Hans-Werner Sinn
Hans-Werner Sinn 13 de agosto de 2017 às 14:00

Como reduzir o excedente da Alemanha

A Alemanha tem um excedente de poupança face a investimento e precisa de poupar menos e investir mais.

A The Economist estava certa quando, recentemente, escreveu que o excedente da conta corrente da Alemanha era muito elevado. Mas porque é que o excedente da Alemanha é muito elevado? Alguns dizem que a Alemanha tem um volume de exportações alto porque produz produtos de elevada qualidade, enquanto outros argumentam que a Alemanha tem baixas importações porque os seus salários são demasiado baixos.

 

Outros assinalam que, por definição, o excedente da conta corrente de um país é igual às suas exportações de capital. A Alemanha tem um excedente de poupança face a investimento e precisa de poupar menos e investir mais.

 

Claro que o excedente da conta corrente da Alemanha reflecte também défices para com outros países, nomeadamente para com os Estados Unidos, que representam cerca de um terço do valor dos défices da conta corrente em termos mundiais. Por isso, pode pedir-se aos países deficitários para aumentarem a sua competitividade, reduzirem salários e pouparem mais enquanto investem menos.

 

Consideremos os países do Sul da Europa, que são altamente endividados. Embora tenham conseguido equilibrar as suas contas correntes, graças às baixas taxas de juro da sua dívida externa, estes países podem estar a registar excedentes substanciais para compensar as suas dívidas.

Mas as recomendações ad hoc não nos vão levar muito longe. Para decidir onde devem ser feitos os ajustamentos, primeiro temos de entender porque é que o excesso de capital está a fluir da Alemanha para o resto do mundo.

 

Na minha perspectiva, o governo federal dos Estados Unidos está extremamente endividado e o desregramento orçamental é a principal fonte do problema. A política monetária expansionista da Reserva Federal dos Estados Unidos suportou artificialmente a economia norte-americana, que tem na sua base a responsabilidade limitada dos consumidores e empréstimos para a habitação. Os Estados Unidos têm conseguido viver acima das suas possibilidades através da venda ao mundo de obrigações denominadas em dólares porque o dólar é a principal moeda de reserva do mundo. Mas esta abordagem produziu uma economia baseada no retalho e numa indústria transformadora doméstica frágil.

 

Outro problema reside na Zona Euro. A introdução do euro melhorou de forma significativa a solvabilidade dos países do Sul da Europa, dado que parece inconcebível que países do euro possam cair em bancarrota. Apesar de tudo, eles têm o direito a imprimir dinheiro que outros países aceitam como moeda corrente. O resultado deste sentimento artificial de segurança foi que fez com que tenham fluído para os países do Sul da Europa abundantes quantidades de capitais privados até, mais ou menos, 2008, criando bolhas de crédito inflacionadas que destruíram a competitividade desses países.

 

Quando foram atingidos pela crise, os países do Sul da Europa tiraram partido do seu direito de imprimir dinheiro, pedindo empréstimos ao eurosistema nos montantes que não conseguiam nos mercados. Eles usaram esse dinheiro para amortizar dívida antiga, para continuar a comprar bens e para continuarem a adquirir imobiliário e outros activos no estrangeiro.

 

Além disso, o BCE prometeu protecção grátis, através do programa de Transacções Monetárias Definitivas, aos investidores que ousassem continuar a colocar o seu dinheiro no sul. Não é surpreendente que todos os países do Sul da Europa tenham visto os seus rácios de dívida/PIB a aumentar, apesar das promessas feitas para melhorar os compromissos orçamentais de 2012, que previam uma redução dos rácios anualmente de forma a abordar de forma gradual o limite de 60% estabelecido no Tratado de Maastricht.

 

O keynesianismo excessivo, usado para legitimar a falta de restrições orçamentais dos países endividados da Zona Euro durante a crise, também levou a que o capital tenha sido sugado da Alemanha, quando os investidores tentaram de facto retirar-se do Sul da Europa. Isto estimulou as importações e, por conseguinte, contribuiu para um aumento do excedente da conta corrente da Alemanha.

 

Mas a Alemanha não beneficia com esta situação, na medida em que as obrigações e as notas promissórias que receberam dos países com défices dificilmente podem ser mantidas e o seu reembolso é cada vez mais incerto. De facto, aproximadamente metade dos activos externos líquidos que a Alemanha acumulou durante os seus passados excedentes da conta corrente agora são simples responsabilidades TARGET no balanço do Banco Central Alemanha, estando actualmente nos 861 mil milhões de euros.

 

Estas responsabilidades reflectem o financiamento que, de acordo com as regras do eurosistema, o Bundesbank foi forçado a estender aos países com défices na Zona Euro, ao creditarem as suas ordens de pagamentos. O banco central da Alemanha nunca vai ser capaz de declarar que esses créditos como vencidos e pagos, e o Conselho de Governadores do BCE fixou a taxa de juro sobre esses créditos em zero.

 

Perante este cenário, uma abordagem para diminuir o excedente da conta corrente da Alemanha, assente em dois eixos, parece apropriado. Em primeiro lugar, a Alemanha pode introduzir amortizações para os investimentos privados, como o presidente do Instituto Ifo sugeriu. Isto ajudaria a redireccionar para o uso doméstico alguns fluxos de capitais que actualmente vão para outros países.

 

Em segundo lugar, os países do Sul da Zona Euro e os EUA podem finalmente regressar a uma política de gestão disciplinada da dívida. Isto reduziria as suas importações oriundas da Alemanha e consequentemente a saída de capitais da Alemanha, que é medida pelo excedente da conta corrente. Em particular, a Fed e o BCE têm de terminar com as suas políticas monetárias relaxadas – em especial, os pacotes de resgate orçamental e as garantias do BCE que estão a redireccionar artificialmente o capital para a Europa do Sul.

 

A lógica dita que a Alemanha não pode, em simultâneo, reduzir o seu excedente da conta corrente e continuar a ampliar os seus empréstimos baratos aos sectores públicos e privados de outros países. Muito haveria a ganhar se os políticos entendessem esta realidade básica.

 

Hans-Werner Sinn, professor de Economia na Universidade de Munique e membro do conselho consultivo do Ministério da Economia alemão, foi presidente do Instituto Ifo.

 

Copyright: Project Syndicate, 2017.
www.project-syndicate.org

Tradução: Ana Laranjeiro

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