromenho-Marques é um exemplo raro de um intelectual comprometido. Professor catedrático, ecologista, interventor público, continua movido por uma curiosidade insaciável e preocupado com a fragilidade da condição humana.


A Europa está a tirar-lhe o sono?

Muitíssimo. Desde 2009.

 

Que marco é esse?

Depois da crise do Lehman Brothers, havia em Bruxelas uma tensão entre uma linha que defendia o investimento público (keynesiana) e uma linha austeritária. Em Dezembro de 2008, o comunicado do Conselho Europeu estava cheio de sugestões no sentido de que os Estados investissem porque as empresas estavam receosas e o sistema financeiro paralisado. Se não fosse o Estado a ocupar esse vazio, a economia entraria em colapso. O nosso governo de então só leu uma parte da frase. Uma coisa é o que aparece nos documentos, outra o que está nas discussões e se passa nos corredores, sobretudo o que sempre foi a posição da Alemanha, que encarou a Zona Euro como um espaço de competição e não de colaboração. Os trabalhadores alemães viram os seus rendimentos cair a pique para aumentar a competitividade da sua indústria quer no mercado externo, quer no interno. Em 2009, perante a crise grega, essa tendência larvar saltou para a primeira linha quando Merkel e Schäuble disseram que não resgatavam a Grécia. Durante cinco meses, a Grécia ficou encostada à parede dos mercados financeiros. Schäuble e Merkel diziam, no início de 2010, que a Alemanha não violaria o artigo 125, que impede os resgates, e que não havia salvação na Zona Euro, pois os Estados são responsáveis. Cada vez que isso era repetido, até mudarem de posição em Maio, subiam os juros da dívida pública não só da Grécia, mas também de Portugal, Espanha e Itália.

 

Como podem ler-se as recentes afirmações de Schäuble, de novo a falar de resgate a Portugal?

Ainda estou naquele efeito do "lost in translation"… O que está em cima da mesa é um apoio ao sistema bancário: recapitalização da CGD e o Novo Banco. Precisamos é que a Comissão, o Conselho e o Eurogrupo permitam que a dívida pública que entre possa funcionar como empréstimo e que, contabilisticamente, não conte para o défice. Em rigor, Portugal não precisa de resgate por uma razão simples: temos acesso ao mercado da dívida com juros a 3%...

 

Então como entender as palavras de Schäuble? 

Tem sido Schäuble a capitanear as sanções contra Portugal no seio do Eurogrupo. Apesar de estar em causa um défice do governo anterior, parece ter-se perdido a benevolência alemã. Persiste-se no erro, há uma incapacidade em sair de uma interpretação dogmática da austeridade. É impressionante voltar a falar-se em sanções depois do Brexit. É não perceber o que aconteceu. Se considerarmos um jogo em que de um lado joga a equipa da fragmentação europeia e do outro os da unidade europeia, julgo que nesta altura a equipa da fragmentação tem uma vantagem muito confortável. Mas temos de jogar até ao fim. Aqueles que querem dar uma nova oportunidade à UE têm uma última linha de argumentação: que plano temos para a Europa, depois de ter falhado uma aproximação racional construtiva? Como é que vamos sair daqui? Não tem havido diálogo, há imposições atrasadas em relação aos acontecimentos – o mecanismo de resolução, que é uma parte da união bancária, o mecanismo único de supervisão, o mecanismo europeu de estabilidade, o tratado orçamental. Neste momento, a única coisa que nos pode ajudar é sentar os países e pô-los a fazer cenários sobre a desagregação da UE. Pensemos no pior cenário: não nos conseguimos entender, temos divergências profundas, os partidos que governam não conseguem levar os povos a um salto em frente, federal, não temos talento, capacidade, visão. Vamos então ver as consequências dessa deriva nacionalista.

cotacao Parece ter-se perdido a benevolência alemã. [...] Há muito medo e a Alemanha tem beneficiado do medo. 

Esse confronto pode trazer racionalidade?

