Samuel Úria: "É preciso que eu diminua para que os outros cresçam em mim"

Samuel Úria é o mais destacado cantautor da sua geração. Pelas suas letras, mas sobretudo pela música que compõe, marcada por uma riqueza melódica e variedade vocal e coral incomuns. Carga de Ombro é o seu terceiro disco.
Bruno simão
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Manuel Esteves, Bruno Simão - Fotografia 09 de junho de 2016 às 09:33

Samuel Úria é o mais destacado cantautor da sua geração. Pelas suas letras, mas sobretudo pela música que compõe, marcada por uma riqueza melódica e variedade vocal e coral incomuns. A conversa decorreu na esplanada do Miradouro da Graça, em Lisboa, e, como música de fundo, ouviu-se o canto dos pássaros, o refolhar das árvores e o toque dos sinos. Mas a música de Úria é outra. Na forma, é o testemunho vivo da simbiose que existe entre música popular e música religiosa, com raízes profundas que vão beber às origens do rock e folk norte-americano; no conteúdo, é o Samuel, homem devoto, que se expõe e esconde enquanto luta com as suas contradições e anseios. Eis a história de um músico improvável. E do seu novo disco, "Carga de Ombro".

Samuel Úria é uma combinação improvável: um protestante num país de católicos; um cosmopolita vindo de uma terra pequena no Portugal profundo; a fazer uma música que é simultaneamente velha e nova, portuguesa e americana. Queria perceber a origem de tudo isto. Nasceu em Tondela. Como era Tondela quando era miúdo?

Eu apanho uma fase que deve ter percorrido grande parte do interior do país, em que este deixa de estar culturalmente afastado do resto do mundo. Sobretudo porque houve muita gente que, logo a seguir à revolução, veio para Lisboa, numa espécie de pequena migração cultural, malta que não se identificava com a pressão que ainda se sentia no interior, que fez teatro e música em Lisboa e que depois voltou para Tondela e fez associações culturais… Eu cresço numa Tondela com uma enorme vivacidade. Deve ser a primeira geração que tem esse privilégio de receber gente na terra, que quer semear sementes que colheu noutros pólos culturais e intelectuais maiores. Havia uma espécie de cultura de resistência, de guerrilha quase, uma espécie de guerra civil contra o "establishment" de um interior focado em si próprio e encerrado nas suas tradições. Acho que sou fruto disso.

 

Ou seja, não é um caso à parte na sua geração.

Não sou. Quando comecei a dar as primeiras entrevistas, era quase vantajoso fazer-me passar por uma figura que tinha crescido muito desterrada e que as pessoas estavam a assistir a um momento de emancipação, do rato do campo que chega à cidade. Era a voz do campo. Quase como se eu fosse um Woody Guthrie [cantor e compositor norte-americano de música folk] que tinha chegado descalço a Lisboa e estava a cantar coisas com a frescura do António Aleixo e com uma pertinência de Fernando Pessoa – estou a exagerar, obviamente. Aproveitei­-me um pouco dessa personagem... Mas não é verdade. Eu sou da primeira geração dessa miniglobalização cultural.

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O que faziam os seus pais?

O meu pai era enfermeiro embora, durante quase toda a minha vida consciente, tenha tido um cargo directivo no hospital de Tondela. A minha mãe era professora de música particular, dava aulas de música em casa. Estudou no Conservatório.

 

Portanto, além da igreja [Baptista], também a família o puxou para a música?

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A família, sim. Sobretudo, pelo lado das mulheres da minha família. A minha mãe e a minha avó materna, muito mais próximas de mim, sempre gostaram de música e de desenhar. A minha avó e a minha mãe desenhavam muito bem. Eu comecei por querer fazer alguma coisa no desenho, mas depois desisti. Ou o desenho desistiu de mim.

 

Portanto, a sua primeira paixão foi o desenho, não a música.

Sim. O facto de a minha mãe dar aulas de música, ainda por cima em casa, e muitos dos meus colegas irem lá ter aulas, fez-me desinteressar da música, da parte teórica. Era a minha mãe! Eu não ia aprender uma coisa que ela ensinava em casa!

O punk salvou-me a estética, não tanto os ouvidos.
No palco, as pessoas vão para te ver, tens de ser tu a dobrar. Uma 'overdose' de ti próprio. 
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Em casa de ferreiro, espeto de pau.

