Livros Paul Mason: "O objectivo da Uber é impedir uma Wikipédia dos táxis"

Paul Mason: "O objectivo da Uber é impedir uma Wikipédia dos táxis"

Paul Mason defende algumas das fragilidades da sua tese de colapso do capitalismo. Assume o seu apoio a Jeremy Corbyn e outras soluções à esquerda, como o Bloco. O autor de “Pós-Capitalismo” confessa que o seu maior medo é que um regime opressor capture as suas ideias.
Nuno Aguiar 08 de julho de 2016 às 13:00

Ao longo de várias décadas, ouvimos muitas outras pessoas dizer que estávamos perante o fim do sistema capitalista. Até hoje, sempre estiveram erradas. Essa previsão perdeu credibilidade?

Sim, perdeu. Porque nunca foi o fim do sistema. Aqueles que previram a desgraça diziam que o capitalismo colapsaria devido às suas contradições. Mas ao longo da História ele ultrapassou-as ao adaptar-se. Contudo, não há nada na teoria dos sistemas que diga que eles vivem para sempre. A base da minha ideia é que a informação é um tipo diferente de revolução tecnológica, que limita a capacidade de o capitalismo se adaptar, pelo que a criação de novos empregos altamente qualificados e novas e mais caras necessidades para a humanidade está a inverter-se. Temos de imaginar a possibilidade de abundância. Se não houver escassez, não há mercado. Numa situação de abundância tecnológica, não haverá capitalismo.

 

Porque não consegue o capitalismo assimilar esta onda revolucionária?

Não sou o primeiro a escrever sobre a emergência do "peer-to-peer" e das coisas grátis ou sobre a estagnação [económica], mas sou um dos primeiros a ligar os dois. A tecnologia está a empurrar as pessoas para o gratuito [e] a economia "mainstream" não o consegue entender. Anteriores avanços tecnológicos automatizaram trabalhos antigos e criaram outros novos e mais qualificados, com valor e salários mais elevados. A informação tecnológica destrói mais empregos e mais valor do que cria. Agora ainda parece dinâmico, porque está integrado em sistemas monopolistas. O mundo só não está encharcado de coisas grátis, porque está cheio de monopólios e mecanismos de supressão de mercado. Se o mercado estivesse a funcionar livremente, reduziria o preço da informação para perto de zero e não haveria modelo de negócio. O mercado da informação leva-a à sua subutilização. Se o número de inputs e outputs é limitado pela propriedade, então a informação nunca será tão boa como poderia ser.

 

Admite a possibilidade de o capitalismo o surpreender como surpreendeu outros no passado?

O que me mostraria que estou errado? Se surgisse uma tecnologia que permitisse comercializar a informação em mercado e, tal como a engenharia eléctrica do início do século XX, criasse coisas novas e novos e mais bem pagos empregos. Quando pensamos que 47% de todos os empregos dos EUA são automatizáveis em 20 anos, de onde virá o emprego? Se o capitalismo conseguir responder a isso, sobrevive. Não é surpreendente que alguns [empresários] de Silicon Valley defendam um rendimento mínimo incondicional dado pelo Estado. Percebem que o efeito de modelos como o da Uber é baixar tanto o rendimento [dos trabalhadores] que as pessoas não conseguem sobreviver e, portanto, não conseguem conduzir ubers.

 

Essa proposta – rendimento incondicional – tem ganho tracção. Como é que isso se financia?

Numa primeira fase, com aumento de impostos. Há muitas formas de taxar empresas e elas têm  21 biliões de dólares em "offshores". Serviços como saúde ou trabalho social passariam a ser providenciados de graça num modelo semelhante à Wikipédia, porque no final não haverá mercado, portanto, não haverá taxação.

 

Essas ideias devem deixar a esquerda doida…

Elas não gostam nada.

 

Defende também que o movimento de trabalhadores não vai liderar nenhuma transformação.

A classe trabalhadora não é o actor da História na forma como o marxismo clássico defende. Mas os movimentos laborais lideram [o debate] em algumas partes do mundo.

 

Então que movimento levará esta agenda para a frente?

Empreendedores de PME focadas em software de código aberto, activistas anticapitalistas e defensores de energias verdes...

 

Mas isso não é um movimento de massas…

É verdade. Estamos no início. Há um sector colaborativo que, em alguns países, já é muito forte. A luta já não está no local de trabalho, está na sociedade. É preciso um programa que seja mais do que o velho programa da esquerda, do keynesianismo, da ortodoxia… Será necessário acção. Espanha tem o Podemos, em Portugal há o Bloco de Esquerda. Não está perto do poder, mas o Syriza também não estava.

 

A esquerda não pode argumentar que aquilo que defende legitima o individualismo?