Acredito que existe ainda um sentimento de autopreservação nas pessoas e nas organizações. Esse exercício não está a ser feito. Há muito medo e a Alemanha tem beneficiado do medo, da sua aparente firmeza, quando na verdade tem razões para temer o futuro de uma forma mais acentuada do que Portugal, dada a dimensão e dada a queda.

 

Porque é que o Reino Unido decidiu sair da UE?

A razão mais estrutural é que o Reino Unido nunca sofreu um processo de verdadeira compreensão e discussão pública do que é ser membro da UE. Viveu sempre no eurocepticismo, que faz parte da cultura britânica: a Europa interessa-nos fragmentada porque quando eles se unem tentam atravessar o canal da Mancha… A Grã-Bretanha, nestes 43 anos de UE, tem tido uma aproximação muito construtiva naquilo que são para si os valores fundamentais em matéria comercial: liberalização e desregulamentação. Nos aspectos qualitativos de mudança, tem sido quase sempre um travão. Com algumas variantes, funciona como factor de construção europeia apenas no mercado comum. Tem uma administração pública muitíssimo competente, também a nível europeu. Há um mistério nas razões conjunturais porque quem conhece a tradição política sabe que os britânicos se orgulham de ser a democracia parlamentar mais antiga da Europa. Valorizam a ideia de que os assuntos, pela sua complexidade, devem ser abordados por pessoas que, a tempo inteiro, são eleitas para decidirem. Um referendo sobre um assunto estratégico de política externa é uma ideia antibritânica. Os trabalhistas fizeram isso em 1975, dois anos após a integração, o que já foi uma surpresa mas, na altura, não teria as consequências que tem hoje, com o grau de integração existente. Tudo isto se prende com a entrada em jogo de um líder político atípico, David Cameron. Merece uma biografia.

 

É um caso de fraqueza de convicções?

É alguém que, perante uma questão de grande importância, coloca o seu interesse particular à frente do interesse geral. O interesse geral é prejudicado porque esta matéria não me parece que possa ser tratada de forma referendária.

 

Mas não deixa de ser um mecanismo democrático.

É e não podemos contestá-lo. Só poderia ser posto em causa por outro referendo.

 

Foi uma jogada táctica que acabou por ter um resultado estratégico?

A democracia é um sistema maravilhoso, mas não é garantia da qualidade dos eleitos.

 

Isso não é arrogância?

Vou tentar responder. A Grã-Bretanha tem uma grande tradição de fundamentação das suas políticas públicas. Têm uma boa administração, uma boa capacidade de fazer relatórios, estudos estratégicos. Aliás, o Michael Gove, um dos homens da campanha pela saída, dizia que já estava farto de especialistas. Isso é que é arrogância. A arrogância do populismo contra o estudo, contra a ponderação.

 

O que devem responder os 27 ao Reino Unido?

Devem ter uma posição de respeito porque se trata de uma posição soberana. O Parlamento abdicou das suas competências e entregou-as ao voto popular. Isto pode ser interpretado como algum problema de sinapse, mas ao mesmo tempo tem a grandeza de os representantes dizerem aos representados: "Vocês decidam." O respeito significa deixar os britânicos tomarem o seu tempo até accionarem o mecanismo de saída, se o accionarem.

 

Tem dúvidas?

Não excluo a possibilidade. Como estamos a falar de meses, os britânicos podem começar a sentir, progressivamente, mesmo sem nada mudar formalmente, a mudança de tom nos negócios, as empresas que começam a despedir trabalhadores, reflexos negativos. Há um abaixo-assinado com milhões de assinaturas. O Parlamento da Escócia tenta bloquear o processo. Não é de pôr de parte a possibilidade de reversão ou de um compasso de espera. Por isso, a posição desabrida de se querer correr com os britânicos, e que depois foi moderada por Angela Merkel, não fazia sentido. Por outro lado, o tempo que vamos dar à Grã-Bretanha é o tempo que vamos dar a nós próprios.

