Notas da semana de Marques Mendes
As notas da semana de Marques Mendes nos seus comentários na SIC. O ex-ministro e antigo líder do PSD comenta temas como o inquérito a Mário Centeno, a Operação Lex, os resultados da CGD e o crescimento da economia.
O CASO CENTENO
- Este inquérito a Mário Centeno foi um absurdo. O MP "meteu o pé na poça". É fácil de explicar.
a) Pedir convites para ir para o camarote presidencial de um clube pode ser politicamente errado, imprudente ou insensato. Mas não é crime.
b) E não é crime porquê? Porque ir por convite para o camarote presidencial de um clube é um uso e costume. É uma conduta habitual. Ora, quando uma alegada vantagem corresponde a um uso e costume, deixa de haver crime. Nesse caso, não há recebimento de vantagem indevida. É a lei que o diz. E o Ministério Público devia sabê-lo bem, até porque há magistrados que já várias vezes usufruíram desse uso e costume em camarotes de clubes de futebol.
c) Depois, o Ministério Público também devia saber que a concessão de isenções de IMI é uma responsabilidade dos Municípios e não do Ministro das Finanças.
- Não me canso de elogiar a acção do Ministério Público. Mas, neste caso, só posso criticar. O Ministério Público precipitou-se e sai muito mal nesta iniciativa. É uma mancha grave na sua actuação. Dizia aqui há dias um magistrado do Ministério Público: a boa intervenção judicial exige25% de conhecimento de direito e 75% de bom senso.
- Neste caso, faltou tudo – o direito e o bom senso. E a prova é que este inquérito foi supersónico. Fechou em meia dúzia de dias para que o disparate não se prolongasse por tempo de mais.
- Pior que o Ministério Público só mesmo o PPE que queria discutir este NÃO CASO no Parlamento Europeu. Isto é a prova de que a falta de bom senso não tem fronteiras, está internacionalizada – é cá, é lá e pelo caminho. Valeu aqui, para impedir o disparate, a intervenção de Paulo Rangel. Está de parabéns. Uma coisa é a divergência partidária, outra é o sentido de responsabilidade e o interesse nacional.
OPERAÇÃO LEX
- Sobre este caso, há dois lados da questão a analisar:
a) Primeiro, temos o lado negativo: dois juízes desembargadores a serem alegadamente corrompidos é um choque. O país fica chocado. Então a corrupção já chegou ao mais alto nível da justiça? Isto perturba as pessoas. Abala a sua confiança na justiça. Mina a sua crença nas instituições em geral. É um certo abalo. Um enorme murro no estômago.
b) Depois, temos o lado positivo: a justiça é igual para todos e é implacável com todos. até com os seus próprios pares. Ninguém escapa.
- Investiga-se um ex-PM, um grande banqueiro, altos gestores, um procurador do Ministério Público, dois juízes desembargadores e até dirigentes do futebol.
- Saber que ninguém fica impune, seja político, banqueiro, magistrado ou dirigente desportivo é o lado positivo que devemos valorizar.
c) Ou seja: em todos os sectores de actividade há gente séria e gente não séria, há pessoas honestas e pessoas que o não são. O importante é que ninguém escape à investigação quando prevarica. E este é o maior legado da actual Procuradora Geral da República. Depois de Joana Marques Vidal a investigação tornou-se mais livre, mais independente e mais abrangente.
- Novas violações do segredo de justiça. Este é o ponto negro de mais esta investigação – novas violações ao segredo de justiça. Mas desta vez foi de mais. Chegámos a dois pontos inqualificáveis: primeiro, as televisões chegarem à casa de Rui Rangel antes dos magistrados que iam fazer as buscas (o que significa que alguém as avisou, marimbando-se para o segredo de justiça); segundo, o juiz Rui rangel ainda nem sequer foi ouvido, mas já está condenado na opinião pública (porque a acusação já pôs tudo cá fora). E aqui há três coisas a dizer:
a) Primeiro: é inexplicável que os vários agentes da justiça (juízes, Ministério Público, polícias e advogados) não se juntem para encontrarem uma solução.
b) Segundo: é inexplicável que a Ministra da Justiça não faça nada e cruze os braços.
c) Terceiro: se não têm a coragem de fazer cumprir o segredo de justiça, deixem-se de hipocrisias e acabem com o segredo de justiça.
SEPARAR FUTEBOL, POLÍTICA E JUSTIÇA
- Independentemente das questões judiciais, há lições a retirar destes dois casos (inquérito a Centeno e investigação LEX). E essas lições passam por uma conclusão: a política e a justiça devem separar-se o mais possível do futebol.
Quatro maus exemplos a evitar:
- Deputados que periodicamente se juntam no Parlamento para jantares com os presidentes dos grandes clubes de futebol. Parece uma iniciativa inócua. Mas não é. É má para o prestígio da política e às vezes chega a ser ridícula.
- Partidos que escolhem como candidatos autárquicos pessoas ligadas ao futebol. Como ainda em 2017 fez o PSD a respeito de Loures. Outro mau exemplo!
- Magistrados que são candidatos a dirigentes do futebol, como sucedeu com Rui Rangel, candidato ao Benfica. Essas candidaturas não deviam ser autorizadas. Misturar magistrados com dirigentes desportivos só descredibiliza os magistrados. O futebol é paixão, a justiça é razão!
- Magistrados nos órgãos dirigentes da Liga ou da FPF. Não deviam ser autorizados. Juntar a justiça ao futebol é uma mistura explosiva. Só dá em prejuízo para a imagem da justiça.
