Quando se fala em embalagens sustentáveis, a atenção recai quase sempre sobre o momento em que chegam ao ecoponto. Mas a verdade é que o destino de uma embalagem começa a ser desenhado muito antes de ser utilizada pelo consumidor. É na fase do design que se decide a sua reciclabilidade, a utilização de materiais menos ou mais compatíveis e se a sua composição poderá vir a representar dificuldades aos processos de reciclagem de embalagens.
Este é o centro do nono episódio da série "Embalagens e Inovação Sempre no Ponto", promovida pela Sociedade Ponto Verde (SPV) no âmbito das comemorações dos seus 30 anos. Sob o mote "Repensar a embalagem", o episódio põe o ecodesign no centro da discussão e demonstra que desenhar melhor uma embalagem significa hoje, desenhar também um futuro mais circular.
Num contexto em que a regulamentação europeia impõe metas cada vez mais ambiciosas e em que consumidores e empresas exigem soluções ambientalmente mais responsáveis, o desafio deixou de ser apenas reciclar. É sobretudo, criar embalagens pensadas e preparadas para serem recicladas.
Instrumento de avaliação prévia
Foi dessa necessidade que nasceu o Pack4Sustain, uma ferramenta desenvolvida pela Sociedade Ponto Verde em parceria com o CENTIMFE (Centro Tecnológico da Indústria de Moldes, Ferramentas Especiais e Plásticos) e a Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade NOVA de Lisboa, que permite às empresas clientes da SPV avaliar, ainda durante a fase de desenvolvimento do produto, o desempenho ambiental e a reciclabilidade das embalagens.
Mais do que um instrumento de avaliação, trata-se de uma ferramenta que ajuda a tomar decisões antes de a embalagem chegar ao mercado, permitindo identificar soluções técnicas que tornam todo o ciclo de vida do produto mais eficiente.
Para Rui Tocha, diretor-geral do CENTIMFE, esta mudança representa uma transformação profunda na forma como a indústria encara o desenvolvimento de novos produtos.
"O Pack4Sustain nasce através da Sociedade Ponto Verde de uma necessidade de as empresas responderem aos desafios da sustentabilidade, utilizando o ecodesign, novos materiais e processos de desenvolvimento que reduzam os impactos no planeta", explica o diretor.
O responsável considera que esta abordagem vai muito além da simples escolha de materiais. Implica conhecimento científico, inovação tecnológica e uma ligação permanente entre quem investiga e quem produz.
"O que hoje se pede às empresas é que desenvolvam competências logo a montante, na criatividade e no desenvolvimento de novos produtos, porque é aí que conseguem integrar mais cedo as cadeias internacionais de valor e apresentar soluções completas, desde o design até ao produto final", sublinha.
Esta visão é precisamente um dos aspetos que distinguem o projeto. Em vez de atuar apenas quando uma embalagem já existe, o Pack4Sustain intervém no momento em que todas as decisões ainda podem ser alteradas.
Sandra Carreira, coordenadora da Área de Sistemas de Gestão do CENTIMFE, resume a lógica da ferramenta de forma simples: "A fase do ecodesign é crucial. É aí que conseguimos identificar os pontos críticos da embalagem para que, no fim de vida, ela seja reciclável e tenha o menor impacto possível no ambiente."
Na prática, a plataforma analisa cada componente da embalagem: materiais, rótulos, colas, sistemas de fecho ou cores, e sugere melhorias técnicas capazes de aumentar a reciclabilidade e reduzir impactos ambientais.
"O Pack4Sustain vai dando soluções técnicas compatíveis com aquilo que é exequível para cada embalagem", explica a investigadora, acrescentando que o objetivo passa por aumentar significativamente o número de embalagens recicláveis produzidas em Portugal.
Também a investigadora Graça Martinho, professora da NOVA FCT, considera que o grande mérito da ferramenta está em antecipar problemas em vez de os corrigir mais tarde.
Segundo a especialista, “cerca de 80% do impacto ambiental de um produto resulta das decisões tomadas durante a fase de conceção”, razão pela qual o ecodesign assume hoje um papel determinante.
"Se tivermos o cuidado, no momento da conceção, de considerar os impactos ambientais ao longo de todo o ciclo de vida do produto, resolvemos muitos dos problemas antes de eles acontecerem", afirma a investigadora.
A ferramenta avalia três grandes dimensões: o nível de circularidade da embalagem, o risco potencial de poluição marinha e os impactos ambientais e para a saúde pública ao longo do seu ciclo de vida, permitindo às empresas obter uma classificação integrada sobre o desempenho ambiental das soluções que estão a desenvolver.
