Num contexto marcado por instabilidade geopolítica, pressão regulatória crescente e exigências ambientais cada vez mais rigorosas, a indústria das embalagens alimentares está a ganhar um novo estatuto estratégico. Mais do que um simples suporte logístico, a embalagem passou a ser vista como parte integrante da segurança alimentar, da eficiência económica e da sustentabilidade ambiental. Empresas, decisores políticos e consumidores são hoje chamados a colaborar numa transformação que pode redefinir a forma como os alimentos são produzidos, distribuídos e consumidos.
Segurança alimentar e resiliência económica
A segurança alimentar voltou ao centro do debate económico europeu, impulsionada por crises energéticas, conflitos internacionais e alterações climáticas que afetam cadeias de abastecimento. Neste contexto, a tecnologia de processamento e embalagem asséptica assume relevância crescente, ao permitir prolongar a vida útil de alimentos perecíveis e facilitar a sua distribuição.
Segundo Chakib Kara, diretor-geral da Tetra Pak Iberia, “a tecnologia asséptica de processo e embalagem da Tetra Pak, que é líder mundial nestas áreas, tem um papel essencial em criar sistemas alimentares resilientes: proteger alimentos perecíveis, prolongando a sua vida útil e permitindo o acesso a alimentos essenciais mesmo nos locais mais remotos do mundo”.
O responsável sublinha que a transformação dos sistemas alimentares exige uma abordagem integrada: “Se conseguirmos transformar a forma como os alimentos são cultivados, produzidos e consumidos, podemos criar sistemas alimentares seguros, sustentáveis e resilientes.”
Esta perspetiva liga diretamente a inovação industrial à estabilidade económica e social, numa altura em que a segurança alimentar é cada vez mais entendida como parte da segurança estratégica.
Eficiência logística e redução de desperdício
A inovação nas embalagens alimentares tem também impacto direto na eficiência logística e energética. A possibilidade de conservar alimentos sem necessidade de refrigeração reduz custos, emissões e desperdício ao longo da cadeia de valor.
Como explica Chakib Kara, “os pacotes de bebidas da Tetra Pak oferecem proteção contra fatores externos, como luz, oxigénio e agentes contaminantes”, permitindo preservar alimentos sem conservantes e sem cadeia de frio, o que contribui simultaneamente para a redução do desperdício alimentar e da energia consumida.
Além disso, o design das embalagens influencia a eficiência do transporte. Soluções mais leves e empilháveis, como é o caso das embalagens Tetra Recart®, permitem transportar mais produto com menos recursos. O responsável destaca que determinados formatos podem traduzir-se numa “logística inteligente, com mais unidades por camião e palete”, resultando em menos emissões e menores custos de transporte face a alternativas tradicionais.
Num setor onde margens e eficiência operacional são determinantes, estas vantagens tornam-se cada vez mais relevantes.
Circularidade e inovação industrial
A sustentabilidade das embalagens não se limita à fase de utilização. O foco crescente na economia circular está a levar empresas a investir no design para reciclagem, na utilização de materiais renováveis e no reforço das infraestruturas de recolha e reciclagem.
A indústria tem vindo a apostar em soluções com maior conteúdo de fibra renovável e materiais reciclados, bem como em tecnologias que simplificam a reciclagem. Entre as inovações mais recentes destacam-se embalagens com barreiras à base de papel, concebidas para substituir materiais tradicionais mantendo a proteção alimentar.
Segundo Chakib Kara, a empresa está a investir anualmente valores significativos para melhorar a reciclabilidade e o perfil ambiental das embalagens, reforçando simultaneamente a colaboração com parceiros da cadeia de valor para expandir infraestruturas de reciclagem.
“Temos o objetivo de aumentar o acesso a alimentos seguros, mas também reduzir o desperdício e a pegada de carbono. Estamos empenhados em alcançar zero emissões de gases com efeito de estufa nas nossas operações, até 2030, e em toda a nossa cadeia de valor, até 2050, através de uma combinação de medidas de redução, mitigação e compensação. Além disso, fomentamos soluções circulares, com investimento objetivo para melhorar a recolha, a separação e a reciclagem das nossas embalagens, onde temos vindo a aumentar o seu conteúdo de fibra e a utilização de materiais reciclados”, explica.
Esta abordagem evidencia uma mudança estrutural: sustentabilidade deixou de ser apenas uma questão reputacional para se tornar um fator de competitividade industrial.
O desafio da reciclagem em Portugal
Apesar da evolução tecnológica, a eficácia da economia circular depende de sistemas de recolha e reciclagem eficientes. Portugal continua a enfrentar desafios nesta área, com taxas de recolha seletiva abaixo da média europeia.
Chakib Kara reconhece que se trata de um desafio coletivo: “Portugal continua a apresentar taxas de recolha e reciclagem abaixo da média europeia (…) este é um desafio urgente, mas também conjunto que não pode ser enfrentado apenas pela indústria de embalagens.”
O responsável defende maior coordenação entre indústria, municípios, sistemas de gestão de resíduos e cidadãos, sublinhando a importância da separação correta das embalagens e do reforço das infraestruturas. “Todos temos de fazer mais”, indica o diretor-geral da Tetra Pak.
A sensibilização pública surge como elemento essencial para garantir que a inovação industrial se traduz efetivamente em circularidade.
“A Tetra Pak tem vindo a trabalhar com as partes interessadas, tais como municípios, empresas de gestão de resíduos, decisores políticos, retalhistas e clientes para expandir a infraestrutura de recolha, triagem e reciclagem, com mais investimento. No fundo, ainda é preciso reforçar a coordenação e a colaboração, de modo a otimizar o desempenho da cadeia de valor da reciclagem local”, explica.
Regulação europeia e competitividade futura
A nova legislação europeia sobre embalagens deverá intensificar a pressão sobre empresas para garantir reciclabilidade efetiva, redução de materiais de origem fóssil e menor pegada carbónica. Para a indústria, isto significa repensar cadeias de valor, materiais e processos produtivos.
Ao mesmo tempo, a adaptação a estas exigências pode criar vantagens competitivas para empresas que antecipem a transição e invistam em inovação sustentável.
A convergência entre sustentabilidade, segurança alimentar e eficiência económica aponta para uma redefinição do papel das embalagens na economia europeia.
Num mundo cada vez mais exigente e interdependente, a embalagem alimentar deixou de ser apenas um invólucro para se afirmar como um elemento estratégico na construção de um sistema alimentar mais seguro, eficiente e sustentável.