Exactamente. A minha mãe estudou piano e órgão, domina teclas. E eu afastei­-me completamente disso. Claro que algumas coisas ficaram cá atrás, hoje toco piano se for preciso, mas de uma maneira muito rudimentar.

 

Nunca aprendeu música teórica?

Não aprendi música. Tirando essas primeiras noções que a minha mãe me deu, e o que ela me ensinou de solfejo para o piano ou para o órgão acabou por ser a base para eu aprender guitarra. Então, estava eu completamente desapaixonado da música enquanto instrumentista, não tinha qualquer afeição, quando a minha irmã foi aprender guitarra e apareceu lá em casa uma guitarra. E isto foi em 1991. Nesse ano saiu o Nevermind [segundo álbum dos Nirvana que teve um enorme impacto]. Eu, com 12 anos, queria pegar naquela guitarra e tocar aquelas músicas. E foi a maneira de começar a tocar. Ouvi muitas coisas, tentava tocar por cima, essa foi a minha aprendizagem, foi decalcar.

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Mas começou a cantar por causa da igreja?

Na igreja, toda a gente canta. E, nesse sentido, tu perdes um bocado a noção do que é a tua voz. Estás sempre num momento comunitário em que o grupo interessa. Isso também se verifica hoje nos meus discos, em que eu levo a malta para a minha voz desaparecer na multidão de coros e harmonias. Para mim, a multidão interessa sempre. Interessa-me sempre esse lado congregacional… É uma coisa matemática: muitas pessoas a cantar uma coisa têm mais força do que uma pessoa só. A primeira experiência que tenho a cantar é nas bandas de liceu, e eu nem era o vocalista principal de nenhuma das bandas onde estive, mas fazia a maior parte das canções. De vez em quando alguém faltava e eu cantava e comecei a ter alguma noção da minha voz. E é uma consciência de que não eu não sirvo para cantar e isso acompanhou-me até há pouco tempo. E ainda hoje me considero mais um escritor de canções do que propriamente um intérprete. Mas sempre legitimado por malta que eu começava a ouvir na altura e que não eram os melhores cantores. Quando comecei a fazer canções, queria imitar a maneira de cantar do Lou Reed, sempre a semitonar um bocado.

 

E o Lou Reed nunca teve boa voz.

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Sim. E o Bob Dylan, que é um grande cantor, mas sabe cantar mal como ninguém. E nas bandas punk que eu tinha, só era preciso berrar e dar cabo da voz. Só começo a desacelerar quando compro um disco do Bob Dylan, "The Freewheelin" [segundo álbum de Bob Dylan, de 1963], que mudou um bocado a minha vida e comecei a desacelerar as coisas que tinha feito para as bandas. Coisas claramente punk, com poucos acordes, mas tocá-las de maneira mais folk, voltar à guitarra acústica.

 

Eram bandas de liceu ou bandas ligadas aos seus amigos da igreja?

Eram bandas de liceu. Porque na igreja havia muitas raparigas da minha idade, mas só havia um rapaz um pouco mais novo e não tinha muito interesse por música e, portanto, não tinha gente que me acompanhasse. É que não era tradição, sobretudo no interior, haver mulheres a integrar bandas. E, portanto, fazia bandas com os meus colegas na escola até porque eram eles que ouviam a música que eu gostava na altura.

 

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Que tipo de adolescente é que era? Um punk de roupa rasgada, com crista?

Nunca usei crista. O punk salvou-me um bocado a estética, não tanto os ouvidos, porque entre 1992 e 1996 a minha estética ainda estava muito refém do grunge. A cena de usar as camisas de flanela... Bem, até se justificava, Tondela é um sítio frio, é como Seattle, era um sítio frio e chuvoso [risos]. Usava camisas de flanela, dez T-shirts, umas em cima das outras, as calças rotas, com outras calças por baixo e o cabelo muito desgrenhado, como hoje, volta e meia, ainda tenho. O punk apareceu mais tarde, e apareceu muito por influência de um colega da escola, que era o Pascoal, que vinha de Mangualde – é engraçado o punk ter sido introduzido na minha vida por um gajo de Mangualde! Era o gajo que ia de pijama para as aulas, e depois vestia um casaco muito punk por cima.

