Media “O Google News não dá receitas à Google”

“O Google News não dá receitas à Google”

Madhav Chinnappa, da Google, defende que o diálogo entre os media e a tecnológica pode ser o ponto de partida para os desafios do jornalismo. Pedro Santos Guerreiro, do Expresso, diz que “os salários baixos são uma forma de tornar as redacções numa fábrica que destrói sonhos”.
“O Google News não dá receitas à Google”
REUTERS
Sara Ribeiro 14 de janeiro de 2017 às 19:23
A viabilidade económica e os desafios do jornalismo foi um dos temas que marcou o terceiro dia do 4.º Congresso dos Jornalistas, que decorre no Cinema São Jorge, em Lisboa, até domingo.
 
Madhav Chinnappa, responsável da área News & Publishers da Google, foi um dos convidados para debater o tema que nos últimos anos tem assombrado o sector. Qual o papel que a Google pode ter na viabilidade económica do jornalismo? Porque é que a Google não paga direitos de autor pela distribuição das notícias no seu portal? Estas são algumas das questões que têm sido colocadas nos últimos anos, e que este sábado foram dirigidas directamente a Madhav Chinnappa.
 
O responsável da tecnológica começou por relembrar que nos últimos anos houve uma alteração dos hábitos de consumo e "o digital tornou o utilizador o centro do poder".
 
Quanto à solução para este desafio, desabafou que "não há nenhuma solução mágica. Acho que pode vir através do diálogo", entre a Google e os media", acrescentou o responsável no terceiro dia do congresso.
 
Confrontado se o pagamento de direitos de autor aos media fazia sentido, Madhav Chinnappa disse que não. E lançou a pergunta: "Sabem quanto dinheiro o Google News dá à Google?", depois de alguns segundos respondeu: "nenhum, porque não tem anúncios publicitários".
 
Já Pedro Santos Guerreiro, director do Expresso, confrontado sobre a influência da viabilidade económica no jornalismo respondeu que "não há outra maneira de fazer jornalismo. Se não deixa de ser jornalismo".
 
No entanto, aproveitou para relembrar que quando o Banco de Portugal fez a análise sistémica aos bancos, em 2012, das 12 empresas que se quebrassem afectariam o sistema, três eram órgãos de comunicação social, nomeadamente a Ongoing, a Global Media e a Impresa, detalhou.
 
Destas empresas, "como se veio a verificar, a Ongoing ficou com 1,2 mil milhões de dívida, a Global Media renegociou a dívida com os bancos que passaram a ser seus accionistas e a Impresa [dona do Expresso e da SIC] está a negociar a dívida", sustentou.
 
Pedro Santos Guerreiro relembrou, mais uma vez, que "a qualidade da democracia depende da qualidade do jornalista". Um alerta que tem marcado todo o congresso dos jornalistas. E confessou que o que o mais "preocupa é assistir à gestão do declínio, isto é apenas medir a velocidade da queda, não é inverter".
 
Uma das soluções propostas pelo director do Expresso para os media passa pela "união". E, "utilizando linguagem económica", "só quando a produção se une consegue competir com a distribuição", que neste contexto é "forte", disse referindo-se à Google e Facebook. "Nós somos todos concorrentes ferozes, claro, mas estamos todos mais ou menos do mesmo lado", conclui,
 
Durante a sua intervenção Pedro Santos Guerreio voltou ainda a relembrar  o tema da precariedade da profissão, que tem dominado o congresso. "Os salários baixos e a precariedade são uma forma de tornar as redacções numa fábrica que destrói sonhos".
 
Também Miguel Pinheiro, director do Observador, comentou que "hoje em dia os jornalistas ganham bem menos do que ganhavam há algum tempo. E isso é grave", disse, manifestando também alguma preocupação que esta situação dificulte a retenção de talentos.
 
No que toca aos modelos de posicionamento dos sites de informação, o jornalista destacou ainda que " a ideia da ditadura dos cliques nos levar a artigos mais pequenos não é verdade", e revelou que no Observador os artigos mais lidos são os mais longos e profundos. Um dos motivos que o leva a acreditar que "o jornalismo não está em perigo". "As pessoas não deixaram de querer ler, ver e ouvir bom jornalismo".



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comentários mais recentes
FMPRESS 15.01.2017

O cerne do problema, bem como da sua solução é a qualidade e o seu preço. Jornalismo de qualidede não se compra a preço da loja do chinês. Por isso a investigação, o esteio do jornalismo de qualidade, é hoje um bem escasso. A precaridade é a grilheta da liberdade jornalística, como já foi a isençãod

Ciifrão 14.01.2017

Os jornais vão deixar de vender papel, a rádio nunca vendeu, a televisão também não. Num futuro sem papel, vão todos ter de sobreviver com os mesmos meios. Quem vendia papel tem de passar a vender outra coisa, não é querer cobrar pelo que outros dão.

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