Economia Nem a Starbucks fez Joana aceitar um emprego com "salário enorme"

Nem a Starbucks fez Joana aceitar um emprego com "salário enorme"

A arquitecta tem um "atelier" onde faz peças únicas, mas que também produz "iShells", auscultadores para "ouvir o mar"
Nem a Starbucks fez Joana aceitar um emprego com "salário enorme"
Alexandra Noronha 29 de outubro de 2013 às 10:09

Joana Astolfi | A arquitecta trabalha a partir do seu atelier no Cais do Sodré.

 

 

Joana Astolfi não é arquitecta. Nem artista. Nem designer. Nem empresária. É tudo ao mesmo tempo e ainda consegue ter vida própria. E dá um exemplo do seu trabalho, que começou a ser conhecido num estúdio/loja que explorou durante um ano no Bairro Alto, em Lisboa: "Um secador transformado num candeeiro, por exemplo. Era difícil perceber se eu era arquitecta, designer ou artista. E eu tentava explicar que a minha direcção era esse cruzamento".


Desde essa altura, muita coisa mudou. "Nos últimos três anos é que se tem dado o 'boom'. Foram os melhores da minha vida e são precisamente os três anos da crise em que está toda a gente a ir embora, em que ninguém tem trabalho e eu não tenho parado". Foi nesta altura que criou os "iShells", uns auscultadores de búzios que servem para ouvir o mar. E que são vendidos para a Bélgica, Brasil, Canadá, Inglaterra, Itália, Espanha, entre outros países, para criar ambiente em restaurantes e SPAs.


É tudo produzido no atelier de Astolfi, no Cais do Sodré, até porque a "arquitecta-artista" é criteriosa nos projectos que aceita e não quer estar ligada a nenhuma grande empresa. "A Starbucks convidou-me para ser 'concept designer' das lojas na América Latina", explicou. O contrato era ambicioso. "Fui para São Paulo, onde ficaria sedeada, e estive duas semanas em reuniões e, no fim, com tudo quase fechado, eu disse que não ia aceitar. Um salário enorme e acções. E ia estar em todo o lado. Mas detestei São Paulo. O meu nome ia estar associado à empresa e não era isso que eu queria". Então desistiu.


O trabalho já dá pelo menos para ter um colaborador quase a tempo inteiro, mas funciona com uma rede de fornecedores. "Têm passado pela minha vida colaboradores pontuais, mas com quem trabalho sempre, como um fotógrafo, um designer, uma costureira. Tenho uma pessoa em Aveiro uma senhora que faz as miniaturas e que é maravilhosa. E um pintor e um marceneiro. Talvez umas dez pessoas", realça. O objectivo é reduzir ao máximo os custos fixos do atelier.


Nos últimos tempos, a internacionalização tem ocupado a empresária que já fez duas exposições na Irlanda. E isso acabou por levar Joana Astolfi para outros voos. "Voltei da Irlanda com dois projectos: um armazém para transformar em casa, mas tudo reciclado com peças minhas. E um restaurante em Nova Iorque", disse. Além disso, "estava lá um 'chef' libanês. E convidou-me para fazer uma exposição em Janeiro ou Fevereiro do ano que vem no restaurante dele em Beirute, que é um espaço híbrido", entre galeria de arte e restaurante, realçou Joana Astolfi.

 

 

 

 

Perguntas a Joana Astolfi, Arquitecta, artista e 'designer'

 


"Hoje em dia um artista tem que ser um homem de negócios"

 

O sector da arquitectura tem estado em crise nos últimos anos, mas o seu trabalho destacou-se...
Eu trabalho para um nicho. Sou sempre abordada por quem tem poder financeiro. O meu negócio não é para as massas. Digo a muita gente que está a acabar o curso "não vão para arquitectura". É um risco enorme. Somos mais de 20 mil e 30 mil. Se querem estar todo o dia em frente ao computador a ser um escravo a ganhar 200 euros... Mais vale fazer bolos que é mais giro!


