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Pesca portuguesa em busca de maior transparência e rastreabilidade

Portugal é o maior consumidor de peixe per capita da União Europeia. Num país onde o pescado continua a ter um peso importante na alimentação, a gestão das pescas deixou de ser apenas uma questão ambiental. É hoje também uma questão de soberania alimentar e de futuro para o próprio setor.

02 de Outubro de 2026 às 17:36
Continente

Em 2025, a frota portuguesa capturou 166.872 toneladas de pescado, segundo as Estatísticas da Pesca 2025 do INE. O contraste com o consumo é assinalável: em 2023, último ano com dados disponíveis, os portugueses consumiram 392.108 toneladas, segundo um cálculo da WWF Portugal e da Sciaena, com base em dados do INE e do EUMOFA.

Portugal é o maior consumidor de peixe per capita da União Europeia, com 53,61 quilos por pessoa e por ano, dados de 2023, segundo o Observatório Europeu para os Mercados de Produtos de Pesca e da Aquacultura, mais do dobro da média europeia. O pescado é, há muito, um elemento relevante da alimentação dos portugueses e uma fonte importante de proteína, mas o desafio passa cada vez mais por encontrar formas de manter este consumo, conciliando alimentação, disponibilidade de recursos e sustentabilidade.

A equação não é simples. Os oceanos estão sob pressão, o clima está a mudar os ecossistemas marinhos e alguns recursos enfrentam maior pressão do que no passado. Ao mesmo tempo, consumidores, pescadores, produtores, cientistas, autoridades e retalhistas estão a adaptar práticas e modelos de abastecimento. A resposta passa por uma gestão mais responsável dos recursos, pela recuperação de stocks, pela rastreabilidade e por uma oferta capaz de diversificar as espécies consumidas.

Não se trata de consumir menos ou de retirar determinadas espécies da dieta. Trata-se de garantir que o pescado que chega ao prato tem uma origem responsável, onde existe uma gestão adequada e sustentável da quantidade de biomassa e da sua capacidade de se reproduzir ao longo do tempo.

A sardinha que quase desapareceu

Em julho de 2025, numa cerimónia em Matosinhos, a pesca da sardinha ibérica recebeu a certificação do Marine Stewardship Council (MSC), num momento que o MSC considerou um marco para a pesca certificada na Península Ibérica. Para perceber o que representou, é preciso recuar uma década.

Em 2014, a sardinha perdera a certificação MSC. O stock estava em colapso. As capturas foram reduzidas drasticamente. Durante anos, pescadores, cientistas do IPMA e do seu homólogo espanhol, o IEO, e autoridades dos dois países trabalharam em conjunto para travar o declínio e recuperar o recurso. O resultado chegou em 2025: 317 embarcações, 132 delas portuguesas, voltaram a pescar sardinha certificada.

Rodrigo Sengo, responsável do MSC em Portugal, conhece o processo por dentro. Para o responsável, a história da sardinha é mais do que um caso de sucesso de uma espécie. É a prova de que a recuperação é possível quando a ciência, a gestão e o setor trabalham no mesmo sentido. "Depois de ter perdido a certificação em 2014 devido ao estado do stock, a sardinha tornou-se um exemplo de recuperação sustentada pela ciência, pela cooperação entre Portugal e Espanha e pelo compromisso do setor com medidas de gestão exigentes", afirma.

Com a recertificação, cerca de 28% das capturas da frota nacional passaram a estar envolvidas no programa MSC. O objetivo, para 2030, é chegar aos 40%.

A história da sardinha mostra, assim, que o futuro da pesca não se resume aos desafios que enfrenta. Mostra também que os recursos podem recuperar quando existem conhecimento científico, regras de gestão e compromisso de toda a cadeia para os proteger.

Rodrigo Sengo, responsável de MSC em Portugal Continente
Observamos uma evolução muito positiva na atenção que os consumidores portugueses dedicam à origem dos alimentos, à rastreabilidade e à sustentabilidade Rodrigo Sengo, responsável do MSC em Portugal

O que significa o Selo Azul

O MSC é uma organização internacional sem fins lucrativos que gere um dos principais programas de certificação para a pesca a nível mundial. O seu Selo Azul identifica pescado proveniente de pescarias certificadas segundo critérios internacionalmente reconhecidos. Para obtê-lo, uma pescaria tem de demonstrar que mantém populações de peixe saudáveis, minimiza o impacto nos ecossistemas marinhos e é gerida de forma eficaz com base na melhor ciência disponível.

A certificação tem validade de cinco anos e inclui auditorias anuais. Ao longo da cadeia de abastecimento, todas as empresas que comercializem produtos com o selo MSC têm de obter a certificação de Cadeia de Custódia, garantindo que o produto certificado é rastreável desde a origem até ao consumidor. O responsável do MSC sublinha que o processo funciona também como incentivo à melhoria contínua. "Durante a avaliação podem ser identificadas oportunidades para reforçar práticas de gestão, melhorar a recolha de dados científicos ou reduzir impactos sobre espécies e habitats marinhos", explica.

