Sobre o fim do tempo

Yuval Noah Harari, depois do sucesso de “Sapiens” e “Homo Deus”, regressa com um novo livro sobre as dúvidas e medos com que nos deparamos neste século XXI.
Jornal de Negócios
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Fernando Sobral 02 de setembro de 2018 às 14:10

Yuval Noah Harari
21 Lições para o Século XXI
Elsinore, 391 páginas, 2018
Autor de "Sapiens", reflexão sobre como o futuro se tornou central para o pensamento humano, Yuval Noah Harari tornou-se uma espécie de guru destes tempos desconcertantes. No fundo, o autor reflectia sobre algo que é profundamente humano: mesmo em tempos em que os povos se curvam perante a tecnologia e o progresso, nunca desaparecem as possibilidades de declínio e queda das civilizações.
As visões do apocalipse são cíclicas. O tempo do Iluminismo dá-nos muitos motivos de reflexão sobre este confronto teórico e não é demais pensar como Rousseau nos falava da chegada da era da crise e das revoluções em pleno século XVIII. Falava da decrepitude das monarquias e das repúblicas e do seu caminho rápido para a morte. Dostoievsky, o grande escritor russo, talvez mais do que outros, tentou mostrar como a idade da tecnologia (simbolizada pelo Palácio de Cristal de Londres) representava a forma como o apocalipse estava a chegar. Vinha aí a morte e, depois, o Inferno. As duas guerras mundiais simbolizavam esse desastre iminente. Tal como a possibilidade de guerra nuclear ou, mais recentemente, a vitória do neoliberalismo e da globalização, que dizimou culturas e aumentou o fosso entre pobres e ricos.
Neste seu novo livro, Yuval Noah Harari vem dizer-nos que "os liberais temem que o Brexit e a chegada de Donald Trump" nos arrastem para o fim da civilização humana. Ou seja, esta obra não é sobre o passado: é sobre o presente e o futuro. Como se comportarão as democracias face aos desafios lançados pela biotecnologia e pela inteligência artificial numa altura em que, diz o autor, o liberalismo está a perder a credibilidade? Por outro lado, estaremos a ficar reféns da simplicidade: "Os seres humanos pensam através de narrativas e não através de factos, números ou equações, e quanto mais simples a narrativa, melhor." E cada país ou povo constrói a sua.
Harari coloca outras questões para reflexão: deveremos ter medo de uma nova guerra? O que é que pode ser feito para travar a mudança climática? Quais são as melhores respostas ao terrorismo e às "fake news"? A nossa noção de justiça está a ser posta em causa? Qual será a relação entre o secularismo e a crença em Deus?
Todas estas questões são exemplos do que encontramos neste livro e para as quais o autor procura dar-nos algumas pistas para encontrarmos uma resposta. Por vezes, sente-se neste livro que muitas das ideias avançadas por Harari são um pouco superficiais, como por exemplo no capítulo em que sugere que a tecnologia pode vir a destruir muitos empregos desempenhados por humanos. Mas que isso pode "alargar o âmbito das actividades humanas que consideramos 'empregos'". E acrescenta: "Talvez tenhamos de mudar a nossa forma de pensar e compreender que cuidar de uma criança é o trabalho mais exigente do mundo. Se assim for, não faltarão empregos, mesmo que os computadores e os robots substituam todos os condutores, banqueiros e advogados. A questão, claro, é saber quem avaliaria e pagaria estes empregos recém-reconhecidos." É verdade. E é para casos como este que as respostas de Harari nem sempre são convincentes. Apesar da leitura estimulante que é este livro.

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