Como o neoliberalismo ganhou e o trabalho estava desorganizado, houve um aumento do individualismo. Mas o que vejo agora são indivíduos mais fortes e em rede. Não partilho o desespero dos movimentos laborais. As "white wire people" [pessoas com os phones brancos a sair dos ouvidos] não são mais ou menos propensas à luta. Não têm é uma forma imediata e resiliente de organização. As redes não têm memória. Isso é uma fraqueza. Os partidos são bancos de memória. Temos de encontrar formas para a rede arranjar memória.

 

Estamos já numa fase de transição?

Estamos num ponto de viragem. Desde os anos 1990 que vemos o impacto da informação na economia. Tentámos teorizá-la, mas era muito difícil ver o seu impacto quando só tínhamos PC. Agora temos a rede e o início da Inteligência Artificial. Temos o início da abundância. Todas as empresas em Lisboa fazem transacções com a Wikipédia, mas isso não lhes aparece no balanço, porque a Wikipédia é um serviço gratuito. É o início de uma transição para uma economia onde um sector significativo produz coisas de graça e voluntariamente.

 

Mas quase toda a gente que contribui para a Wikipédia tem um outro trabalho, onde recebe um salário…

Sim, mas têm tempo suficiente para escrever a Wikipédia e ninguém se opõe a isso. Há um sector de mercado onde estas pessoas trabalham e um sector de não mercado. Gerir a transição é perceber que existem sistemas paralelos. Queremos promover a Wikipédia ou a Uber? A Uber é um negócio dedicado a substituir coisas grátis por coisas que temos de pagar. A economia da partilha foi colonizada por negócios armados com capital de risco, com o objectivo de captar sectores da economia que podiam ser geridos de forma colaborativa. Seria igualmente fácil para os táxis de Lisboa terem um sistema de partilha de viagens. A Uber tem como objectivo que um negócio como a Wikipédia não surja no mundo dos táxis.

 

Viveríamos melhor num mundo pós-capitalista?

Acho que sim. Se chegarmos a uma fase em que as nossas vidas não são definidas pelo trabalho, as nossas utopias também não serão definidas pelo trabalho. Para o meu pai e o meu avô, a sociedade ideal tinha por base o trabalho. Para as vossas gerações não. Se não passar oito horas no trabalho, a vida é qualitativamente melhor.

 

O capitalismo não tirou milhões de pessoas da pobreza?

É verdade. Mas a classe trabalhadora e a classe média do mundo desenvolvido perderam com isso. Além disso, nos anos 1930 costumava ouvir-se que o estalinismo era bom porque tirava as pessoas da pobreza. E tirou. De uma forma brutal. [Hoje] só tem de visitar as fábricas do Bangladesh que colapsaram ou os bairros de lata de Manila para ver quão brutal é. Rio-me quando defensores do capitalismo me dizem quantas pessoas foram tiradas da pobreza. Vão até um bairro de lata em Nairobi, Lagos ou Manila e verão que não é uma história feliz. Têm mais dinheiro, mas também doenças, fraca educação, violência, disrupção de comunidades… não esqueçamos esse lado da História.

 

A esquerda perdeu a batalha da narrativa?

A esquerda tinha os primeiros capítulos, mas não o final da história. A narrativa da direita é simples, eficaz [mas] defende um sistema que está a colapsar. Detém quase todos os media e quase não existem departamentos de economia que ensinem que o sistema está errado. A economia de direita parece coerente porque descreve a actual forma de capitalismo como a sua forma mais pura. Como se não pudesse haver nada melhor. O problema é que ele está a colapsar, temos estagnação, temos a quebra da ordem global, mais guerras, mais movimentos em massa de população, retórica genocida… Consegue imaginar tudo isto acalmar e voltarmos a uma idade de ouro? Não consigo. Se as elites centristas não se afastarem da economia de direita e não se virarem para um novo modelo de capitalismo, então a batalha será simplesmente entre a extrema direita e a esquerda radical.

 

Não pode ser acusado de misturar análise com "wishful thinking"?

Se acreditasse que a forma de chegar a uma sociedade melhor fosse pelo modelo socialista ou pela revolução, então os primeiros 20 anos da era neoliberal teriam sido muito deprimentes. Há muitos pessimistas no movimento. No Reino Unido, apoio Jeremy Corbyn. Ele está à esquerda de Tsipras. Acredito que será o primeiro-ministro e tenho actuado em conformidade: começámos a desenhar aquilo que vamos fazer. Se o Partido Trabalhista ganhar, será um acontecimento importantíssimo na História do capitalismo: a quinta maior economia do mundo liderada pela esquerda radical.

 

Parece esperançado. Preocupa-o que dentro de 50 anos olhemos para estas ideias como uma utopia?

O meu medo é que regimes repressores roubem a minha agenda. Tal como o bolchevismo fez. Se a direita quisesse afastar-se do neoliberalismo através de redes e horizontalidade, poderia fazê-lo. Israel poderia transitar para o pós­-capitalismo tão rápido quanto a Palestina. O meu medo secreto é que uma ditadura o faça. Por isso é que quero que esteja agarrado a uma agenda progressista. 




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