Mais do que um instrumento técnico, Graça Martinho considera que o Pack4Sustain é também uma ferramenta pedagógica, capaz de ensinar as empresas a melhorar as suas embalagens. "Ela não se limita a avaliar. Explica ao utilizador como pode alterar determinadas características para tornar a embalagem mais reciclável."
O papel fulcral da SPV
Outro dos aspetos valorizados pelos parceiros é o papel desempenhado pela Sociedade Ponto Verde durante todo o desenvolvimento do projeto.
Segundo Graça Martinho, a entidade gestora acompanhou permanentemente a construção da ferramenta, garantindo que esta respondia às necessidades reais do mercado português. "A Sociedade Ponto Verde teve aqui um papel fulcral. Os seus técnicos estiveram sempre ao nosso lado, testando, avaliando e fazendo a ligação com o mercado, permitindo desenvolver um produto final que funciona e que foi testado em centenas de embalagens."
A adoção desta metodologia já está a produzir efeitos concretos em empresas que colocam milhares de embalagens no mercado todos os dias.
É o caso da MC, área de retalho alimentar do Grupo Sonae, que participou desde o início no desenvolvimento e validação da ferramenta. Para Tânia Lucas, diretora de Marcas Próprias MC , o Pack4Sustain veio responder a uma necessidade muito concreta: deixar de avaliar a sustentabilidade apenas no final do processo e passar a integrá-la desde o primeiro desenho da embalagem.
"A grande mudança foi passar a pensar na reciclabilidade logo no momento da conceção. É muito diferente resolver uma embalagem que já está no mercado ou desenhá-la desde o início para que seja reciclável", afirma.
Responsável por milhares de referências de marca própria, a empresa considera que uma das maiores vantagens da plataforma está na profundidade da análise que realiza.
"A ferramenta obrigou-nos a conhecer muito melhor as embalagens dos nossos produtos e a criar uma linguagem comum entre todos os intervenientes, desde quem desenvolve a embalagem até aos fornecedores e fabricantes", explica Tânia Lucas.
Apesar dos progressos alcançados, reconhece que o caminho continua a ser exigente. A MC assumiu publicamente o compromisso de tornar recicláveis, reutilizáveis ou compostáveis todas as embalagens de marca própria até 2025. Chegou aos 92%, um resultado significativo, mas que evidencia também a complexidade técnica dos casos mais difíceis.
"Os 8% que faltam são precisamente os mais desafiantes. É aqui que ferramentas como o Pack4Sustain nos ajudam a perceber onde temos de atuar e como podemos evoluir", admite.
A parceria com a SPV tem sido fulcral e a diretora valoriza o conhecimento e a disponibilidade da entidade: “Temos muitos projetos feitos com a Sociedade Ponto Verde e esta parceria é, de facto, uma parceria absolutamente virtuosa.”
Embalagens como estratégia
Também o Grupo Mosqueteiros vê no ecodesign uma ferramenta estratégica para responder simultaneamente às exigências ambientais, legais e dos consumidores.
Segundo Aline Gonçalves, da direção de Qualidade , a sustentabilidade das embalagens deixou de ser um tema secundário para passar a integrar as prioridades da marca própria.
"As embalagens passaram a ser estratégia na marca própria porque só assim conseguimos responder tanto aos desafios do mercado como às exigências legais", explica. Essa mudança traduz-se em decisões aparentemente discretas, mas com impacto significativo.
Um dos exemplos apontados foi a eliminação da tampa plástica de 12 referências de iogurtes líquidos da marca própria, decisão que permitiu reduzir cerca de cinco toneladas de plástico por ano.
Outro exemplo passou pela substituição das cuvetes de poliestireno por PET reciclado em refeições congeladas, uma alteração praticamente invisível para o consumidor, mas com impacto direto na melhoria da reciclabilidade da embalagem.
Porém, para este caminho virtuoso é fundamental o trabalho em parceria, como enaltece a diretora de qualidade: “A parceria entre o Grupo Mosqueteiros e a Sociedade Ponto Verde resulta de uma combinação entre proximidade, colaboração e conhecimento técnico, que nos tem permitido tomar decisões mais informadas e mais alinhadas com as exigências legais e com as do setor, recorrendo sempre que necessário ao apoio técnico e ao aconselhamento desta entidade gestora.”
Muitas das decisões mais importantes nunca chegam a ser vistas pelo consumidor.
Como recorda Graça Martinho, "a economia circular começa muito antes da reciclabilidade". A conceção da embalagem determina o consumo de matérias-primas, a utilização de água e energia, a produção de resíduos e até a qualidade do material que regressará à indústria depois de reciclado. É precisamente por isso que o ecodesign deixou de ser uma tendência para passar a ser uma necessidade.