Entre a teoria e a prática vai, quase sempre, alguma distância. A boa notícia é que, no que toca à literacia empresarial, Portugal está bem posicionado nos rankings. No entanto, isso nem sempre se reflete no desempenho das empresas.
João Duque, economista e professor universitário, confessa ter ficado “surpreendido” quando constatou que “Portugal está em primeiro lugar numa lista de 14 países” num estudo da OCDE que avalia mais de 1.500 pequenas e médias empresas: “Num indicador global de literacia financeira, composto por três subindicadores, que mede o conhecimento dos instrumentos e os comportamentos, no cômputo geral, Portugal está em primeiro lugar nesse grupo e, em segundo lugar, no que diz respeito a empresas de 10 a 40 trabalhadores.” Para o economista e presidente do ISEG, o que o estudo demonstra é que “as empresas portuguesas são lideradas por pessoas que até têm, de uma forma geral, um conhecimento razoavelmente bom, quando comparado internacionalmente. Mas, depois, quando se vai ver os detalhes, percebe-se que há áreas que não dominam, ou dominam pouco, e que há instrumentos que não usam, e, portanto, há campo para se poder melhorar significativamente, e é aí que as instituições financeiras têm um papel, de facto, muito importante”.
No podcast Conversas de Negócios, dedicado ao tema “Gestão de Tesouraria – O Coração do Negócio”, numa parceria Crédito Agrícola e Medialivre, João Duque dá como exemplo positivo o facto de “a maior parte dos empresários distinguir o que é a conta pessoal da conta da empresa”. Todavia, quando o estudo da OCDE detalha o conhecimento dos empresários através de um teste com cinco perguntas, as fragilidades vêm ao de cima: “Por exemplo, uma pergunta é: a inflação alta significa que o custo de vida aumenta rapidamente. Quando é apreciada se é verdadeira ou falsa, há 15% dos gestores que erram.” E depois – acrescenta – “há outra coisa curiosa que é quantas pessoas acertam todas as perguntas. O número não é muito elevado”.
O conhecimento em literacia financeira – ou a falta dele – vai refletir-se na gestão das empresas: “Quando começamos a ver que instrumentos financeiros são usados para além das contas, depósitos... percebemos que há um espaço grande para crescer. Por exemplo, uma parte significativa das empresas tem cartão de crédito. Mas ainda são menos de metade das empresas. Um cartão de crédito é um instrumento muito facilitador da vida, particularmente, para quem anda em deslocações. É algo que torna o processo muito mais expedito, porque não obriga a ter uma tesouraria com valores, que têm de ser fisicamente contados, guardados, há um depósito, um cofre, tem de ir ao banco fazer levantamentos... é uma perda de tempo.” Outro exemplo são os empréstimos obrigacionistas: “Toda a gente conhece, mas muitas empresas não fazem porque têm medo ou não sabem. Quem ganha a experiência de fazer pela primeira vez percebe que não é um bicho-papão”, assegura o professor universitário.
“Não se salva um projeto pela tesouraria”
“Pela parte financeira e, às vezes, pela tesouraria, mata-se um projeto, mas não se salva um projeto pela tesouraria” – esta é a certeza de João Duque e algo que costuma ensinar enquanto professor universitário. Um projeto tem de valer pela parte económica, pelo valor acrescentado e pela satisfação que dá ao cliente. “Por vezes, isso até está garantido, só que a construção financeira do financiamento que se fez é inadequada. E, se eu não conseguir fazer o planeamento financeiro de forma adequada, mato o projeto”, assegura. E exemplifica: “Imagine que eu vou fazer uma barragem, que é um investimento elevadíssimo, com uma vida económica de décadas, e vou financiá-lo com um empréstimo por um ano. Impensável, não é? Um ano depois, tinha de fazer o pagamento do empréstimo e não tenho maneira, não há cash flow que venha do projeto porque ainda estou em obras. Ou, então, pedir a totalidade do dinheiro emprestado para uma obra que vai demorar cinco anos a fazer. Vou pedir já tudo para quê? Não preciso.”
Outro erro frequente, segundo João Duque, é o esquecimento do fundo de maneio. “Muitas empresas têm um fundo de maneio elevado. O crédito que concedem aos clientes leva a que haja momentos em que temos de comprar, depois temos de pagar as compras e só passados uns meses é que conseguimos tesouraria, mas já tivemos de pagar ao fornecedor.” Nestes casos – explica –, tem de se perceber que é preciso ter financiamento que se aguente durante o período do stock. Caso contrário, existe o risco de ter “uma dificuldade terrível na tesouraria, começar a não pagar impostos, segurança social, ordenados, e não só, porque não se fez o planeamento adequado financeiro para que o financiamento estável de longo prazo fosse adequado”. Também um erro é usar instrumentos de curto prazo como fontes de financiamento permanente como é o caso das contas caucionadas. Na opinião do economista e professor universitário, este planeamento falha justamente porque os gestores podem conhecer a teoria, mas não conhecem a prática. Uma estratégia essencial de gestão passa por “tecer vários cenários e ver o que isso implica em termos de consequências na tesouraria”: prever um menor crescimento económico, dificuldade nos pagamentos dos clientes, subida das taxas de juro ou impacto do contexto geopolítico.