- Nada disto exige muito esforço. Exige apenas algum distanciamento; algumas regras básicas; algum bom senso. E exige, sobretudo, que as pessoas se dêem ao respeito. Para poderem ser respeitadas.
RANKING DAS ESCOLAS
- Estes rankings valem ou não valem a pena? Uns dizem que sim, outros dizem que não. A minha posição é um meio termo: nem oito nem oitenta. Nem valorizo excessivamente, nem respeito liminarmente. Estes rankings são um instrumento de avaliação. Entre outros instrumentos de avaliação que também devem ser levados em atenção: por exemplo, as avaliações que são feitas periodicamente pela Inspecção Geral de Educação.
- Há grandes surpresas nestes rankings? No essencial, NÃO. As melhores escolas são, como sempre, as privadas. E aqui há 2 coisas que devem ser ditas:
a) Primeiro: não é justo comparar, sem mais, escolas públicas e privadas. Porque as privadas podem escolher os seus alunos e as públicas não. O que faz grande diferença.
b) Segundo: também não é correcto fechar os olhos a esta outra realidade – apesar de haver escolas públicas e privadas na mesma localidade e com alunos do mesmo nível socioeconómico, mesmo assim as privadas têm melhores resultados que as privadas. Dá para reflectir.
- Há algo de novo nestes rankings? Sim, este ano há uma novidade: os rankings não olham apenas para os resultados dos exames. Avaliam também o percurso do aluno. Ou seja, medem o sucesso do aluno ao longo de todo o ciclo de estudos.
- É uma avaliação mais completa.
- E os resultados são algo diferentes. Aqui já há escolas públicas e privadas nos primeiros lugares (nas 3 mais bem classificadas há uma pública à cabeça e duas privadas a seguir).
- Nota final: mais importante do que estes rankings é comparar o comportamento de alunos portugueses com alunos de outros países com a mesma idade. E aí, sem embandeirar em arco, temos boas notícias:
- A última avaliação do PISA (2015) mostra que Portugal está pela primeira vez acima da média da OCDE, à frente dos EUA ou da França, por exemplo.
- Melhorámos muito desde o início do século. Mas ainda estamos longe dos primeiros lugares: Singapura, Japão ou Canadá.
MILITARES BATEM O PÉ
- Segundo o Expresso, os militares bateram o pé ao Governo por discordarem da decisão de só autorizar a contratação de 200 novos efectivos para as Forças Armadas.
- Por que é que isto sucede? Há dois planos a considerar:
a) Plano factual: porque os militares gostavam de poder contratar mais pessoal. Isso é óbvio. Não tem novidade. Os militares querem contratar sempre mais pessoal e os governos são sempre mais contidos. Mesmo assim o número de 2018 é maior que o número autorizado no ano passado.
b) Plano político: o que é novo é que há um certo mal-estar nas chefias militares, sobretudo no Exército e na Força Aérea, por causa da nomeação do novo CEMGFA.
- Nos próximos dias o Governo vai escolher o novo CEMGFA – e vai escolher o actual CEMA. Uma excelente escolha, de resto.
- Ora, o Exército e a Força Aérea não gostam muito da ideia: o Exército porque acha que o critério da rotatividade na escolha deve acabar; a Força Aérea porque acha que o critério da antiguidade deveria ser o critério a adoptar.
- Assim sendo, esta tomada de posição é um pretexto para Exército e Força Aérea baterem o pé. Não é por acaso que o CEMA não esteve presente na reunião que aprovou aquela posição, tendo-se feito representar.
- Nota final: ontem já depois da notícia do Expresso, saiu um comunicado dos Chefes Militares a tentarem corrigir o que tinha vindo a público. Na prática, mais coisa, menos coisa, a dar o dito pelo não dito. É como no caso de Tancos: primeiro, o roubo era muito grave; depois, para agradarem ao Governo, já não havia gravidade nenhuma. A sensação que fica é que estes Chefes Militares (ou alguns deles) são muito vulneráveis às pressões do Governo e pouco independentes.
ECONOMIA A CRESCER
- Estão prestes a ser divulgados os dados do crescimento da nossa economia em 2017 – Portugal deverá ter crescido entre 2,6% e 2,7%.
a) É um óptimo resultado. O melhor desde o início do século e melhor que a Zona Euro, que deve crescer 2,3%.
b) Mesmo assim, convém ter em atenção: há 18 ou 19 países da UE que deverão ter crescido mais do que Portugal. Ou seja: o mérito é mais da economia europeia em geral e não tanto da acção governativa de cada país em particular.
- Em 2018 como vai ser?
a) Vamos continuar a crescer. E bem.
b) Vamos crescer ligeiramente menos que em 2017. Mas não é significativo.
c) Mas, segundo as previsões da União Europeia, vamos ter 21 países da UE a crescer mais do que nós. Só 5 países farão pior resultado do que nós (Dinamarca, Reino Unido, Itália, França e Bélgica).
d) Ou seja, sendo rigorosos, devemos dizer que andamos sobretudo à boleia da conjuntura europeia. Nada, portanto, de embandeirar em arco.
CGD COM LUCROS
A Caixa Geral de Depósitos voltou em 2017 aos lucros. É uma excelente notícia.
a) Primeiro, porque voltou aos lucros um ano mais cedo que o previsto.
b) Depois, porque este é um momento de viragem depois de anos e anos de prejuízos, de irresponsabilidades, de crise e de ruído desgastante.
c) Terceiro, porque mostra que os sacrifícios feitos estão a dar resultados.
d) Finalmente, porque significa que a Caixa tem uma gestão competente e voltou a ser notícia por boas razões.
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