Nuno  Fernandes
Nuno Fernandes 28 de dezembro de 2017 às 20:30

Fusões e aquisições ou uma forma de garantir a própria sobrevivência 

Num mercado global, fortemente competitivo e dinâmico, as fusões e aquisições sempre se assumiram como um instrumento estratégico para a obtenção de vantagens competitivas e para a consolidação e crescimento das empresas.

Efetivamente, muitas empresas líderes da economia mundial alcançaram a sua posição no mercado, aliando ao crescimento orgânico uma estratégia bem-sucedida de M&A.

 

As motivações para o crescimento inorgânico não são novidade. O que é novidade é o alcance e a intensidade das forças disruptivas que enfrentam muitas empresas e indústrias. Impulsionadas pela digitalização da economia global, a mudança no ambiente competitivo, exige que as organizações inovem a um ritmo cada vez mais rápido para garantir sua própria sobrevivência. Os avanços tecnológicos incomparáveis, os novos modelos de negócios disruptivos, o desfoque das linhas do setor e as expectativas dos consumidores que mudam rapidamente, obriga a que muitas empresas repensem suas estratégias e se reinventem à velocidade da luz.

 

Mundialmente, o Top 1000 de fusões e aquisições continua a ser dominado pelos EUA, sendo o ranking liderado pela aquisição da Twenty-First Century Fox. pela gigante de diversão Walt Disney's por um valor de 52.000 milhões de dólares. No total, os Estados Unidos representaram 424 dos 1000 maiores negócios do ano.

 

Em Portugal, em 2017, o mercado registou cerca de 300 transações de fusões e aquisições, representando um valor agregado global de 10 mil milhões de euros, sendo grande parte destas operações referente a aquisições realizadas por entidades estrangeiras em Portugal (inbound transactions). Quanto a aquisições portuguesas no exterior, o número foi muito inferior (menos de 100, ou seja, três vezes menos). Esta tendência deverá manter-se em 2018, sendo expectável que ocorram mais transações inbound, do que outbound. A atratividade de Portugal para os investidores estrangeiros, que procuram oportunidades de valor através da compra de ativos em dificuldade (distressed), aliado à necessidade continuada do sector financeiro de "limpar balanços", gerar liquidez, e reduzir NPL (non performing loans), irá seguramente levar a um maior volume de transações.

 

Os drivers de consolidação variam de setor para setor. Em alguns setores, várias empresas deparam-se com a questão de "onde encontrar mais consumidores". Noutros, é a busca de inovação tecnológica. Noutros ainda, a razão é a busca de aumentos de margem, seja por via de custos, seja pelas receitas.

 

Uma análise das atividades de fusões e aquisições a nível mundial em 2017 destaca três tendências globais: o crescente apetite por M&A internacionais, a necessidade insaciável de private equity de investir e o volume crescente de negócios envolvendo empresas tecnológicas.

 

Em 2017 registou-se uma percentagem recorde de negócios transfronteiriços. Das 1000 maiores fusões, mais de um terço foram entre entidades de diferentes países. Um dos principais responsáveis por esta estatística é a China. Na China vários fatores estão a contribuir para a concretização de negócios, incluindo o aumento do consumo pelo crescimento da classe média, e a execução do último plano quinquenal, que reconhece que as fusões e aquisições são um meio importante de obter o acesso a tecnologias estratégicas e de expandir as capacidades comerciais do país. Em 2017, a maior aquisição chinesa no exterior foi a compra da empresa de armazéns e logística, Logicor, pelo fundo soberano chinês, China Investment Corp (CIC). Esta empresa, que conta com a Amazon como um dos principais clientes, é o maior proprietário europeu na área da logística e distribuição, com mais de 13 milhões de m2 por toda a Europa. Um outro exemplo é a aquisição pela Chinesa Midea, da KUKA da Alemanha. Esta transação trouxe conhecimentos de robótica ao maior fabricante da China (e do mundo) permitindo simultaneamente à KUKA o acesso ao mercado mais importante de produção automóvel.

 

Também de crescente importância são as transações envolvendo empresas tecnológicas. Muitas empresas reconhecem que, para se manterem competitivas, precisam de desenvolver novos modelos de negócio, e obter conhecimento que assegure que a organização permaneça competitiva e satisfaça os seus principais stakeholders de forma sustentável. A velocidade de reinvenção sempre foi a vantagem principal das fusões e aquisições em comparação com o crescimento orgânico, mas numa época em que as empresas de tecnologia continuam a emergir e a competir com sucesso em diferentes setores (hotelaria, automóvel, serviços financeiros, produção de conteúdos TV, entre outros) é imperativo para as empresas já estabelecidas rapidamente readquiram a sua vantagem competitiva.

 

No entanto, para os líderes empresariais que contemplem fusões e aquisições "transformacionais", uma palavra de alerta: mais de 60% destas fracassam em atingir os seus objetivos e destroem valor, no curto, e longo prazo. Variadas razões estão por detrás deste resultado: fraca comunicação com clientes e colaboradores, integração demorada e mal planeada, excesso de confiança, pagamento de prémios exagerados, e pouca supervisão por parte dos administradores não executivos.

 
Dean da Católica Lisbon School of Business Economics

Artigo em conformidade com novo Acordo Ortográfico

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