Atualmente existem mais de 500 produtos com o Selo Azul MSC disponíveis no mercado português, um crescimento de 11% face ao ano anterior, abrangendo 22 espécies diferentes.

Na peixaria, a certificação também se rastreia

É também no momento da compra que uma parte importante desta transformação acontece. A forma como os retalhistas selecionam fornecedores, acompanham a origem dos produtos e constroem a sua oferta pode contribuir para aproximar as escolhas do consumidor de práticas mais responsáveis.

O Continente foi, em 2020, o primeiro retalhista português a obter a certificação de Cadeia de Custódia MSC e ASC nas suas peixarias, mantendo-se como a única insígnia com a cadeia de custódia totalmente certificada segundo este referencial.

A certificação é parte de uma estratégia mais abrangente de seleção e acompanhamento dos fornecedores. "No Continente, a seleção dos nossos fornecedores de pescado assenta em critérios rigorosos associados à qualidade e segurança alimentar, na sustentabilidade das artes de pesca praticadas e na capacidade da rastreabilidade da origem do pescado", explica Nuno Vital, diretor comercial de frescos do Continente.

Nuno Vital, diretor comercial de frescos do Continente Continente
Ao nível da rastreabilidade, privilegiamos fornecedores que disponham de sistemas robustos que permitam identificar a origem do pescado e acompanhar o produto ao longo de toda a cadeia de abastecimento Nuno Vital, diretor comercial de frescos do Continente

Na componente da sustentabilidade, a empresa privilegia a aquisição de pescado proveniente de origens e métodos de pesca, produção de pescado ou stocks comprovadamente sustentáveis, idealmente com certificações reconhecidas, como a MSC, para certificação de pesca selvagem, e a ASC, para certificação de aquacultura.

A rastreabilidade é um dos critérios centrais. "Ao nível da rastreabilidade, privilegiamos fornecedores que disponham de sistemas robustos que permitam identificar a origem do pescado e acompanhar o produto ao longo de toda a cadeia de abastecimento", afirma Nuno Vital. Esta abordagem é complementada pelos requisitos da certificação de Cadeia de Custódia MSC/ASC, implementada nas operações de receção, distribuição e comercialização de pescado do Continente.

O processo não se limita à certificação do produto. Segundo Nuno Vital, a certificação MSC/ASC "implica controlos e auditorias regulares, internos e externos, aos entrepostos e lojas", reforçando o acompanhamento dos produtos certificados ao longo da operação.

A aposta estende-se também à construção da própria oferta. Diversificar as opções disponíveis é uma forma de dar ao consumidor maior capacidade de escolha e de evitar uma concentração permanente da procura nas mesmas espécies. Nesse sentido, o Continente trabalha com diferentes origens e modelos de produção, incluindo a aquacultura responsável, procurando complementar a oferta e acompanhar a evolução dos recursos disponíveis.

Em 2020, o Continente tornou-se o primeiro retalhista português e mantém-se como a única insígnia com a cadeia de custódia das suas peixarias totalmente certificada segundo o referencial MSC/ASC. "Garantir que os nossos artigos advêm de práticas responsáveis é um pilar prioritário da nossa estratégia e está integrado na nossa Política de Gestão de Pescado. Trabalhamos para que esse compromisso seja compatível com uma proposta de preço competitiva e acessível para o nosso cliente", sublinha o responsável.

A sustentabilidade passa, assim, por várias etapas: pela escolha dos fornecedores, pela origem e certificação do pescado, pelo acompanhamento do produto ao longo da cadeia e também pela possibilidade de colocar à disposição dos consumidores um leque mais diversificado de espécies.

Rodrigo Sengo reconhece o papel da grande distribuição nesta equação e destaca o que considera ser um passo relevante para democratizar o acesso ao pescado certificado. "Um dos desafios históricos do mercado português tem sido disponibilizar pescado certificado em formatos de venda tradicionais, como os balcões de peixaria. Esta aposta contribui para tornar as opções provenientes de pescarias certificadas mais acessíveis no dia a dia", sublinha.

O consumidor que está a mudar

Os portugueses estão a tornar-se mais atentos à origem do que compram. Os dados do estudo MSC e GlobeScan de 2026, realizado junto de mais de 27 mil consumidores em 23 países, são reveladores: o reconhecimento do Selo Azul MSC em Portugal passou de 41% em 2020 para 46% em 2024 e atingiu os 50% em 2026. Pela primeira vez, um em cada dois portugueses reconhece o selo.

O mesmo estudo mostra que 71% dos portugueses reconhecem que existe hoje mais sobrepesca do que há 50 anos, um dos níveis de sensibilização mais elevados da Europa. Mas persistem lacunas de literacia oceânica: apenas 33% sabem que populações sobreexploradas podem recuperar quando geridas de forma sustentável, enquanto 38% acreditam erradamente que um stock sobreexplorado não pode recuperar.

