Weekend António Sousa Ribeiro: “A tradução é uma forma de possessão”

António Sousa Ribeiro: “A tradução é uma forma de possessão”

António Sousa Ribeiro foi distinguido com o Grande Prémio de Tradução Literária pela tradução de “Os Últimos Dias da Humanidade”, de Karl Kraus. “As línguas são incomensuráveis. São diferentes, portanto, à partida, a tradução é impossível. Toda a tradução assenta neste paradoxo da intraduzibilidade”, diz o investigador.
António Sousa Ribeiro: “A tradução é uma forma de possessão”
Miguel Baltazar
Susana Moreira Marques 26 de janeiro de 2018 às 14:00
Traduz nas horas vagas. São as horas em que deixa de ser professor, coordenador de doutoramentos, investigador no Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra, e passa a ser um tradutor, isto é, alguém que luta com a impossibilidade da sua própria tarefa, com a imperfeição, com o indizível. No caso de uma obra como "Os Últimos Dias da Humanidade", de Karl Kraus, com que ganhou no mês passado o Grande Prémio de Tradução Literária, da Associação Portuguesa de Tradutores (APT), as horas têm de ser imersivas, quase obsessivas. São centenas de páginas, 210 cenas de um texto dramático impossível de ser totalmente representado. São horas e horas a pensar na forma como uma sociedade pode aderir à violência. É a grande obra sobre a Primeira Grande Guerra e marca o fim de uma era, possivelmente o princípio da nossa, em que adquirimos novas tecnologias, mas mantemos velhas ideias sobre heroísmo e velhos ódios. 


1. São 210 cenas, 700 páginas na edição alemã. Consegui, com a colaboração da Antígona, publicar uma edição de cenas seleccionadas em 2003. Há muito tempo que tinha o projecto de traduzir toda a obra, mas ninguém traduz uma obra deste tipo para a gaveta. Quando o Teatro Nacional de São João decidiu avançar com o projecto [de encenar "Os Últimos Dias da Humanidade"], contactaram-me para traduzir o que faltava. Era ainda muito, cerca de metade.

Traduzir é um trabalho fascinante. A minha dificuldade era satisfazer as minhas obrigações, que não são poucas, como investigador e docente, quando muitas vezes o que me apetecia era estar fechado em casa a traduzir.

É preciso uma imersão. Uma pessoa tem de estar quase possuída por aquelas vozes. Eu andava pela casa a recitar aqueles vozes. É uma forma de possessão. Uma pessoa tem de estar possuída pelo texto original para depois, pouco a pouco, ir construindo o que o texto pode ser noutra língua.


As línguas são incomensuráveis. Portanto, à partida, a tradução é impossível. Toda a tradução assenta neste paradoxo da intraduzibilidade. 


Quando falo de tradução aos meus alunos, começo por lhes dizer que, na raiz de todo o acto de tradução, está a impossibilidade da tradução. Porque as línguas são incomensuráveis. São diferentes, portanto, à partida, a tradução é impossível. Toda a tradução assenta neste paradoxo da intraduzibilidade. Para mim, a tradução é quase uma luta. Luta para quê? Para vencer este pressuposto da intraduzibilidade.

Uma tradução é uma reescrita. Como costumo dizer, a versão portuguesa de "Os Últimos Dias da Humanidade" é de Karl Kraus e minha. Há um autor americano de estudos de tradução que tem um livro justamente sobre a invisibilidade do tradutor, sobre concepções de tradução em que o tradutor se torna invisível, como se o texto, por um milagre qualquer, passasse de uma língua para outra. O tradutor está lá e o tradutor não se limita a servir de ponte. O tradutor interfere.

Existir um prémio de tradução é bom, justamente para vencer esta invisibilidade. São muito poucas ainda as editoras que colocam o nome do tradutor na capa do livro. Muitas vezes, o nome do tradutor aparece num sítio qualquer, semi-envergonhado.

