O melhor líder
Quando a incerteza marca os dias, a liderança é mais necessária. E então, hoje como tantas vezes no passado, coloca-se a questão: qual o melhor líder?
Na peça "Henrique IV" de Shakespeare, a rebelde Glendower conversa com Henry Percy, conspirando contra o rei. Cada com a sua agenda, troçando um do outro e cada um sugerindo conseguir sempre mais poder. Às tantas diz Glendower: "Mas eu posso chamar [em meu apoio] espíritos das vastas profundezas!" Ao que responde Percy: "Ora, ora, também então eu posso; também qualquer homem os pode chamar; mas eles virão quando os chamares?"
A pergunta "virão quando os chamares?" ilustra bem este aspecto essencial da liderança: ser seguido. E porque é um líder seguido? Porque sabe, dirão alguns; é competente. Sim, é relevante, mas é apenas senso comum. A teoria tem mostrado que há muita gente competente que não é capaz de liderar com eficácia; não decide, não inspira, não é corajoso, não dá o exemplo, etc.
O líder é seguido porque arrisca, dirão outros. Certo, é importante, mas tantas vezes são os riscos assumidos que fazem o mau líder. A situação pode exigir ponderação e menos riscos. Dirão ainda outros, o líder é seguido porque envolve os profissionais, porque os motiva, apoia e lhes reconhece valor. É importante, sem dúvida; mas se a competência técnica falhar, se tardarem as decisões, se não enfrentar os problemas com firmeza…
Por outro lado, quando as coisas mudavam pouco, quando eram como tinham sido até então, as organizações podiam sobreviver com líderes centralizadores. Mas não é mais o caso. Hoje na generalidade das actividades profissionais o papel das equipas é chave. Uma pessoa não chega, por mais competente e dedicada que seja; não tem tempo, não pode estar em todo o lado, não sabe tudo, não consegue decidir tudo o que tem de ser decidido. Quanto maiores a turbulência e a complexidade, maiores são as necessidades de liderança e de equipas.
A eficácia da liderança não assenta num modelo único ou numa teoria universal. Por isso a pergunta "qual o melhor líder?" tem uma resposta segura: depende. Depende da situação, da organização, do contexto, dos objectivos, da actividade.
Num texto com mais de 2500 anos, a "Arte da Guerra", dizia Sun Tzu: "Nunca saberemos quem será o melhor general [líder, pode dizer-se]. Como estará o terreno da batalha? O tempo? O moral das nossas tropas e das tropas inimigas? Alguém nos traiu? Quem decidirá melhor? Muitas são as interrogações"… mas, concluía Sun Tzu, "mas o pior líder não é difícil de conhecer… é sempre alguém muito corajoso… e muito incompetente. É ele quem mais depressa leva ao desastre".
Professor na Universidade Católica Portuguesa
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