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Francisco Mendes da Silva - Advogado
02 de Maio de 2017 às 21:06

Reflexões sobre a revolução em França (II) 

Achar que nos próximos anos a Alemanha se predisporá a alterar significativamente o estado de coisas é permanecer na ilusão de que a Alemanha não funciona, como todas as nações, segundo o princípio do interesse próprio.

1. Em 2010, o Estado francês proibiu o uso do véu islâmico. A julgar pelos políticos franceses, proibiu também outra indumentária masculina que não o fato escuro com gravata preta ou azul-marinho. Qualquer debate entre aspirantes a altos cargos públicos é uma parada de soldados indistintos, fatalmente obedientes a esse traje sorumbático e protocolar.

Longe de mim fazer aqui crítica de moda. Muito menos contestar a elegância dos políticos franceses. Mas esta "coincidência" é um símbolo caricato de uma cultura em que os políticos têm seguido demasiado à risca o exemplo da rábula de Ivone Silva: "Com um simples vestido preto eu nunca me comprometo."

A França das últimas décadas é a história de um país onde praticamente nenhum político com poder se compromete. Na acção política, como na indumentária, a preocupação que acaba sempre por vingar - para lá da retórica eleitoral (sempre mais decidida e gongórica) - é a de evitar que "o povo" e "a rua" sejam sobressaltados pela suspeita de que os seus eleitos são dados ao risco, ao pensamento próprio, ao desejo imprudente de se diferenciar e mudar o que quer que seja.

Daí que as celebrações do reformismo de um eventual Presidente Macron sejam, para já, manifestamente exageradas. Não confundamos alívio com entusiasmo.

2. Sempre que um líder europeu quer aprofundar a União Europeia, como Macron agora proclama, os portugueses acham enternecedoramente que é deles que se está a falar. Não tenho tanta certeza.

Há uma narrativa, maioritária e oficial, segundo a qual a presente crise resultou de problemas de "design" do euro e demais políticas europeias - e que é preciso dar uma maior coesão à União com novas regras de solidariedade, partilha de responsabilidades e distribuição de recursos. Acontece que o que os últimos anos mostraram é que não são as políticas que têm problemas de "design", mas a própria ideia da "União": uma maior generosidade não tem a mínima popularidade junto dos contribuintes dos países ricos e os respectivos líderes não mostram uma extraordinária vontade de impor essa generosidade nas traseiras burocráticas da democracia. Seria, além do mais, suicídio político.

De resto, a União será sempre o que a Alemanha quiser. E achar que nos próximos anos a Alemanha se predisporá a alterar significativamente o estado de coisas é permanecer na ilusão de que a Alemanha não funciona, como todas as nações, segundo o princípio do interesse próprio. A União Europeia será o que for conveniente à protecção da economia alemã e da sua influência no mundo. Ponto.

Os alemães nunca teriam admitido a criação do euro (como contrapartida de França aceitar a reunificação) sem assegurar que a nova moeda fosse tão sólida quanto o marco. Ora, se o modelo germânico tem o sucesso que tem, para quê - perguntam os alemães - sujeitar o euro à pressão de aventuras como o relaxamento das regras orçamentais e a mutualização das dívidas soberanas?

No actual mundo multipolar, com a Europa cada vez menos no centro do mundo, as potências do continente encontram-se perante um dilema: continuar a investir o essencial da sua atenção, sem resultados, nos traumas insolúveis da União; ou reorientar as prioridades para uma renovada e autónoma influência internacional, sem "pesos mortos" atrelados?

Os britânicos já resolveram o dilema à sua maneira, fazendo uma opção para a qual franceses e alemães não têm a mesma legitimidade histórica. A não ser, claro, sob a forma de um meio-termo - a famosa "Europa a duas velocidades". Preparemo-nos. 

Advogado

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