Num contexto empresarial cada vez mais orientado por critérios ambientais, sociais e de governance, a responsabilidade corporativa deixou de ser apenas reputacional. O desempenho ESG é hoje um fator material na avaliação de risco, na relação com investidores e na sustentabilidade de longo prazo.
Se a transição energética e a segurança do abastecimento enquadram a vertente ambiental, o Prémio AGIR traduz a consolidação da dimensão social da estratégia da REN – Redes Energéticas Nacionais, através de investimento estruturado, acompanhamento técnico e avaliação de impacto.
Criado em 2014, o programa distingue anualmente três projetos de organizações sem fins lucrativos, com financiamento e monitorização independente assegurada em parceria com a Stone Soup Consulting.
Ao longo das edições, foram priorizados temas como pessoas em situação de sem-abrigo, inovação social em resposta à pandemia, empregabilidade de públicos vulneráveis, combate à pobreza e exclusão social, biodiversidade e desenvolvimento sustentável.
Cuidadores: um desafio estrutural
A 12.ª edição do AGIR foi dedicada ao apoio a cuidadores informais, num país marcado pelo envelhecimento demográfico e pelo aumento da prevalência de doenças crónicas. Milhares de pessoas asseguram acompanhamento permanente a familiares dependentes, muitas vezes sem remuneração, formação técnica ou rede formal de suporte.
A sobrecarga física, emocional e financeira representa um risco social relevante, com impactos indiretos na saúde pública, na produtividade e na coesão comunitária.
Ao direcionar investimento para este segmento, a REN atua sobre uma fragilidade estrutural, contribuindo para reforçar a resiliência social — um fator cada vez mais considerado nas análises de sustentabilidade empresarial.
Governação e impacto mensurável
O modelo do AGIR assenta em critérios objetivos, avaliação independente e acompanhamento técnico especializado. A cada edição é definido um tema prioritário, alinhado com necessidades emergentes e com os objetivos estratégicos de sustentabilidade.
A arquitetura do programa inclui seleção transparente, financiamento atribuído por mérito e monitorização da execução com base em indicadores mensuráveis.
Esta abordagem permite maximizar o retorno social do investimento e reforçar a dimensão “S” dos critérios ESG.
1º lugar - 30.000 euros. SMAC - Serviço Móvel de Apoio ao Cuidador Santa Casa da Misericórdia do Marco de Canaveses
O projeto vai abranger 120 cuidadores informais, com um programa integrado de oficinas de bem-estar, apoio psicológico, formação em saúde e consultas de especialidade, complementado por cerca de 1.000 visitas domiciliárias ao longo do ano. Maria Amélia Ferreira, provedora da Santa Casa do Marco de Canaveses, destaca: “O Serviço Móvel de Apoio ao Cuidador consiste numa intervenção comunitária de apoio àqueles que cuidam de alguém frágil. O impacto está direcionado para a criação de bem-estar e manutenção da saúde destes cuidadores, que muitas vezes entram em burnout, o que não é benéfico nem para eles nem para quem cuidam”.
2.º lugar – 15.000 euros. EntreLaços – Cuidar com Saber Instituto Irmãs Hospitaleiras do Sagrado Coração de Jesus
O projeto apoia 20 cuidadores através de 12 sessões de grupo de psicoeducação, duas sessões conjuntas com as pessoas cuidadas e 40 atendimentos individuais, complementadas pela criação de um Grupo de Ajuda Mútua. Ana Filipa Mota, responsável pelo projeto, explicou o que esteve na sua génese: “O EntreLaços nasce do contacto direto com os cuidadores. Mais de 80% sofrem de exaustão emocional. Ao empoderá-los, sentimos um impacto profundo, que se reflete na relação com a pessoa cuidada e no equilíbrio familiar.”.
3.º lugar – 5.000 euros. Colmeia Cooperativa LongeVidade, Porto e Gondomar
O projeto apoia 30 cuidadores, combinando formação presencial e online, apoio emocional, atividades de recreação e lazer, kit de primeiros socorros emocionais e uma rede de voluntariado local. Ana Sofia Costa, diretora da LongeVidade, explica a estratégia que agora vai ser alavancada com a distinção do Prémio AGIR, da REN. “Queremos criar uma comunidade que cuida, com afeto, conhecimento e tempo. O Prémio AGIR permitirá transformar o cuidado num projeto comunitário replicável noutras regiões do país.”.