 

Esse tempo não será paralisante? A incerteza não criará uma erosão maior na Europa?

É o argumento das instituições europeias, mas penso que está ultrapassado. Andamos há seis anos a precisar de uma profunda mudança de rumo e não temos reagido. Temos reagido tarde, não temos operado as mudanças que poderiam reverter a situação. Construímos uma união monetária sem ter qualquer respaldo para o sistema bancário. Foi vítima de regras dirigidas apenas aos Estados e não aos bancos. Os bancos eram puros e por isso não tinham qualquer contenção. Os Estados eram pecadores e por isso tinham as regras todas. Quando se verificou que os bancos também pecavam, foram os Estados que os foram salvar para depois serem vítimas da dívida excessiva. A união monetária foi muito mal construída, por pessoas incompetentes em finanças públicas e sem conhecimentos de história económica. Não estamos a fazer nada de novo. Foi feita uma união monetária pelos americanos a seguir à sua revolução, no século XVIII, também na Alemanha de Bismarck e no Império Austro-Húngaro. Nós fizemos a primeira união monetária sem um pacto político, sem uma Constituição, e sem uma união bancária, sabendo o que tinha acontecido nos EUA nos anos 30, quando Roosevelt, eleito depois da crise financeira, criou a união bancária que ainda hoje existe. Não aprendemos nada.

 

A vantagem das forças desagregadoras poderá ser irreversível?

Essa é a pergunta dolorosa à qual alguém tem de ter a coragem de responder. Se a fizer a algum responsável político, não terá resposta adequada. Neste momento, de um ponto de vista estritamente racional, o jogo está muito inclinado para a desagregação. Mas há muitas coisas que não dominamos. A realidade é mais rica do que a nossa representação. É menos linear. Um pequeno gesto pode desviar a rota.

 

E o avanço dos populismos, dos nacionalismos?

O populismo tem também o seu antídoto. Pode despertar um sentimento de: cuidado, atenção!

 

Pode estar a acontecer no Reino Unido?

Pode. Também criou movimentos miméticos em França, na Holanda, em Itália… O principal risco desta crise é que nem os populistas, por um lado, nem os responsáveis do sistema, por outro, percebem uma diferença de qualidade estonteante entre o ter, ou não ter, moeda própria. O Brexit ensinou-nos a importância de ter moeda própria. Se a libra estivesse a cair, como caiu no primeiro dia, teríamos uma situação dramática. Por isso interrogo-me, quando vejo Dijsselbloem e Schäuble a levantarem o espectro das sanções, a criarem situações que vão provocar mais erosão, mais atrito e dívida a subir: será que estes senhores percebem o que é uma união monetária? Não a perceberam quando a construíram. Agora, também não a estão a perceber.

 

Será que a querem destruir?

Ou será que a querem reconstruir? É a grande dúvida. Aquela reunião dos seis ministros fundadores, ideia peregrina que regressa de vez em quando, e que parece ser uma ideia socialista, é perigosíssima porque pode precipitar-nos no abismo. A ideia de que há um núcleo forte, imune, e a periferia cai como um castelo de cartas, mas nós aguentamo-nos, é muito perigosa. A Europa será refundada com várias velocidades. Já tem duas: os países do euro e os que não são do euro. E é por aqui que temos de reconstruir o edifício.

 

Conhece bem a Alemanha. Nos anos 80, esteve em Bremen e Berlim como bolseiro. A Alemanha estará a reconsiderar o seu papel num processo de desagregação?

