Weekend A resistência do frágil mercado nacional de bens culturais

A resistência do frágil mercado nacional de bens culturais

O frágil mercado português de bens culturais estará sob fogo em 2017, e será necessária uma resistência heróica e organizada para que não se afunde com violência.
A resistência do frágil mercado nacional de bens culturais
José Vegar 01 de janeiro de 2017 às 14:00
A menos que se desencadeie algum fenómeno súbito e demolidor, sempre possível no mundo fascinante em que vivemos, o ano de 2017 será de resistência desesperada do frágil mercado nacional de bens culturais a forças quase invencíveis.

A primeira força avassaladora, que se manifestará muito além do mercado a que nos referimos, é a da massificação gerada pelo turismo estandardizado. Todos lemos, nos últimos dias, as notícias um pouco por todo o mundo que continuam a recomendar Portugal como destino de eleição para visitas. O turismo "low cost" trará, obviamente, como verifica todos os dias quem anda nas ruas, um encaixe de serviços e produtos destinados a esse tipo de visitantes, e esta correspondência oferta-procura, além de não ser bonita, é totalmente predadora. A possibilidade do que é feito entre nós, por nós, com padrões de qualidade e com uma marca original e distinta, conseguir combater o bem massificado, é bastante baixa. Assim, a resistência não será só contra a ocupação que o turismo "low cost" gera, mas especialmente contra o mercado e a paisagem cultural que cria, sobretudo numa sociedade e num mercado tão frágeis como os nossos.

A resistência seguinte é contra a falta de conhecimento dos nossos designers e artesãos quando trabalham num tema ligeiramente periférico aos dominantes, como são, por exemplo, a cerâmica ou os têxteis. O que estes agentes já não têm muito tempo para perceber é que não adianta de muito criarem produtos únicos ou em série limitadas - duas condições únicas para triunfar no mercado - sem depois os identificarem, numerarem e certificarem. Como, claro, também não adianta de muito criarem produtos, artísticos ou funcionais, já gastos, e não apostarem em novas reinterpretações, fundadas na nossa história e na nossa cultura. Já agora, convinha também os agentes referidos perceberem que o preço tem de fazer algum sentido, e não pode ser demasiado elevado só porque é um produto não serializado.

Uma resistência fundamental derradeira é a da irresistível tendência do nosso mercado de bens culturais para a "guetização", para uma clandestinidade institucionalizada. Enquanto os bens não estiverem visíveis, no lugar de serem comercializados em montra escura, e os custos não forem registados, teremos um mercado, como temos, imerso em especulação, em preços artificiais, em ausência de referências sólidas, e, claramente, assente num valor de volume de negócios que ninguém conhece.

Varrer a feira

A Feira Internacional do Artesanato, que todos os anos se realiza na FIL- Parque das Nações é uma boa oportunidade que nunca se concretizou. Para quem a conhece, a FIA é um bazar absurdo de produtos massificados, com algumas diminutas bolhas de criação de valor, nacional e internacional. Está na altura de os promotores apertarem violentamente os seus critérios de expositores, recusando os comerciantes indistintos. Trazer bons criadores internacionais educaria os seus pares e o público nacional. Abrir a bons produtores nacionais dar-lhes-ia um bom empurrão. 


*Nota ao leitor: Os bens culturais, também classificados como bens de paixão, deixaram de ser um investimento de elite, e a designação inclui hoje uma panóplia gigantesca de temas, que vão dos mais tradicionais, como a arte ou os automóveis clássicos, a outros totalmente contemporâneos, como são os têxteis, o mobiliário de design ou a moda. Ao mesmo tempo, os bens culturais são activos acessíveis e disputados em mercados globais extremamente competitivos. Semanalmente, o Negócios irá revelar algumas das histórias fascinantes relacionadas com estes mercados, partilhando assim, de forma independente, a informação mais preciosa.


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