O investimento no desenvolvimento que durará décadas

Mesmo com dezenas de investimentos atractivos por onde escolher, economistas laureados com o Nobel analisaram os dados e descobriram que as medidas para combater a desnutrição estão entre as opções mais poderosas.

A desnutrição recebe menos atenção do que a maioria dos outros grandes desafios mundiais. Ainda assim, é uma área onde um investimento relativamente pequeno pode ter um impacto muito poderoso.

 

Estima-se que dois mil milhões de pessoas não recebem as vitaminas e os minerais essenciais ao seu crescimento e desenvolvimento – nomeadamente, ferro, iodo, vitamina A e zinco. Pior, a desnutrição e a subnutrição são parte de um ciclo cruel, sendo ambas causas e efeitos da pobreza.

 

Este ciclo desproporcional afecta bebés e crianças pequenas, que sofrem as consequências devastadoras da desnutrição, incluindo deficiência mental, dificuldades de aprendizagem na escola e uma saúde frágil na generalidade. Mesmo deficiências modestas de nutrição podem prejudicar o desenvolvimento de uma criança. E porque é difícil para uma criança ter um bom emprego quando ele ou ela crescer, a desnutrição forma não apenas a sua vida, mas também a vida das gerações seguintes.

 

Idealmente, os nutrientes chegam através de uma dieta equilibrada e variada. Mas como isto não é sempre possível, em particular nos países mais pobres, os governos e as organizações de desenvolvimento têm a responsabilidade de ajudar.

 

Durante mais de uma década, o meu think tank, o Copenhagen Consensus, estudou e comparou as opções de desenvolvimento para governos e para organizações de doadores que operam à escala nacional, regional e mundial. Trabalhamos com os principais especialistas em economia do mundo, incluindo laureados com o Nobel, para determinar as melhores maneiras de lutar contra os principais desafios da humanidade.

 

Durante este tempo, temos destacado um amplo conjunto de causas importantes. Por exemplo, em 2004, o trabalho dos nossos investigadores serviu para intensificar a luta contra o HIV/SIDA, que era então uma prioridade para o governo holandês. E, no ano passado, o presidente da Colômbia, Juan Manuel Santos afirmou que as nossas investigações em biodiversidade eram o motivo pelo qual tinham quadruplicado o tamanho da reserva marinha na zona costeira do país.

 

Ainda assim, os investimentos desenhados para lutar contra a "fome escondida", ou contra as deficiências de micronutrientes, têm estado, de forma consistente, muito próximas do topo da lista das nossas prioridades. As provas mostram claramente que, quebrar os ciclos intergeracionais da pobreza e da subnutrição, é uma das formas mais poderosas para melhorar a vida em qualquer parte do planeta.

 

Tanto em 2008 como em 2012, os projectos do Copenhagen Consensus, focados nas prioridades do desenvolvimento mundial, concluíram que os políticos e que os filantropos deviam assumir como prioridade a luta contra a desnutrição. Em cada um desses projectos, os especialistas escreveram dezenas de artigos académicos que incluiam a questão de qual a melhor forma de gastar os recursos numa série de áreas, desde conflitos armados à destruição da biodiversidade, às doenças infecciosas ou ao saneamento.

 

Mesmo com dezenas de investimentos atractivos por onde escolher, economistas laureados com o Nobel analisaram os dados e descobriram que as medidas para combater a desnutrição estão entre as opções mais poderosas. Um estudo de 2012 mostra que um investimento de apenas 100 dólares por criança pode pagar um conjunto de intervenções – incluindo micronutrientes, melhorias na qualidade da dieta e programas de mudanças comportamentais – que reduziriam a desnutrição em 36% em países em desenvolvimento. Por outras palavras, cada dólar gasto na redução da desnutrição crónica – mesmo nos países pobres – cria retornos para a sociedade no valor de 30 dólares.

 

O estudo de 2012 teve um impacto tangível. No ano seguinte, uma coligação de organizações não-governamentais comprometeram-se com 750 milhões de dólares para programas de nutrição, baseados, em parte, nas nossas descobertas. De forma semelhante, o antigo primeiro-ministro britânico, David Cameron, citou a mesma investigação no encontro de 2013 "Nutrição para o crescimento", quando os governos do G8 se comprometeram com mais 4,15 mil milhões de dólares na luta contra a subnutrição.

 

O que é verdade ao nível global é também verdade para muitos países. Os dois projectos mais recentes do Copenhagen Consensus estão focados no Bangladesh e no Haiti. No Bangladesh, todos os anos, 30 mil crianças morrem devido a desnutrição. Pedimos mais investimento para intervenções específicas que cheguem a crianças nos seus primeiros mil dias de vida; e num desenvolvimento promissor, a nossa investigação foi um factor que contribuiu para o Segundo Plano Nacional de Acção para a Nutrição do Bangladesh.

 

No Haiti, o governo, com o apoio do USAID, lançou o primeiro projecto de fortificação alimentar do país. A fortificação ajuda muitas pessoas de uma vez só porque são acrescentados nutrientes à comida que é amplamente consumida – como é o caso dos produtos básico (trigo, arroz e óleos) ou condimentos (sal, molho de soja e açúcar). É apenas uma arma na luta contra a desnutrição – o arsenal inclui educação e iniciativas orientadas como a atribuição de suplementos às mães e recém-nascidos – mas é uma arma muito importante.

 

A fortificação não é uma ideia nova. A maioria das pessoas que vive em países ricos beneficiam da fortificação quer tenham ou não consciência. No início do século XX, a iodização do sal começou na Suíça e foi, desde então, implementada no resto do mundo. A margarina fortificada com vitamina A foi introduzida na Dinamarca em 1918. E na década de 1930, leite fortificado com vitamina A e farinha enriquecida com ferro e vitamina B foram introduzidos em vários países desenvolvidos. Neste momento, a fortificação é quase universal no mundo desenvolvido, mas ainda está ausente em muitos países de rendimentos médios e baixos. 

 

O projecto de fortificação do Haiti vai focar-se no enriquecimento de farinha de trigo com ferro, ácido fólico, óleos vegetais com vitamina A e sal com iodo. Depois de apresentarmos as nossas conclusões ao presidente do Haiti, Jovenel Moïse, ele tomou medidas para que todo o trigo fosse fortificado com micronutrientes vitais em um ano. E durante o lançamento do novo programa, um funcionário norte-americano citou a investigação do Copenhagen Consensus que mostra que a fortificação é "um dos investimentos mais eficazes para o desenvolvimento do Haiti".

 

Um artigo académico de Stephen Vosti, da Universidade da Califórnia, Davis, e de outros colegas mostra que 95% da farinha de trigo, disponível no Haiti, pode ser fortificada durante uma década com um investimento de apenas 5,1 milhões de dólares em micronutrientes, equipamentos e formação. Este investimento relativamente pequeno permitiria alcançar benefícios extraordinários, evitando 140 mortes por malformação do tubo neural e mais de 250 mil casos de anemia todos os anos. Em termos monetários, cada dólar gasto significaria benefícios no valor de 24 dólares para a sociedade do Haiti.

 

Isto não é uma panaceia para os actuais desafios do desenvolvimento. Mas as políticas para melhorar a nutrição chegam mais longe do que muitas outras. Têm potencial para colocar um fim a um ciclo cruel de pobreza e desnutrição que dura há gerações.

 

Bjørn Lomborg é director do Copenhagen Consensus Center e professor visitante da Copenhagen Business School.

 

Copyright: Project Syndicate, 2017.
www.project-syndicate.org
Tradução: Ana Laranjeiro

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