 

E quando acabou o liceu, vai para Coimbra?

Não. Por questões absolutamente irracionais, quando chegou a altura de escolher o curso, eu preferi ficar perto de casa. Um bocado relacionado com a banda que eu tinha na altura, não me apetecia deixá-la, foi a única banda que tive na vida em que ensaiávamos com regularidade. Mesmo hoje em dia só ensaiamos quando há concertos. E aquilo não era sequer ambição, era mesmo um prazer descomunal tocar com aquela malta.

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Foi a música que condicionou, então, a sua escolha do curso?

Isso, e também umas questões com umas miúdas, não completamente assumidas [risos]. Eu era um gajo muito irresponsável. Não me arrependo porque acabei por fazer grandes amigos lá. Fui para Viseu estudar Educação Visual, foram anos divertidos, mas é verdade que não aprendi nada.

 

E foi lá que começou a dar aulas de Educação Visual?

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Estagiei em Viseu, mas depois andei pelo país a dar aulas.

 

Veio parar a Lisboa por causa da música?

Não, vim dar aulas para Lisboa. Se bem que na altura já estava a fazer música mais a sério. Passava muito tempo em Lisboa por causa das entrevistas e dos concertos. Já havia esse mundo paralelo a despontar, a maior parte do tempo era gasto com a música e não com as aulas. A partir de 2011 deixei de dar aulas.

 

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As suas grandes referências musicais são norte-americanas. Nomes como Bob Dylan, Johnny Cash, Elvis, Leonard Cohen…

Não é consciente, mas eles tornaram­-se numa espécie de património cerebral.

 

Chegou a muitos destes cantores através das adaptações religiosas que cantava nas igrejas, adaptadas em português...

Isso é verdade no caso do Johnny Cash. Do Bob Dylan, só me lembro de uma canção , o "Blowin’in the wind", que tinha uma versão que se cantava nas igrejas, vinda daquela safra de protestantes meio "hippies", do PREC. Nessa altura, havia canções que se cantavam na igreja que soavam a José Mário Branco.

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Por mais homenagens que lhe façam, nunca alguém conseguirá reproduzir em louvor o génio que aquele homem [Zeca Afonso] era. 

Curioso. Não se associa música religiosa a José Mário Branco…

A música popular e protestante religiosa sempre estiveram lado a lado. A música popular sempre foi permeável ao que se fazia nas igrejas e o soul e o blues nascem desse lado espiritual. E o inverso também: quando o protestantismo chega com os colonos aos Estados Unidos, eles não tinham liturgia com música própria, a música sacra não interessava e, para ser uma música comunitária, ou se adaptava ou se faziam uns covers um bocado manhosos de música de saloon e com letras inspiradas em textos bíblicos. E não é exagero nenhum dizer que quando, mais tarde, me torno num admirador de Johnny Cash ou de Elvis (o Dylan é diferente), já conhecia muitas canções deles porque eles também foram buscar esse património, que faz parte do tecido cultural dos Estados Unidos, que é a música religiosa. Todos eles têm discos religiosos, mesmo em discos normais, eles usam essas canções com as quais eu cresci, a cantá-las congregacionalmente, com muito boas traduções portuguesas.

 

Que nomes da música portuguesa mais o marcaram?

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Eu diria que há três ou quatro nomes maiores, mas depois começo a pensar em discos e a lista alarga-se. É o caso do disco "Só" do Jorge Palma, que, não sendo um disco de originais, é um dos discos maiores da música portuguesa. Mas quem mais me excita na música portuguesa é o António Variações; o Rui Reininho e os GNR; e os Heróis do Mar. Muito do que me congregou com a malta da FlorCaveira – com quem eu não tinha contacto – foram algumas referências comuns e, entre as mais inusitadas, estavam os GNR e os Heróis do Mar. E, claro, entre os consagrados, está o Zeca Afonso, um músico maior do que o país, não é dos que mais me excita, mas quando me ponho a escutá-lo, aquilo é comovente. É inacreditável. Por mais homenagens que lhe façam, nunca alguém conseguirá reproduzir em louvor o génio que aquele homem era. E há o Marceneiro... Houve uma altura em que me marcou muito.