E os artistas também não sofrem com a crise?
Quanto aos artistas há o talento. E vender. Têm que se saber vender. Não é com as cunhas. É naqueles momentos em que aparece uma hipótese de uma ligação que pode ser forte. É mandar um email quando deve ser. Hoje em dia, um artista tem que ser um homem de negócios. Não se pode ficar fechado no atelier. Tem que se fazer a rede, convidar pessoas para o atelier. Os artistas não vivem de "cenas". Está muito difícil em Portugal, mas é nestes momentos em que acredito que as ideias geniais aparecem. Tem que haver um conceito importante. Mas com mínimos custos. Sempre.


O lançamento dos "iShells" [auscultares de búzios] marcou uma nova fase para o atelier?
Houve uma altura em que eu achei que podia viver com os "iShells". São produzidos cá e em série, com o carimbo "handmade with love". E já tenho outra peça na minha cabeça. O "handmade" e o exclusivo significa que cada pessoa pode ter uma peça única. Isso é muito mais especial. Nunca quis fazer nada ligado a produção em massa. Eu sou um bocado como o Santini. Sempre de olho em tudo. As peças são produzidos no atelier. Não por mim, mas controlo tudo.

 

 

 

 

Ideias-chave


A "arquitecta-artista" JOana Astolfi trabalha com uma rede de fornecedores

 

 

 

 1  Início foi em inglaterra e itália
Joana Astolfi estudou arquitectura em Inglaterra, mas começou a pensar que a direcção que queria tomar era também em design de interiores, na instalação de arte, de peças, reabilitação de espaços e coisas. Depois foi para o centro criativo da Benetton e esteve dois anos a viver em Veneza com 70 criativos de todo o mundo. Estava no departamento de design de objectos e coordenava colecções.


 2  Primeiro espaço no bairro alto
A empresária abriu o primeiro espaço no Bairro Alto, um atelier e uma loja ao mesmo tempo, onde começou a mostrar o seu trabalho a quem passava.


 3  Novo espaço no cais do sodré
Com o "boom" dos últimos três anos a arquitecta acabou por se mudar para o Cais do Sodré. Faz peças e redesenha espaços, ao mesmo tempo que continua com a arquitectura.


 4  Internacionalização
Os "iShells" vendem-se na Bélgica, Brasil, Canadá, Inglaterra, Itália, Espanha. Além disso, foi à Irlanda já por duas vezes com exposições (e vendeu as peças) e tem ainda um armazém para transformar em casa com tudo reciclado (na Irlanda) e um restaurante em Nova Iorque. Vai também fazer uma instalação em restaurantes de um "chef" libanês em Beirute. Esteve em Angola a fazer uma cenografia para uma peça.

 

 




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mais votado Anónimo 29.10.2013

E de gente desta que o País precisa! Abaixo a mediocridade, as cunhas e o porreirismo nacional!

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IS 30.10.2013

Há muito talento feminino em Portugal. Os estímulos que o potenciem esses talentos são escassos. Votos dos maiores sucessos para a Joana Astolfi no seu percurso no país e a nível internacional!

Francisco António 29.10.2013

Desconfio deste "não" dado à Starbucks ! Ou a jovem já tem a vida "almofadada" ou a história está meio-contada ! Se disse não à Starbucks então...não deveria fazer deste "não" uma jogada publicitária !

Anónimo 29.10.2013

E de gente desta que o País precisa! Abaixo a mediocridade, as cunhas e o porreirismo nacional!

Anónimo 29.10.2013

Tem a sua dose de talento sim...mas aqui onde ela se destacou mesmo é na rede de contactos, a rede de contactos meus senhores é que faz toda diferença e é uma verdadeira lotaria! Basta contactar um primeiro milionario, alguem com estatuto e glamour que exponha os nossos trabalhos num sitio onde varios outros milionarios vejam e gostem e as coisas começam a andar sobre rodas! Mas atenção, os milionarios teem gostos super volateis, uma coisa que adoram hoje a amanha acham esse mesma coisa um absurdo e super feia...está dado o aviso!

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