Só se não for capaz de equacionar o seu interesse nacional. Isso já aconteceu. O prof. Adriano Moreira diz que não devemos ensinar aos grandes países o seu interesse nacional. Mas eu tenho feito isso, apesar de o respeitar muito e ser amigo dele. É do interesse da Alemanha que o euro tenha sucesso e que não haja uma fragmentação. Merkel tem-no dito. Parece-me é que não é possível que isso aconteça sem as tais reformas que hoje nos parecem, contraditoriamente, mais distantes. Há anos que se espera da Alemanha e da França um avanço no sentido de uma União mais democrática e isso não tem acontecido. Pelo contrário, os projectos de Schäuble são cada vez mais administrativos, burocráticos. Reforçam a irresponsabilidade de uma máquina que domina sem legitimidade política. A Alemanha é muito importante, mas se esperamos que seja ela a tomar a iniciativa, podemos esperar sentados.

cotacao As atitudes de Schäuble e de Dijsselbloem são o combustível do populismo. São elas que estão a dar energia às forças desagregadoras.

Estamos a caminhar para uma Europa esfarelada. [...] Pode haver uma guerra europeia. Não como a de 14-18 ou a de 39-45, mas uso da violência ou ameaça de uso da violência.

Depois do Brexit estamos mais próximos de uma Europa alemã?

Estamos mais perto de uma ruptura. Nestes últimos 100 anos, desde Bismarck, um grande estadista que fez o II Reich e tinha uma visão de paz para a Europa, tivemos dois grandes momentos em que a Alemanha se olhou ao espelho e se sentiu demasiadamente pequena. Tentou engrandecer-se e originou duas guerras mundiais. Os resultados foram catastróficos. Avaliou erradamente a relação de forças.

 

Nos anos 50, Thomas Mann, no discurso de Hamburgo, advertiu os alemães para que nunca voltassem a "aspirar a uma Europa alemã". Há esse risco?

Em 1914 e em 1939 pecou pela desmesura. Hoje, peca por uma certa passividade, hesitação. Há países europeus no centro de um vulcão, que estão a ser queimados, e a Alemanha acredita que é possível estabilizar a situação. O tratado orçamental é como um assentar de bagagens em cima de um pântano. Não é possível. Seria importante termos estadistas…

 

Temos algum com esse discernimento? Quando constatamos sucessivas votações por unanimidade, fica-nos a ideia de que não há vozes dissonantes ou que tenham a coragem de assumir a diferença…

Não há um discurso consistente. Às vezes, há alguns assomos, um ou outro gesto divergente. Estamos a jogar um jogo errado, o jogo da soma zero: tu ganhas, tu perdes. No Conselho Europeu, os líderes não resistem a ganhar alguma coisa. Se o jogo é de interesse nacional, também vou jogar. O caso de França é patético. Só por ser França, como diria Juncker, poderia forçar a reflexão, a diferença. Mas colou-se completamente à liderança alemã. Hollande, até na escolha de Manuel Valls, que é uma espécie de Blair ou de Schröder atrasado da História, mostra isso mesmo.

 

No meio deste puzzle, como está Portugal?

Não sou um adepto incondicional da solução governativa que foi encontrada, mas reconheço que tem sido possível um diálogo com mais dignidade com a Europa. A posição portuguesa aparece diferenciada, articulada de forma não agressiva, diplomaticamente correcta. Surpreendeu-me uma certa capacidade de encaixe dos partidos à esquerda do PS, tanto mais que, no caso do PCP, defende a saída do euro. Não têm criado excessivas dificuldades no processo negocial. Antes, tínhamos vivido uma situação embaraçosa e subserviente. Uma coisa é estarmos obrigados a executar um programa, outra coisa é executarmos esse programa de cara alegre…

 

Refere-se ao anterior Governo?

Irmos além da troika foi o programa de 2012 e 2013. O programa da troika já tinha o desastre, amplificámos o desastre e só não foi maior porque as pessoas saíram à rua e o Tribunal Constitucional não o permitiu.

 

Converteu-se a esta solução governativa?

A política é experimental. Há princípios, mas também há experiências. Esta solução provou que é mais duradoura do que uma solução de direita apoiada por um PS enfraquecido. Parece-me indubitável. Ainda há pouco tempo o líder parlamentar do PSD deu a entender que já não fazia contas para quedas do Governo.

 

Como vê a direita nesta altura, enquanto alternativa?