 

Mas não o fado…

O fado também. A Amália e, hoje em dia, meto o Camané no panteão dos grandes fadistas de sempre. É uma força da natureza. Mas o Marceneiro… Aquela cena brutal de um gajo que se limita a gemer as palavras.

 

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E lá está outro cantor que não tinha grande voz.

Não tinha grande voz e era apreciadíssimo, não só como compositor, mas como intérprete. Havia um país no meio de uma ditadura que gostava de um cantor que gemia.

 

Há uma nova geração de cantores em Portugal que recuperaram um pouco o legado da balada…

Eu sou muitas vezes conotado como baladeiro e faço muitas baladas, mas estas são muitas vezes um subterfúgio, quando eu quero dizer as coisas mais rock’n’roll tenho de as meter numa balada porque senão ninguém vai ter paciência de as ouvir. Para mim, a balada é um exercício de autocontrolo que eu depois assumo esteticamente, como uma canção calma e silenciosa, trauteável, mas normalmente parte dos conceitos menos trauteáveis e menos doces que existem.

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Como é que é o seu processo criativo? Faz primeiro as letras, as canções ou nasce tudo em conjunto?

Se eu conseguisse, e às vezes funciona, gostava que me surgisse tudo ao mesmo tempo. O ideal era vir já com uma melodia e uma letra atrás. Mas ultimamente o meu trabalho tem sido pegar numa ideia, que eu não sei como é que chega, mas sempre fruto de preocupações ou ideais que estão cá encafuados. Se surge uma melodia, eu tento logo pôr umas primeiras frases em cima. Se me surgem umas palavras, também é bom que a maneira ritmada como me surgem em verso já sugira uma maneira de cantar e de musicar. Por isso, mesmo não sendo sempre bafejado por essa sorte de ter música e letra a surgirem em torrente, eu tento construí-las lado a lado. Eu sei que sou mais reconhecido como letrista, mas, quando trabalho as músicas, nunca o faço como parente pobre do que quero dizer. Tem de haver sempre uma justificação para o tipo de música que estou a fazer.  

 

Uma das coisas que chama a atenção nas suas músicas são os arranjos. Como é que surgem? São arranjos que já leva pensados ou é uma coisa que nasce no momento em que está a ensaiar?

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Depende um bocado. Neste disco foi diferente porque, pela primeira vez, trabalhei lado a lado com o produtor desde o início das canções. Nos outros discos, quando chegava a estúdio é que mostrava ao produtor e tínhamos uma conversa e a coisa era construída em estúdio e só aí é que tinha o cunho do produtor. Neste caso, fazia uma canção, gravava rascunhos, nos rascunhos metia já algumas coisas que achava que podiam ficar nos arranjos finais, mandava, recebia sugestões de volta, íamos eliminando um do outro o que achávamos que não entrava lá muito bem. Foi aí que nasceram os arranjos, nesse processo criativo constante, em que a canção era minha de facto, mas depois a maneira como ela ia respirando já partilhava essa tarefa.

 

Houve uma maior intervenção do produtor neste disco?

Sim, houve uma intervenção maior. É verdade que eu tenho esse poder presidencial de veto, as coisas só vão para a frente depois de eu concordar com elas, e de facto a maior parte das coisas que lá se ouvem saem da minha cabeça, mas o que este produtor trouxe foi, sobretudo, uma exploração instrumental e uma diversidade de opções instrumentais e algumas ideias. Eu, por estar confinado à guitarra e a alguns teclados, estava um bocado refém desse tipo de instrumentos e ele abriu o leque de soluções.

 

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Quanto tempo levou a fazer o disco?

Os meus discos levam sempre muito tempo a sair, mas não muito tempo a serem feitos. São mais as questões burocráticas editoriais e estratégicas que tardam a que o disco saia. Entre a altura de falar com o Miguel [Ferreira] e começar a escrever as canções e ir para estúdio, foram três a quatro meses. Foi bastante rápido. Todas as canções foram feitas aí, fomos para estúdio em Abril, depois meteram-se férias e concertos, voltámos para estúdio no fim do Verão e o disco só saiu agora em Março.

 

Não lhe acontece sair em "tournée" e já estar farto das músicas?

