Economia OCDE: recuperação económica de Portugal veio para ficar, mas dívidas são travão

OCDE: recuperação económica de Portugal veio para ficar, mas dívidas são travão

A recuperação da economia portuguesa está consolidada e a OCDE já espera um crescimento do PIB superior a 2% também nos próximos dois anos. Contudo, o elevado endividamento público e privado comprometerá uma aceleração mais robusta.
OCDE: recuperação económica de Portugal veio para ficar, mas dívidas são travão
Miguel Baltazar/Negócios
Nuno Aguiar 28 de novembro de 2017 às 10:00

A OCDE está convencida da força da retoma da economia portuguesa. Pelo segundo relatório consecutivo reviu significativamente em alta as previsões de crescimento do PIB nacional, colocando-o agora a avançar a um ritmo superior a 2% em 2017, 2018 e 2019. A travar acelerações mais fortes está a necessidade de desalavancagem do Estado e do sector privado, conclui o Economic Outlook, publicado esta manhã.

 

Há um ano, a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE) esperava que Portugal crescesse apenas 1,2% este ano e 1,3% em 2018. Seis meses depois, no Economic Outlook de Junho, reviu essas estimativas para 2,1% e 1,6%, respectivamente. Hoje, volta a mostrar-se mais optimista: a expectativa dos técnicos do organismo é que Portugal cresça afinal 2,6% este ano e 2,3% tanto em 2018 como em 2019. Uma sequência de crescimento que já não se observa em Portugal desde os anos 90.

 

"Projecta-se que o crescimento económico fique acima de 2% em 2018 e 2019, empurrado pela procura interna e pelas exportações", pode ler-se no capítulo dedicado a Portugal do Economic Outlook da organização que reúne os países mais industrializados do mundo. "O crescimento do consumo continuará sólido, em resposta a novas quedas da taxa de desemprego e a um crescimento mais forte dos salários. O investimento será apoiado por uma recuperação de grandes mercados de exportações e reforço do investimento público."

 

As revisões em alta da OCDE começaram depois de um final de 2016 surpreendente, marcando o início de uma trajectória de aceleração que continuaria até meio deste ano. Nos primeiros três trimestres de 2017, o PIB cresceu 2,8%, 3% e 2,5%.

 

Segundo a OCDE, este maior ímpeto económico tem origem nas reformas estruturais realizadas no passado – leia-se, feitas pelo Governo anterior – e na maior força da procura das famílias. Mais emprego e mais rendimento disponível estão a dinamizar o consumo. O ciclo de melhoria na situação financeira das famílias está a contagiar positivamente as empresas, que sentem esse aumento da procura e conseguem maiores rentabilidades. Estão a investir mais e planeiam contratar mais trabalhadores no futuro.

 

No entanto, embora a maioria esteja optimista sobre as perspectivas económicas e o financiamento até esteja mais barato, os grupos portugueses estão ainda hesitantes em gastar mais dinheiro, devido a obstáculos na capacidade de acesso a crédito e a um baixo crescimento da produtividade. A OCDE pede "reformas que melhorem o dinamismo da actividade empresarial, incluindo redução de barreiras à entrada em serviços profissionais".

 

Para a OCDE, "o sector privado, principalmente as empresas, continua altamente endividado, apesar da desalavancagem dos últimos quatro anos". "Isso acrescenta vulnerabilidades ao sector bancário, que continua a sofrer de baixa produtividade e crédito malparado", sublinha, sugerindo medidas no mercado de dívida, que permitam um apoio mais forte ao crescimento.

 

Com estas novas previsões, a OCDE torna-se a organização internacional mais optimista em relação ao futuro de curto e médio prazo da economia nacional. Se a comparação for feita dentro de portas, o Conselho das Finanças Públicas acha que Portugal cresce mais este ano (2,7%), mas prevê uma desaceleração maior do que a OCDE em 2018 (2,1%).