Passou do governo para o comentário. Estão a monitorizar os acontecimentos. Perderam capacidade de iniciativa.

 

Marcelo Rebelo de Sousa tem sido um bom Presidente?

Sim. Se não o conhecêssemos, diríamos que é demasiadamente veloz e que vive na espuma dos dias. Mas já o conhecíamos. Estranho seria se ele mudasse de perfil. Num mundo tão incerto, haver qualquer coisa que corre segundo a nossa previsão dá-nos um certo conforto. Marcelo Rebelo de Sousa está a ser previsível, o que é interessante para quem tinha a fama de tantas vezes ser imprevisível. Quem o critica mais é a direita. Como se alguma vez pensassem que ele poderia ser o instrumento de quem quer que fosse. Não vai ser o instrumento de António Costa como não seria o instrumento de Passos Coelho. Tem a sua agenda, provavelmente vai querer ficar na História como o melhor Presidente da III República e está a trabalhar para isso.

 

Nos últimos anos, cavou-se um fosso entre a sociedade civil e o sistema político. Como estamos agora?

Estamos melhor. A fragilidade deste sistema governativo, que é um sistema parlamentar, é muito interessante para a teoria política. Foi curioso vermos a direita, quando esta solução surgiu, estar à porta do Parlamento, a repetir um pouco a manifestação dos trabalhadores da construção civil pouco antes do 25 de Novembro de 1975, quando cercaram o Parlamento. A revolução, de acordo com os padrões marxistas, faz-se sempre através da construção de um duplo poder, que é paralelo ao poder do Parlamento, e é muito curioso vermos a direita na rua como se fosse um duplo poder por causa de uma solução que, no fundo, era apenas o jogo da aritmética parlamentar. É interessante ver como o discurso bolchevique foi assumido pela direita.

 

Mas não foi consequente.

Não podia ser porque era uma solução constitucional. Mesmo Cavaco Silva, independentemente da azia que isso lhe causou, respeitava suficientemente a Constituição para saber que não havia outra possibilidade.

 

Qual é o problema maior com que se confronta hoje a sociedade portuguesa?

É a esperança no futuro. Neste momento, somos uma sociedade que vive um sentimento de pressão, de cerco, de desconfiança em relação ao futuro. Não é uma desconfiança de uns em relação a outros, que precede as guerras civis. Em muitos aspectos até temos um diálogo social mais próximo. O que acontece é que nos sentimos expropriados dos instrumentos de construção do futuro. Isso nota-se, por exemplo, no grau de investimento, que não tem apenas que ver com o facto de as empresas estarem muito endividadas. Tem que ver com a ausência de confiança. Para investir, as pessoas precisam de acreditar que daqui a cinco anos temos a mesma moeda, temos uma união monetária, que as coisas continuam. A incerteza é uma sombra terrível que paralisa a vida do país.

 

O euro foi um erro para Portugal?

Se fosse possível voltar atrás, não devíamos ter entrado no euro. Mas agora é mais fácil perceber isso porque quando entrámos, a história que nos contaram não era esta, era que seria o primeiro passo para a união política. Por isso é que os federalistas, como eu, aceitaram a moeda única. Pensaram que havia riscos, mas havia uma forte possibilidade de a dinâmica ser essa, nomeadamente se a Alemanha continuasse interessada. Só que a Alemanha, depois de Helmut Kohl, nunca mais foi federalista. E não é só Merkel. Gerhard Schröder também não era federalista. Mas considerando que não devíamos ter entrado, qual é agora a coerência de achar que não devemos sair? É a coerência da realidade. É irreversível. A Zona Euro foi construída de forma muito atabalhoada, mas foi construída, parcialmente, por gente que a colocou como ponto de partida para outra coisa que vinha a seguir. Não há mecanismo de saída, só se sai pela janela.

 

E o preço a pagar?