Não. O que me acontece é que estou tão saturado das canções na altura das misturas que, quando acabo, nunca mais pego nos discos. Só volto às canções quando regresso ao palco e aí tenho vontade de pegar nas canções sem estar preso às soluções que já me cansaram.

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Quando leio as suas letras vejo muitas palavras do léxico religioso. Surgem de forma automática por lhe serem muito familiares ou procura-as deliberadamente?

Como eu sou um bocado preguiçoso, há muita coisa que fui captando e entesourando ao longo dos anos. Era muito mais difícil meditar e pensar do que simplesmente abrir a torneira do que lá está. E muitas vezes essas soluções já são suficientemente complicadas para que as pessoas pensem: este gajo deve ter tido uma trabalheira enorme para fazer estes jogos de palavras, encriptar isto desta maneira, pôr este subtexto aqui, esta simbologia ali. Se calhar houve trabalho em meter aquilo tudo na cabeça, mas agora dava-me muito mais trabalho fugir a essa complicação. Tenho as regras todas na cabeça, tenho o património religioso literário filosófico, as coisas mais mundanas e mais escolares também já cá estão estruturadas, que basta abrir a torneira para que saiam encadeadas e com uma ordem.

 

Há alguma intenção evangelizadora nas suas músicas?

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Não sou proselitista. Mas sou um gajo que vive a religião a sério. Se isso me caracteriza, e dado que me vou expor, então é natural que o património lá esteja. Muitos dos meus anseios e das minhas mágoas ou muitos dos meus sermões, a minha observação agradada ou desagradada com o mundo, têm esse cunho religioso, isso tem de lá estar, se faz parte de mim.

 

Há uma canção deste último álbum, "Ei­-lo", que parece ter uma carga religiosa evidente, na qual pergunta: "Que lição nos dás por não nos responderes?" Que mensagem pretende passar?

Essa é talvez a canção mais religiosa. É inspirada num motivo de uma pintura que quase se secularizou: o Ecce Homo [Eis o Homem], que é uma representação de Jesus na altura em que é levado a Pilatos e que é uma das histórias bíblicas mais fortes: está ali uma pessoa a ser injuriada e castigada e que opta por não dar resposta às provocações que lhe estão a ser feitas. Também fui influenciado por uma canção de uma banda que o Sufjan Stevens produz, que são os The Welcome Wagon ["He never said a mumblin’word"].

As minhas grandes questões amorosas têm que ver com o compromisso porque o compromisso relembra-me o amor. 
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Nas suas letras, há muitas vezes uma ambiguidade grande. É deliberada ou é incapaz de ser mais concreto?

O que eu escrevo compromete-me mais do que 90% das conversas que tenho ao longo do ano. Uso muitas vezes a ambiguidade e o duplo sentido das coisas de modo que, no final, o que sobra, o que não é ambíguo, seja a lição a que eu quero chegar. Se as pessoas vão lá chegar ou não, não sei. Mas fico pacificado se souber que nas minhas canções há um aspecto fulcral onde eu não permito ambiguidade. É um bocado como a questão da conduta. Hoje em dia aflige-me as pessoas não fazerem as coisas por acreditarem nelas, mas por cartilhas que se multiplicam. Eu, por ironia, vou buscar o duplo sentido porque acho que vivemos cheios de ambiguidades e não fazemos as coisas por assertividade, mas por escolha múltipla.

 

Há um tema ausente nas suas letras que é o amor, tal como ele é tipicamente tratado na música popular. Já, pelo contrário, há muitas referências ao compromisso. Estou a lembrar-me das canções "Eu seguro" e "Carga de Ombro". Porque é que isso acontece?

É a mesma coisa de há pouco. Se os discos me revelam, eu também vou falar de canções de amor que estão condicionadas pela minha própria experiência pessoal. Sendo casado há 13 anos, apesar de o amor estar sempre presente, as minhas grandes questões amorosas têm que ver com o compromisso porque o compromisso relembra-me o amor. Sei que isto pode parecer desapaixonado, mas não é. Quando decides que queres ficar com uma pessoa para sempre, isso transcende aquela noção volátil da paixão e do amor e do gosto muito de ti no momento. Estás a assumir que vais gostar sempre e esse compromisso vai puxar pelo amor. Posso parecer muito frio ao dizer isto, mas é o contrário, é das coisas mais apaixonadas que posso dizer. Por outro lado, muitas das canções que são de amor tratam de episódios que me aconteceram e que não são assim tão transmissíveis e que eu, de alguma maneira, vou codificá-los para que, na linguagem poética codificada, aquilo possa tornar­-se numa coisa que as pessoas vão buscar e encontrar alguma coisa para elas mesmo, sem sentirem nisso amor. Para mim, não faz sentido contar as coisas episodicamente…

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Não quer contar histórias, quer descrever sentimentos e sensações.

