Raul Vaz
Raul Vaz 15 de março de 2017 às 00:01

Porque Assunção estava de férias

Vê-se e não se acredita: "O assunto BES nunca foi discutido em Conselho de Ministros com profundidade." Assunção Cristas estava lá, não está a faltar à verdade, tem memória aprimorada como mostra na sua longa conversa com o Público.
Lendo, procura-se alguma razão para o sucedido. O colapso do BES era um temor e, certamente, estava na linha de preocupações de um Governo responsável. Também por isso terá sido "referido" à mesa dos ministros. "Referido apenas."

Apenas, na memória de Assunção que não trai o perceptível. Sigamos, então, o que nos pode ajudar a entender o inatingível. Explica a ex-ministra: "A banca e o pilar financeiro do resgate eram tratados pelo Banco de Portugal (…), o Governo não deveria meter-se nessas questões. Essa foi sempre a visão do primeiro-ministro. Portanto, o Conselho de Ministros nunca foi envolvido nas questões da banca." É uma explicação.

Claro que Assunção, que foi ministra de primeira linha e agora se candidata a Lisboa, tem hoje uma outra leitura de um processo que puxou o país para o escuro. Porque se a resolução do BES foi tomada pelo Banco de Portugal, teve de ter a aprovação do Governo. E aí, volta a ler-se e arrepia. Diz a ex-ministra: "Estava no início de férias e recebo um telefonema da ministra das Finanças: Assunção, por favor, vai ao teu email e dá o OK." Assunção foi, deu o OK à resolução do BES e voltou a banhos.

Assim, sem mais, porque como se "pode imaginar, de férias e à distância, a única coisa que podemos fazer é confiar". Eis o nosso azar, o de um país todo que está e vai pagar milhões por uma ministra (e outros, certamente) ter estado ausente num momento crucial de decisão.

É legítima a dúvida. Teria sido assim se Assunção Cristas não estivesse de férias? E, tesa como parece ser, levantasse a questão que a própria agora sugere: "Não houve discussão, nem pensámos em alternativas possíveis." Como é possível crer e legitimar sem qualquer objecção uma experiência inédita no universo financeiro? Foi, e essa irresponsabilidade fica como marca de um Governo que, em certas circunstâncias, parece ter querido alhear-se da realidade.

Por este exemplo trágico na forma como foi assumido, percebe-se a natureza de um Governo que fez o que tinha de ser feito, mas subjugou nesse princípio todo um resto que, em determinadas circunstâncias como a implosão do BES, era quase tudo. O Governo Passos/Portas quis uma saída limpa e nesse objectivo esgotou toda a sua determinação política. Fez mal.

E de pouco vale a flor na lapela de terem deixado Ricardo Salgado à porta do Conselho de Ministros. Agora percebe-se porquê: eles não queriam outros problemas e outras dores de cabeça. Foi pena Assunção ter ido de férias… 

P.S.: O Montepio cheira a BES. Já vimos a mudança de nome servir para tentar travar o contágio. Será que desta vez é suficiente?

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comentários mais recentes
lsreis 15.03.2017

Começam a surgir muitas notícias sobre o que alguns de nós suspeitávamos: a "coerência", a "unidade", a "transparência", nunca foram características afinal da anterior coligação ... havia uma espécie de "solidariedade" mútua que os mantinha no poder.
Mas esta descrição do tratamento dado, ou não dado, pelo Governo ao caso BES / GES é até ao conhecimento actual o expoente máximo do que passou naquele período.

Anónimo 15.03.2017

A leviandade confessada do Governo Passos Coelho. Ausência de discussão de tema da maior relevância que tiveram de aprovar.

Anónimo 15.03.2017

Ainda gostava de saber o que é que as sms das mentiras do Centeno têm a ver com o BES e com os Offshores!

Joaquim Azevedo 15.03.2017

Agora falta saber quantos são e quais são os outros ministros que assinaram de cruz. Assim de repente estou-me a lembrar do Pires de Lima (economia) ou do novo presidente comissão parlamentar da coscuvilhice via sms, Aguiar Branco.

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