É um preço brutal. Neste momento, o euro é uma força de coesão mas é, ao mesmo tempo, tóxico. Mantém-nos coesos porque até o mais humilde cidadão grego quer o euro, mas uma moeda não faz uma união. Se continuarmos assim, vamos ter os ataques das forças anti-sistema, que são geradas pelas forças do sistema. As atitudes de Schäuble e de Dijsselbloem são o combustível do populismo. São elas que estão a dar energia às forças desagregadoras.

cotacao Há países europeus no centro de um vulcão, que estão a ser queimados.

O Brexit ensinou-nos a importância de ter moeda própria. [...] Se fosse possível voltar atrás, não devíamos ter entrado no euro. 

Podemos estar perante uma equação impossível? Uma ruptura poderá conduzir-nos ao conflito?

Pode haver uma guerra europeia. Não como a de 14-18 ou a de 39-45, mas uso da violência ou ameaça de uso da violência. A desagregação pode começar num grande país como Itália, França ou Alemanha. Imaginemos que a extrema-direita ganhava na Alemanha. Já há vozes a defenderem o rearmamento alemão, a dizer que a Alemanha não pode ser uma potência com pés de barro. Rearmar significa armas nucleares. Se isso algum dia acontecer, os vencedores da II Guerra vão unir-se contra, mas será um facto consumado. Numa situação em que Marine Le Pen seja a interlocutora de Merkel, não vai hesitar em lembrar que França é uma potência nuclear. Estamos a caminhar para uma Europa esfarelada. Portugal manterá a sua integralidade, mas Portugal sempre foi um milagre a esse nível. Espanha vai partir-se em três ou quatro. A Bélgica vai desaparecer, talvez de forma violenta. França talvez se mantenha. A Grã-Bretanha já está a esfarelar-se. Tenho muitas dúvidas de que a Alemanha se mantenha como está, julgo que a Baviera é capaz de se separar. A Itália também se pode dividir entre o Norte e o Sul. Isto para Putin é fantástico porque a Rússia se mantém como a grande potência.

 

Portugal tem de procurar novas alianças ou manter as velhas?

Temos de ter a capacidade de falar com todos os nossos parceiros, a começar pela Alemanha, numa perspectiva de "mutual assured destruction". O senhor Schäuble pensa de forma diferente de nós em relação ao futuro, então vamos pensar como é que poderá ser um futuro em que todos discordemos. É um futuro de destruição mútua assegurada. Destruição financeira, económica, todos mais pobres, zangados uns com os outros. As principais vítimas da implosão do euro vão ser as indústrias mais competitivas, com os melhores trabalhadores, os melhores métodos de produção, mais intensivas do ponto de vista do conhecimento, e que vão desaparecer porque não têm mercado. Quando voltarmos às moedas nacionais, como é que se faz o comércio? Parece que as pessoas não pensam. E a Alemanha é o país que mais cairá a pique porque está todo projectado para o mercado externo, parece que não tem mercado interno. Os alemães vivem com dificuldades.

 

E por isso são muito mais exigentes com todos os outros?

Exactamente. Vivem com pleno emprego, mas a maior parte das pessoas qualificadas tem dois empregos, porque só com um não conseguem. Depois há muitos miniempregos, há muita discriminação de género, muito mais do que cá. Quando se é mãe, fica-se três ou quatro anos afastada do mercado de trabalho. Só conseguem voltar para empregos pouco qualificados, a ganhar 500/600 euros. Há milhões de pessoas assim. A burguesia dominante está riquíssima. Estão cheios de dinheiro. Não investem. Nem em obras públicas. Têm excedentes. E, como sabemos, os excedentes de uns são os défices de outros. 

 

Que o levou à Filosofia?

Quando terminei o secundário, no ano da revolução, colocaram-se várias hipóteses: Direito, História, Filosofia. História era gratificante, Direito seria um instrumento de trabalho futuro importante e a Filosofia um grande instrumento metodológico de pensamento. Escolhi aquilo que me parecia ser o mais difícil.

 

Estava à procura de quê?