Sim. Não sou o bardo que anda de terra em terra a cantar histórias.

 

Fala pouco de questões sociais. Porquê?

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Aí, sou prejudicado pelo linguajar religioso. Muitas das canções em que  abordo esses temas estão muitas vezes disfarçadas pelos episódios bíblicos que eu vou usar para corresponder a esses meus anseios. Eu sei que isso fica chutado para canto. Vivemos num Estado laico – felizmente! – e culturalmente estamos cada vez mais afastados dessa noção cultural da Bíblia, ao contrário do que acontece nos EUA. Qualquer cantora comercial faz uma canção a falar de uma parábola de Jesus e depois está a falar do rabo dela e assim congregam-se universos. A Bíblia está no cinema, na literatura. Outra vez, faz parte do tecido cultural norte-americano. Em Portugal, isso não acontece, faz sentido apenas para os protestantes, que crescem com essa proximidade e com a sensação de que estão a ser americanos em Portugal, não porque queiram renunciar à pátria e ser americanos, mas porque têm um apego a questões culturais na língua portuguesa que têm paralelo com os americanos e não tanto com os portugueses. Percebo que, de repente, a intenção e a preocupação social se esconda. Porque vou buscar o tipo de linguagem e de expressões que é mais anatemizado pela política em Portugal: não queremos cá beatices dessas para uma causa que nos é cara. Eu uso a fé como património cultural, que é mais do que válido, é riquíssimo.

 

Também há política no seu disco. É o caso da música "Repressão". Está a criticar quem?

Vivemos numa espécie de estado de sítio em que tens de te sentir reprimido contigo. Muitas vezes, há coisas que são feitas por convicção, mas que ficam desautorizadas por uma série de queixumes contra tudo e contra todos, que não são por convicção, mas por cartilha porque é moda na internet.

 

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É uma crítica à carneirada?

É um bocado. Há pessoas que pensam ser uma crítica ao politicamente correcto. Não é, não sou nada contra o politicamente correcto. Por exemplo, as feministas estão a fazer um bem brutal à sociedade. Eu sou um crítico muito grande quando isso é feito por cartilha e não por convicção.

 

Como é que se posiciona, de esquerda ou de direita?

Eu não me posiciono em termos de voto. Não posso ficar escravo de ideologias porque elas muitas vezes criticam o que eu penso e eu contrario o que elas defendem. Por outro lado, admito que sempre gostei de picar os meus amigos de esquerda… Não só pelo simples facto de ser um gajo religioso. A esquerda irrita-me, não tanto na sua doutrina, mas naquilo em que se tornou. Assumem que estão do lado dos bons, há uma superioridade moral óbvia, e quando eu digo alguma coisa… Por exemplo, estive em manifestações por causa dos presos políticos em Angola, esses meus amigos de esquerda vieram logo dizer "lá está aquele gajo de direita a ser de esquerda, a esquecer a lavagem cerebral que levou". Embora não me posicione entre esquerda e direita, diria que mais dificilmente seria de esquerda. Isto na Europa. Nos Estados Unidos, seria outra conversa. A esquerda é sempre menos liberal em termos de ideias. É mais difícil abandonar ideias pré-concebidas, é muito mais estatutária.

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Mas é mais liberal nos costumes…

Mas esse liberalismo nos costumes também faz parte dessas cartilhas. Há agendas que tens de subscrever porque senão és olhado de lado.

 

Eu diria que as pessoas poderão pensar que é conservador por ser uma pessoa religiosa.

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Por outro lado, também é verdade que, pelo meu lado estético e musical, há muita gente que parte do princípio que sou de esquerda.

 

Lá voltamos nós à personagem improvável que falámos no início. Mas até gosta disso, não é?

Eu gosto disso [risos].

 

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De não poder ser catalogado.