O responsável do MSC é cuidadoso na leitura desta evolução. O preço continua a pesar na decisão de compra. "Na prática, os consumidores ponderam vários fatores em simultâneo, incluindo qualidade, preço, confiança, conveniência, origem e sustentabilidade." Mas a tendência é clara. "Observamos uma evolução muito positiva na atenção que os consumidores portugueses dedicam à origem dos alimentos, à rastreabilidade e à sustentabilidade", afirma.

A mudança passa, por isso, por uma combinação de fatores. O consumidor continua a procurar qualidade, frescura e preço, mas começa também a ter mais informação sobre a origem do que compra e sobre o impacto das suas escolhas.

O que o clima vai mudar

As alterações climáticas estão a remodelar os oceanos. O aumento da temperatura da água, a acidificação e a alteração da distribuição das espécies são já realidades observáveis. A gestão das pescas terá de ser cada vez mais adaptativa, capaz de responder a ecossistemas em mudança acelerada.

Para Nuno Vital, o impacto já é sentido no mercado. "As alterações climáticas e a pressão sobre alguns recursos poderão tornar a oferta de pescado mais variável e menos previsível."

A resposta passa, em parte, por uma oferta mais diversificada e por uma maior complementaridade entre diferentes formas de produção.

O responsável do MSC enquadra o desafio de forma mais ampla. "A resiliência das pescarias e a capacidade de adaptação aos impactos climáticos serão fatores cada vez mais importantes para assegurar a disponibilidade de recursos marinhos no longo prazo."

O Continente foi o primeiro retalhista português a obter a certificação de Cadeia de Custódia MSC e ASC nas suas peixarias e mantém-se como a única insígnia com a cadeia de custódia das suas peixarias totalmente certificada segundo este referencial.

Comer peixe, comer melhor

O elevado consumo de pescado em Portugal é uma oportunidade. O peixe ocupa um lugar relevante numa alimentação equilibrada, contribuindo para uma dieta diversificada e para o consumo de nutrientes importantes. O desafio está em conciliar esse papel na alimentação com a necessidade de garantir que os recursos de que dependemos permanecem disponíveis no futuro.

É aqui que sustentabilidade e alimentação podem deixar de ser temas separados. Escolher pescado proveniente de fontes responsáveis, conhecer a sua origem e diversificar as espécies consumidas são formas de continuar a integrar pescado na alimentação, ao mesmo tempo que se procura reduzir a pressão sobre determinados recursos.

Para a distribuição, esta mudança implica privilegiar as compras nas artes de pesca mais sustentáveis, sensibilizar e disponibilizar informação para os consumidores, assegurar uma oferta variada e garantir a rastreabilidade ao longo de toda a cadeia de abastecimento. Para o consumidor, significa ter mais possibilidades de escolha e capacidade para tomar decisões informadas.

Mais variedade no prato

A diversificação ganha particular importância num país que, apesar do elevado consumo de pescado, concentra grande parte da procura em algumas espécies. Segundo o EUMOFA, o bacalhau é de longe a espécie mais consumida, seguido do atum, salmão, sardinha, camarão e polvo.

Esta concentração pode colocar maior pressão sobre determinados stocks. Ampliar as possibilidades de escolha é, por isso, também uma forma de distribuir a procura por diferentes espécies e origens, sem perder de vista a qualidade, a segurança alimentar e sustentabilidade.

No Continente, o salmão e a dourada, ambos provenientes maioritariamente de aquacultura, estão entre as espécies com maior volume de vendas. “A aquacultura contribui para complementar a oferta e para uma gestão mais equilibrada dos recursos marinhos", explica Nuno Vital.

A aquacultura assume, neste contexto, um papel crescente. À medida que as alterações climáticas e a pressão sobre alguns recursos podem tornar a oferta de pescado mais variável e menos previsível, diferentes formas de produção e diferentes espécies podem contribuir para assegurar disponibilidade e capacidade de escolha.

"A aquacultura está a ganhar um papel cada vez mais relevante, ajudando a complementar a oferta e a responder à procura", acrescenta Nuno Vital.

O objetivo não é afastar o consumidor das espécies que tradicionalmente fazem parte da mesa portuguesa, mas aumentar as possibilidades. Sardinha, carapau, dourada, salmão, bacalhau e outras espécies podem integrar uma alimentação diversificada, enquanto a origem e o modo de produção ganham peso nas decisões de compra.

No fundo, a transformação da pesca e do consumo de pescado passa por várias frentes: proteger os recursos, recuperar stocks, melhorar a gestão, minimizar o desperdício, tornar a cadeia mais transparente, diversificar as espécies disponíveis e manter o pescado acessível ao consumidor. Num país que gosta de peixe e quer continuar a tê-lo como base da sua cultura alimentar, o desafio passa por continuar a intensificar esforços para se alcançar um futuro saudável e sustentável para a indústria da pesca.

 

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