Isabel Stilwell
Isabel Stilwell 24 de julho de 2018 às 20:05

O crime do louro prensado

Um cartaz da PSP alerta os turistas para o perigo de lhes venderem louro em lugar da substância ilegal que merecem.

O importante é que vão daqui bem servidos, que isto é um país de gente séria onde não se vende gato por lebre. Deve ser este o espírito que levou a PSP a afixar pela Baixa de Lisboa cartazes em que alerta os nossos queridos turistas dependentes de haxixe, a terem muito cuidado com a droga que compram. Porque há malta capaz de lhes impingir produto contrafeito, em lugar da substância ilegal que merecem.

 

Os senhores agentes distribuíram afanosamente o aviso da "Venda de Louro fazendo-se passar por droga", traduzido também em inglês para um hilariante "Bay Leaves Sell pretending to be drugs", na ânsia de impedir que um qualquer jovenzinho que guardou a semanada para umas férias inesquecíveis em Portugal, veja as suas expectativas defraudadas.   

 

Através desta campanha de esclarecimento as autoridades pretendem também, certamente, impedir que as esquadras sejam invadidas por consumidores insatisfeitos, desejosos de apresentar queixa. Aliás, por este andar, os postos da polícia também vão passar a acolher os protestos de assaltantes de bancos indignados por terem encontrado cofres vazios e de homicidas frustrados, porque lhes venderam bisnagas de água em vez de uma pistola à maneira.

 

Mas o mais injusto de tudo isto é que os pobres que andam abnegadamente a prensar e vender louro a fim de promover a desintoxicação, veem as próprias autoridades a boicotar o seu esforço. Ainda por cima, através de um produto genuinamente nacional: é que enquanto a maioria do haxixe vem de Marrocos, já o Laurus Nobilis é uma árvore autóctone.

 

Mas lendo mais umas linhas do aviso, percebe-se a aflição da PSP, porque de facto só um tipo muito pedrado é que consegue fazer sentido do que ali se diz, ou mais propriamente da legislação portuguesa a este respeito. Ora veja lá se "limpo", consegue entender: "Em Portugal o consumo de droga não é um crime, mas a compra e posse de droga é ilegal e terá consequências que podem chegar a pena de prisão."

 

Com o raciocínio mais escorreito, é difícil perceber em primeiro lugar como é que se adquire o produto sem o comprar, e em segundo, como é que depois o consumimos sem lhe estar na "posse". Provavelmente, a única solução é ser um agente a comprar a droga por nós, a enrolar o charro (uma ideia ecológica era imprimir o cartaz em mortalhas!), colocando-o nos lábios do consumidor. De facto, ninguém nos bate no acolhimento que damos aos estrangeiros. 

 

Enquanto isto, fazia correr muita tinta a notícia de que as autoridades num festival alternativo iam ao ponto de se oferecerem para testar a qualidade da droga. Mas se nessa situação ainda podemos alegar que o bem maior, salvar uma vida, compensa a esquizofrenia da coisa, na história do louro não se justifica, porque ao que parece faz bem a tudo. Uma pesquisa no Google, garante que as folhas, frutos e óleos do loureiro têm propriedades antifúngicas, antissépticas, adstringe, estimulante e digestiva, e ainda, efeito narcótico, ou seja dá sono. O fumo inalado, garantem, trata tudo da depressão à surdez. E se não gostarem podem sempre levar o louro de "recuerdo" à mãezinha, garantindo-lhe que é um condimento muito português.

 

Jornalista

 

Artigo em conformidade com o novo Acordo Ortográfico

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