Pode parecer uma espécie de cobardia. Mas não é cobardia nenhuma, isso até me dá audácia para mandar bitaites para um lado e para o outro e ser crítico com ambos os lados. E, sobretudo, não ser o gajo de direita que, com o anterior Governo, estava caladinho e achava que estava tudo bem e que era tudo movido pelas restrições financeiras; nem agora estar encantado com isto. Mas antes estar desconfiado que isto daqui a uns tempos vai estar outra vez muito mau. Não estou a viver um período de lua-de-mel só porque temos um Governo de esquerda. Estou sempre desconfiado. Ser desconfiado é bom [risos].

 

Nas suas músicas, fala muito na graça e no reconhecimento imerecido pelo seu trabalho. Dá a sensação de que sente um peso na consciência por ter sido bem sucedido, como se o sucesso tivesse algo de pecaminoso.

Não. É o contrário. É mesmo eliminar completamente o pecado. Isto é uma das coisas que diferenciam o protestantismo do catolicismo. Não vivermos subjugados na ideia do pecado e da culpa e, sobretudo, a ideia do sacrifício.

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Em algumas entrevistas, parecia autocensurar-se pela vida feliz que tem.

É normal essa confusão. Provavelmente, é o mesmo princípio que o levaria a pensar nisso, mas é o princípio que mais exclui esse sentimento de culpa. No fundo, é viver agradecido e não com uma dívida de gratidão. Isto é a melhor coisa que podia acontecer e eu não mereço. É valorizar a situação, e não valorizar-se a si a próprio. 

 

Na segunda música do álbum "É preciso que eu diminua", diz que só sabe crescer. Parece estar preocupado com o seu engrandecimento. É o seu ego?

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Aí talvez haja traços claramente religiosos. E beirões. Eu não sou vaidoso nem egocêntrico, mas quando estou a desenvolver­-me, faço-o em torno de mim mesmo. Enquanto me desenvolvo e progrido, e é para isso que a sociedade me empurra, posso estar a perder espaço para outras pessoas. Tudo o que é considerado como sucesso e prosperidade é um crescimento em torno das nossas capacidades e dos nossos bens e não sei até que ponto isso não nos distrai, por andarmos obstinados com esse crescimento e essa evolução. Temos de andar para a frente, mas em direcção a onde? A nós próprios. Não é uma canção amargurada, mas é uma declaração de intenções. É preciso que eu diminua para que os outros cresçam em mim.

 

O que mudou na sua vida com este maior reconhecimento do trabalho musical?

Mudaram as coisas que mudam por termos uma ocupação diferente. Eu também mudei muito quando deixei de ser estudante e passei a dar aulas. Tive de me habituar a falar de mim próprio.

 

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Não é tanto nas letras, é mais nas entrevistas, certo?

Sim, nas letras estou sozinho a fazê-las e é uma intimidade controlada, mas, depois, ter de estar a repisar e a ir ao pormenor de coisas que foram feitas de torneira aberta…

 

E a exposição no palco? Um artista quando está no palco não tem de fazer coisas que não faria por sua iniciativa, mas que faz por resultarem bem.

Não. As pessoas pagam para te irem ver. O que tens de fazer, mais do que fingir, é uma "overdose" de ti próprio, as pessoas foram para te ver, tens de ser tu a dobrar. Não há sítio onde eu esteja mais à vontade para comunicar do que em palco.

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Dizia há pouco que era preguiçoso. Não teve de trabalhar muito para chegar à música que faz?

Talvez sim, mas quando fazes uma coisa que gostas nem te apercebes que é trabalho. E como a música, durante muitos anos, surgiu como uma coisa para a qual não tinha qualquer expectativa, não sonhava em viver da música e mesmo assim produzia para eu e os meus amigos ouvirmos, fazia-o enquanto estudava, enquanto dava aulas. Por isso, hoje em dia fazê-lo de maneira profissional… Profissional em quê? O método é o mesmo, a vontade é a mesma…

 

A diferença é que às vezes tem de fazer música quando não lhe apetece…

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Sim, claro. Quando é necessário lançar um disco, há uma obrigação de as fazer. Mas o momento de criar é o mesmo. Mesmo que os arranjos sejam diferentes de há uns anos para cá, a minha atitude em fazer canções não mudou um milímetro. 

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