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O Gulag de Soljenítsin

Foi nos “campos de trabalho” soviético que Aleksandr Soljenítsin encontrou a fonte para “O Arquipélago Gulag”, agora reeditado, em nova versão, em Portugal.

Fernando Sobral fsobral@negocios.pt 18 de Março de 2017 às 12:00
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Aleksandr Soljenítsin
O Arquipélago Gulag
Sextante, 589 páginas, 2017


Os campos de "trabalho" forjaram Aleksandr Soljenítsin: foram oito anos na prisão e no Gulag e depois o exílio. Para as teorias bolcheviques, os campos de "trabalho" deveriam redimir os que se desviavam dos "princípios correctos". Funcionou ao contrário para o escritor russo: perdeu a sua crença no marxismo-leninismo e recuperou a sua fé ortodoxa. Tornou-se também o homem que fez o relato desses campos em que, no Ocidente bem pensante, ninguém queria acreditar. Tudo isso está no notável "O Arquipélago de Gulag", agora editado numa versão nova.

Nele se nota o fascínio do autor pelas histórias díspares, de homens e mulheres, que ali escutou. Como objectivo tinham apenas um: sobreviver. Soljenítsin teve a sorte de, por causa dos seus conhecimentos de física e matemática, ter sido transferido para uma prisão que funcionava como centro de pesquisa científica. Ali passou três anos a trabalhar em sistemas secretas para telefones. E isso, muito provavelmente, salvou a sua vida. Ao mesmo tempo, permitiu-lhe ter uma vida mais confortável e tempo para ler e escrever. As suas obras estão recheadas de material que colheu nesses anos, como foi o caso de "Um Dia na Vida de Ivan Denisovich", o único dos livros baseados no Gulag onde o escritor não é protagonista.

A sua saída para o longo exílio, em 1953, abriu as portas para a segunda fase da sua vida: a de resistência. E isso passava por escrever sobre o que viu e sentiu. Mantendo o seu trabalho diário, foi escrevendo às escondidas. E tudo foi amadurecendo até chegarmos a "O Arquipélago Gulag". É um livro poderoso e que destrói a ideia do paraíso na Terra que a liderança soviética tinha tornado como verdade absoluta. E que os intelectuais ocidentais beberam com prazer.

No início dos anos 60, os seus trabalhos já circulavam de forma clandestina. Mesmo entre o círculo do poder. O período de crítica a Estaline, que Krushchev inaugurou, abriu uma porta e "Um dia na Vida de Ivan Denisovich" foi publicado. Acabou no entanto por ser deportado da União Soviética, já depois de ter recebido o Nobel da Literatura.

A publicação de "O Arquipélago Gulag" no Ocidente, em 1974, tornou-o definitivamente uma "persona non grata" junto do poder soviético. Ele não queria deixar a Rússia, porque a sua ligação às raízes do país e à sua cultura tradicional eram demasiado fortes (como se veio a perceber depois, quando regressou ao seu país). Mas o desejo de dar a conhecer a verdade que se escondia por detrás da propaganda, acabou por motivá-lo. A sua vida em Vermont, onde estava isolado, como se estivesse num Gulag muito próprio, marcada por uma intensa autodisciplina, deram a ver muito daquilo que o escritor era. Um homem da "grande mãe Rússia", da sua memória e tradição. E isso afastava-o tanto do comunismo como do capitalismo, especialmente o americano, que associava à mediocridade, falta de coragem e consciência cívica e superficialidade. Para ele, o Ocidente não era um modelo para a Rússia, que tinha um nível de desenvolvimento espiritual que a Europa ou os EUA eram incapazes de oferecer.

O colapso da União Soviética permitiu o seu regresso em 1994, como se fosse um profeta. Mas era tarde. Já não tinha o peso de outrora. A Rússia que descobriu nessa altura estava contaminada de uma fragilidade típica do Ocidente, dominada por cliques que agarravam com as duas mãos os bens públicos. Soljenitsín sempre acreditara no sofrimento e não nestes novos tempos. E isso está bem expresso neste contundente livro.




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