Era o desafio de compreender, tentar perceber como isto funciona. Continuo a ter essa curiosidade insaciável. Continuo interessado em desmontar relógios, só que não são relógios. A Filosofia parecia-me ser a porta de entrada para esse processo. E julgo que não me enganei. É também a possibilidade de encontrar um método de trabalho, de pensamento, que possa ser permeável a outros saberes e metodologias. No fundo, uma espécie de metametodologia.

 

Foi por aí que chegou às questões ambientais?

Aí coloca-se o meu tempo e a minha região: a industrialização de Setúbal, a Arrábida… Assisti a mudanças físicas e sociais, pessoas que passaram da pesca, da agricultura e do artesanato para a indústria. O ambiente surge também pelo desporto: alpinismo, montanhismo, escalada. Fazíamos escaladas na Arrábida e em Sintra. Conheci o eng. José Correia da Cunha, fundador da política de ambiente em Portugal. Marcou-me um programa da RTP: "Há só uma Terra", de Luís Filipe Costa. Via-o todas as semanas, religiosamente. Com a revolução de 74, tornei-me um jovem marxista. Era quase impossível não o ser na altura. Mas as questões da emancipação social nunca taparam as questões da crise do ambiente. Senti muitas vezes que falava sozinho no meio dos meus amigos marxistas. Interpelei-os muitas vezes: vamos fazer a emancipação em cima de ruínas?

 

Militância ambiental. E partidária?

Tive uma passagem muito breve por duas organizações políticas. Entre os 16 e os 18 anos pela UEC [União dos Estudantes Comunistas], depois entre 1976 e 1978 pela LCI [Liga Comunista Internacionalista], foi aqui que conheci o Francisco Louçã, de quem sou amigo, apesar de algumas polémicas que tivemos nos jornais. O Louçã é uma pessoa com muito valor, mas nem sempre tem um grande sentido de humor… A LCI era o partido mais determinadamente democrático que existia em Portugal. Era um clube de discussões. Nenhum partido tinha uma capacidade tão grande de argumentar.

 

Pensou alguma vez que Portugal precisava de um partido ecologista?

Debati essa questão nos anos 80 e 90. A minha perspectiva foi sempre mais transversal. Apostava num forte movimento social ambientalista, ecologista, que irradiasse para os partidos políticos. Aposta um pouco semelhante ao que aconteceu na Alemanha, que tinha um grande movimento social, que eram as "iniciativas de cidadãos", embrião do Partido Verde, e ao mesmo tempo também responsável por um diálogo político que gerou um consenso em torno de uma economia social verde.

 

Nós temos um partido chamado Os Verdes.

Não quero ser desagradável porque já passou muito tempo e sei como se criou. Procurou-se capitalizar à escala nacional um processo genuíno, que tinha acontecido na Alemanha. Chamei-lhe há muitos anos uma engenharia genética política. Não podemos comparar Os Verdes portugueses com os alemães até porque os nossos nunca concorreram sozinhos a eleições. Não sabemos o que valem.

 

É um intelectual comprometido?

É uma denominação clássica, que me agrada, é simpática e bastante rigorosa. O primeiro livro que escrevi foi um livro de poemas. Tinha 16 anos e chamava-se "Voragem dos Dias". Com 58 anos, acho que hoje tenho distanciamento em relação a mim próprio para me perguntar: que levou um tipo com 16 anos a escrever um livro com este nome? Não é um livro típico de um jovem. Há qualquer coisa, no modo como me olho, que tem que ver com esta questão da fragilidade da condição humana, da efemeridade das nossas apostas, a "vanitas" que nos percorre… E neste aspecto pergunto-me: onde é que posso aplicar melhor o meu tempo, se a passagem é breve e se, como dizia Pascal, isto acaba sempre da mesma forma? A possibilidade de ter uma actividade profissional que, além do suor, tem uma componente grande de fascínio, prazer, aprendizagem, descoberta, partilha, é fantástica. 


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