A dor do País Basco

Fernando Aramburu utiliza a ficção para nos retratar um dos mais impiedosos conflitos das últimas décadas, que se passou no País Basco. Um livro notável.
Jornal de Negócios
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Fernando Sobral 05 de maio de 2018 às 17:00

Fernando Aramburu
Pátria
D. Quixote, 716 páginas, 2018
A fragmentação de Espanha não começa e acaba na Catalunha. É uma ferida aberta que nunca deu mostras de cicatrizar. É isso que nos faz compreender melhor uma das grandes novelas dos últimos anos, "Pátria", de Fernando Aramburu, uma obra de fôlego.
O contexto é difícil: duas famílias de Guipúzcoa, no País Basco, convivem. Os homens e as mulheres são amigos, tal como os filhos. Uma família tem riqueza, a outra nem tanto. A mais rica paga "imposto revolucionário", a mais pobre tem um filho que circula nas áreas da ETA. Mas essa paz aparente desvanece-se quando surgem ameaças e ocorre um assassinato. Nada será como antes. A antiga amizade transforma-se, de repente, numa guerra surda, em que a cobardia surge mais clara do que escondida. É o retrato de uma era que agora parece terminar, mas onde é claro que há muitas cicatrizes que não desaparecerão tão facilmente. Para escrever sobre este tema, tinha de ser um escritor basco como é Aramburu. É uma novela sobre carne e sangue, mas que denota uma grande paixão sobre o seu povo.
Não é por acaso que encontramos muitas expressões em euskera, a língua basca. Nem é estranho que seja uma obra dura com a ETA, mas isso entende-se. Aramburu escreveu-a distante, na Alemanha, e chega agora porque é preciso abrir o palco todo para se perceber o teatro trágico onde decorreu um conflito sangrento, desprovido de qualquer sensatez. Aqui, descobrimos as vítimas, os familiares dos assassinados, todos aqueles que viviam fustigados pela lei do silêncio que prendeu o País Basco.
A dor dessa guerra visível e invisível tem agora uma transposição para uma ficção muito real. São praticamente quatro décadas de luta armada que passam defronte dos nossos olhos. As personagens ajudam: seja Miren, com o seu fanatismo (tal como o do seu filho Jose Mari, que participa na morte do melhor amigo do pai), as vítimas, o empresário Txato e a mulher Bittori, que vão vendo como as pessoas deixam de os cumprimentar, os silêncios que os encurralam e a necessidade de os jovens serem simpatizantes da ETA.
Está quase tudo aqui, como numa enorme montanha-russa descontrolada: o PNV, a Igreja com as suas cumplicidades, os GAL, os atentados.
Para Aramburu, o mais importante é descrever como o País Basco foi corroído pelo mal e pela loucura colectiva. É uma sociedade a viver uma tragédia que parece não ter fim. Aramburu não quer ser um espectador que não interfere: sabe o que é crime e o que é o terror. Isso está claro nas páginas. As suas personagens são pessoas que vivem e sofrem. Tal como Joxian, o marido de Miren, que não gosta de falar, mas tem um fundo de bondade. Ele evita discutir, cede quase sempre, e precisa de um espaço onde se sinta só e livre.
Este é um romance que permite conhecer melhor o enorme pântano que se criou no País Basco e todo o silêncio que foi cúmplice de crimes sem fim, praticados por todas as partes, de forma voluntária ou involuntária. Um magnífico romance sobre uma parte da História de Espanha.

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