2. Desde 1989, Kraus publicava a sua própria revista. No início, era uma revista como outras, com vários autores a colaborar, mas a partir de determinado momento ele escreve a revista sozinho. São muitos milhares de páginas. Desde muito cedo, ele tinha desenvolvido na revista uma técnica que podemos chamar de glosa documental, isto é, a citação seja de um texto de imprensa, seja de um texto literário, seja de uma entrevista, do que for. Ele pegava num fragmento, por exemplo, de uma notícia de jornal e trabalhava-o do ponto de vista de sublinhar aquilo que nessa notícia era revelador do estado de uma época, do estado de uma sociedade. Ele tinha aperfeiçoado esta técnica já num contexto de guerra, durante a guerra dos Balcãs de 1911-1912. Tinha acompanhado de perto a forma como a imprensa austríaca cobria a guerra nos Balcãs e tinha encontrado exemplos perfeitamente chocantes de insensibilidade perante o sofrimento e de promoção do ódio belicista.

Alguns textos dele, de 1911 e 1912, são reproduções de notícias de jornal, que num novo contexto da revista se tornam reveladoras dessa violência. Na verdade, o que ele faz em "Os Últimos Dias da Humanidade" é levar esta técnica até às últimas consequências. Ele começou a escrever a peça em 1915, muito perto do início da guerra, e foi escrevendo e incorporando muitos dos textos que ia publicando na revista e que transformava em cenas. Há cenas inteiras de citações. Por exemplo, as cenas em que aparece uma jornalista, que foi a primeira jornalista mulher acreditada como correspondente de guerra. Os textos que ela enviava da linha frente eram um chorrilho de lugares-comuns. Ela chega junto do cabo artilheiro e pergunta: "Como é que se sente? Diga-me o que lhe vai no íntimo." Explora o lado sentimental, muito a partir de uma ideia de herói e de uma visão romântica da guerra. A jornalista aparece como uma personagem e o que a personagem diz corresponde ao texto dos seus folhetins jornalísticos.

Há, no trabalho de Kraus, uma preocupação documental e, como os documentos não paravam de chegar, porque os jornais publicavam-se todos os dias, porque as conversas de rua que ele ouvia e reproduzia, se produziam todos os dias, a peça ia crescendo. Em 1919, publicou uma primeira versão e, em 1922, uma segunda versão mais extensa. Perto do final dos anos 1920, ele diz o seguinte: deixei mil cenas que ficaram por escrever, aqui vai mais uma. Podia-se sempre acrescentar. A realidade não deixava de fornecer motivos permanentes de indignação.

3. Há uma frase famosa de Paul Valéry que diz: depois dessa guerra, a civilização europeia ficou a saber que era mortal.

Havia esta sensação de cesura, de fim de uma época. O historiador Eric Hobsbawm, que tinha origem austríaca, diz que na família dele, quando falavam dos anos da paz, referiam-se aos anos antes da Primeira Guerra Mundial, porque os anos que mediaram entre a Primeira e a Segunda Guerra já não eram anos da paz.

Era uma época que se tinha encerrado definitivamente e tinha começado uma crise que depois desemboca no nazismo, no fascismo, nos nacionalismos europeus e na Segunda Guerra Mundial e no Holocausto.


O tradutor está lá e o tradutor não se limita a servir de ponte. O tradutor interfere. (...) São muito poucas ainda as editoras que colocam o nome do tradutor
na capa do livro.


O Kraus teve a presciência de perceber isso mesmo, de uma maneira muito mais lúcida do que possivelmente a maior parte dos seus contemporâneos. Kraus captou muito bem a modernidade da guerra. Kraus chamou à guerra a aventura técnico-romântica. Captou perfeitamente o momento em que a ciência e a técnica estavam a ocupar o lugar decisivo. Hoje, um combatente pode ser alguém que está em Los Angeles a manipular um drone.

Uma guerra tecno-romântica é uma guerra que é desenvolvida com todos os meios da tecnologia moderna, mas que preserva uma aura romântica e ideias de heroísmo, que são completamente falsas, mas que, no fundo, são as ideias que continuam a ser mobilizadas para que as pessoas aceitem a sua condição de combatentes e sejam levadas a cometer crimes.





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