 

Orçamentos expansionistas

 

No que diz respeito às contas públicas, a OCDE espera que o défice deste ano fique em 1,5% do PIB (0,1 pontos acima da meta do Governo) e que no próximo ano caia para 1% (0,1 pontos abaixo). Uma descida conseguida essencialmente via crescimento, uma vez que os dois exercícios deverão ser "ligeiramente expansionistas", graças a um investimento público em recuperação, devido a maior absorção de fundos comunitários e a custos de financiamento mais baixos, fruto da subida do rating da República.

 

Para o organismo com sede em Paris será importante evitar uma expansão orçamental mais forte do que esta, "dada a necessidade de reduzir a dívida pública". Esse nível elevado do endividamento do Estado – um dos mais elevados do mundo – impede o Executivo de responder com mais vigor a futuros choques externos, avisa a OCDE. "Embora a estabilidade do sector financeiro tenha melhorado nos últimos anos, a baixa qualidade dos seus activos e dos seus lucros reduz a sua capacidade para suportar um choque económico", acrescenta.

 

Riscos para os próximos anos

 

As previsões da OCDE estão também sujeitas a riscos. Tanto positivos como negativos. No que diz respeito a desenvolvimentos que podem tornar a retoma mais forte, é referida a possibilidade de os parceiros comerciais de Portugal crescerem mais do que o previsto, o que potenciaria as exportações e o investimento nacional.

 

Por outro lado, caso a produtividade nacional caia, isso pode prejudicar a competitividade da economia. Além disso, como já foi referido, a conjugação do nível elevado de malparado na banca com uma dívida pública alta, significa que "qualquer choque externo à economia real pode ser particularmente desafiante".


Portugal cresce acima da Zona Euro

Nas previsões para os países que integram a OCDE, a organização com sede em Paris melhorou as estimativas para o crescimento global deste ano em uma décima, para 3,6%, mantendo a previsão de 3,7% em 2018, que a confirmar-se será a mais forte em oito anos.

Para a Zona Euro a OCDE também avançou com projecções mais optimistas, apontando para um crescimento do PIB de 2,4% este ano, 2,1% em 2018 e 1,9% em 2019. Deste modo, a OCDE coloca Portugal a crescer acima da média da Zona Euro três anos seguidos.
 




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mais votado Anónimo Há 2 semanas

É sobejamente conhecido o número de países que estão a fazer efectivamente reformas tão profundas quanto acertadas ou não fossem esses países cada vez mais fortes socialmente e economicamente. Dos escandinavos aos da Oceania, dos da América do Norte ao Reino Unido e à Alemanha. E reformas neste contexto, entenda-se, implicam invariavelmente liberalização e flexibilização quase plena dos mercados de factores produtivos, de bens e de serviços. Promovendo um mercado saudável e funcional onde quer o pós-doutorado como o rapazola das Novas Oportunidades ganham consoante o valor que sabem criar, dadas as reais condições de oferta e procura de mercado face àquilo que têm para oferecer na economia, e não consoante a moldura legal que os torna mais ou menos imunes às forças de mercado no decorrer de toda uma carreira assente na mais pura extracção de valor sem qualquer pertinência, sentido ou justificação. Estas reformas, obviamente, compelem todos os agentes económicos para a criação de valor.

comentários mais recentes
O título é esclarecedor... Há 2 semanas

"A recuperação económica veio para ficar...", até aqui nada de novo, já esamos habituados a estar sempre a recuperar...só falta mesmo saber quantas gerações vão ter que pagar a merd@ que a classe política andou a fazer (e continua a fazer) ao longo de todos estes anos...

Mr.Tuga Há 2 semanas

ah, ah, ah, ah, ah, ah.......

maravilhas da treta Há 2 semanas

Está tudo tão maravilhoso só as taxas de juros dos depósitos bancários é que não há maneira de crescerem ao contrário das comissões bancárias que essas então estão sempre em crescimento.

Anónimo Há 2 semanas

ainda não acabou, degrau a degrau vamos lá

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