Weekend Adelaide Almeida, a jogar futebol desde sempre

Adelaide Almeida, a jogar futebol desde sempre

Nasceu em 1960, começou a jogar à bola nos descampados de Unhais-o-Velho, em Pampilhosa da Serra, integrou o União de Coimbra, fez parte da primeira Selecção feminina a disputar a qualificação num campeonato europeu, hoje treina as jogadoras do Futebol Clube Benfica.
Adelaide Almeida, a jogar futebol desde sempre
Bruno Simão
Lúcia Crespo 27 de janeiro de 2017 às 11:08
Em Unhais-o-Velho, no concelho de Pampilhosa da Serra, vivia Adelaide, uma menina que jogava à bola ainda a revolução não tinha chegado ao país. Nascida em 1960, ela era sempre convocada pelos rapazes da aldeia para as partidas de futebol. "Os miúdos iam ter com a minha mãe: ó tia Delfina, a Adelaide está cá? Eu tinha um irmão mais velho, mas os meus amigos nunca perguntavam por ele, chamavam sempre por mim." Era sempre ela que ia jogar para os descampados com balizas feitas de pauzinhos.

Na escola, a miúda da bola preferia os campos de terra batida às aulas de trabalhos manuais e conseguia convencer a professora dos intentos, com o auxílio dos amigos. "Nunca me senti discriminada. Sempre fui encarada como um verdadeiro elemento da equipa. O que me fascina no futebol é, precisamente, esta ideia do colectivo. Para mim, tão importante como marcar golos é fazê-los ao fundo, passando bem a bola aos colegas. Eu jogava no meio-campo, sempre gostei de estar em movimento, de antecipar, de olhar à volta e só depois passar a bola. É como conduzir um automóvel. Temos de estar atentos antes de avançar na estrada. O Bobby Robson costumava dizer a um jogador que marcava muitos golos que, no dia em que ele começasse a conduzir, iria jogar muito melhor..."

Era raro ver uma rapariga a jogar futebol, ouvi muitas bocas, mas isso, para mim, funcionava como uma vitamina.

Num tempo em que as mulheres não usavam calças, jogar futebol com os rapazes era quase um acto de rebeldia. "Era raro ver uma rapariga a jogar futebol, ouvi muitas coisas, mas isso, para mim, funcionava como uma vitamina", diz Adelaide, com um sorriso sempre posto. A mãe era uma boa cúmplice das vontades da filha. "Era uma pessoa muito à frente. Falo de uma altura em que as mulheres nem sequer usavam cabelo curto. Parecem histórias do antigamente. E são!" Adelaide não só usava calças debaixo da bata como conseguia acompanhar os colegas rapazes ao café. E mantinha-se dedicada à bola. Um dia, um tio que passava férias na sua aldeia disse-lhe: tens qualidade para jogar e há uma equipa feminina no União de Coimbra... "Nunca mais o larguei."
A 10 de Outubro de 1982, a Selecção feminina portuguesa de futebol disputava na Suíça o seu primeiro jogo oficial, de apuramento para o campeonato da Europa. Adelaide Almeida vestia a camisola número 8.
A 10 de Outubro de 1982, a Selecção feminina portuguesa de futebol disputava na Suíça o seu primeiro jogo oficial, de apuramento para o campeonato da Europa. Adelaide Almeida vestia a camisola número 8.
Adelaide tinha 16 anos e foi para a cidade dos estudantes. Estava há dois anos no clube quando foi convocada para integrar a Selecção Nacional que disputou, na época 82/83, o apuramento para o primeiro campeonato europeu. No grupo de Portugal, estavam as selecções da Suíça, Itália e França. "O nosso primeiro jogo foi na Suíça. Perdemos 2-0, não foi mau! E foi muito giro. Lembro-me de nos dizerem: este é o país dos chocolates, mas vocês não abusem! Passado um mês, fomos a Génova, em Itália. Nunca tinha jogado num campo com tanta gente a assistir!"

Poucos anos após a ditadura portuguesa, o futebol feminino estava nos primórdios e estancou. Durante uma dúzia de anos, não houve Selecção. Quando foi retomada, Adelaide fez parte das jogadoras chamadas para integrar a equipa nacional, mas, aos trinta e tal anos, pensou que talvez não fizesse sentido. Entretanto, tinha tirado o curso de treinadora profissional. "Terei sido a segunda ou terceira mulher em Portugal a fazê-lo. Foi em 1989. Eram 63 homens e eu."

Adelaide jogou futebol enquanto desportista federada durante 16 anos. De Coimbra, passou para o Barreiro e integrou a equipa feminina de Coina, voltou a Coimbra, foi para a equipa da Costa do Estoril, passou pelo Trajouce, esteve no Sporting, regressou de novo a Coimbra, onde, em 1995, termina a sua caminhada como futebolista e começa a treinar a equipa feminina do União. Esteve, depois, no Clube Futebol Benfica, no Bobadelense, no Ponte Frielas, hoje está ligada à equipa feminina sub-19 e às seniores do "Fófó", onde é treinadora adjunta e dá apoio ao campo de padel. "É o desporto da moda em Portugal. E é um luxo estar aqui."

Durante estes anos, Adelaide acumulou profissões várias. "Muitas vezes, eram os clubes que me arranjavam trabalho." Era a moeda de troca quando não havia outra. Era assim e é assim. A futebolista de Unhais-o-Velho passou por um escritório de advogados, foi telefonista, esteve 20 anos na Singer. Trabalhava de dia, à noite treinava. "O treino, para mim, era uma forma de carregar baterias. No outro dia, estava sempre fresca. É a diferença entre quem faz do desporto apenas a profissão e quem faz dela um prazer. Para quem gosta, o futebol liberta tudo. Se temos a sorte de passar pela vida a fazer aquilo de que gostamos, isso é uma dádiva." Adelaide continua a jogar sempre que pode. "Quando a bola rola, eu sou como os pequenitos, tenho de ir atrás."

Clique nas fotografias para ler as histórias de cinco futebolistas portuguesas.







A sua opinião3
Este é o seu espaço para poder comentar o nosso artigo. A sua opinião conta e nós contamos com ela.
Faltam 300 caracteres
Negócios oferece este espaço de comentário, reflexão e debate e apela aos leitores que respeitem o seu estatuto editorial, promovam a discussão construtiva e combatam o insulto. O Negócios reserva-se ao direito de editar, apagar ou mesmo modificar os comentários dos seus leitores se atentarem contra o bom senso e seriedade.O acesso a todas as funcionalidades dos comentários está limitada a leitores registados e a Assinantes.
comentar
comentários mais recentes
Gustavo Costa 30.01.2017

Parabéns à Adelaide e parabéns ao "Negócios". Conheço quem a viu jogar e que diz que ela sabia tratar bem a bola.

Anónimo 29.01.2017

Fantástica! Prima Direita da minha mãe. Brincámos muito em Unhais quando éramos crianças. Parabéns Adelaide.

Anónimo 29.01.2017

Para mim continua a ser um símbolo do Futebol Feminino. E eu que tive o prazer de trabalhar com ela no Futebol Feminino, na altura em que as coisas eram muito difíceis. Parabéns Adelaide, Parabéns Jornal Negócios por ter a ousadia de falar em pessoas com uma força, com um carácter, com personalidade

pub
pub
pub
pub