O Pavilhão Carlos Lopes recebeu, a 15 de abril, o SAP Connect Day Portugal, um evento que reuniu, num único espaço, seis áreas de negócio: finanças e despesas, dados e inteligência artificial, cadeia de abastecimento, gestão de despesas e viagens, recursos humanos e experiência do cliente. Cada palco funcionou como um ambiente de especialização, com demonstrações, casos práticos e sessões orientadas para aplicação concreta da tecnologia. Em paralelo, a circulação entre áreas permitiu cruzar experiências e alinhar prioridades entre diferentes departamentos de forma a manterem uma visão integrada do negócio.
A mensagem dominante ao longo do evento foi de que a inteligência artificial deixou de ser um conceito e passou a ser indissociável da operação diária das empresas. Na sessão de abertura, Nuno Saramago, diretor-geral da SAP Portugal, destacou a relevância do ecossistema nacional, sublinhando que estava representada no evento “uma grande fatia daquilo que é a economia portuguesa”. O responsável reforçou ainda o posicionamento do país dentro da multinacional, sublinhando que “a SAP Portugal não é mais um país periférico”. Com quase mil colaboradores no país, equipas de engenharia, projetos de cloud soberana e iniciativas exportadas para outros mercados, Portugal consolidou-se como mercado estratégico dentro da estrutura global da empresa alemã, contando com uma base de mais de 4.000 clientes.
O paradoxo da IA
Carlos Lacerda, vice-presidente e diretor executivo da SAP para o Sul da Europa, responsável pelos mercados de Portugal, Espanha, Israel, Turquia, Grécia, Chipre e Malta, considera que 2026 marca um ponto de viragem, caracterizado por um paradoxo. De acordo com este responsável, nunca houve tanta capacidade de processamento, tantos dados disponíveis nem tanta inteligência artificial acessível e, ainda assim, a dificuldade em decidir como aplicá-la é maior do que nunca. “Temos mais informação, mas temos muito mais incerteza. Temos mais capacidade de processamento e, por outro lado, olhamos para a tecnologia como uma ameaça”, descreveu Carlos Lacerda.
Na prática, as organizações enfrentam hoje um contexto em que a abundância de informação coexiste com níveis elevados de incerteza. A capacidade de decisão – e não apenas de acesso à tecnologia – torna-se o verdadeiro fator crítico de sucesso, ou seja, a solução não passa por resolver o paradoxo, mas por aprender a navegar nele. E é precisamente aqui que o software empresarial ganha protagonismo.
A IA precisa de dados, aplicações e contexto
A estratégia da SAP assenta em três vetores que se alimentam mutuamente: aplicações que geram dados fiáveis, dados enriquecidos com contexto e inteligência artificial que os interpreta e potencia, num círculo virtuoso que se vai autoalimentando. Carlos Lacerda recorreu a uma analogia direta: “Imaginem que a IA é um carro. Mas se não houver estradas, regras de trânsito, GPS, tudo o que está à volta deste sistema, o carro só por si não serve nada.” Um agente de IA a funcionar em vácuo, sem processos, sem governação, sem rastreabilidade, representa apenas uma fração do valor possível.
Nuno Saramago aprofundou o argumento identificando os três pilares que distinguem a chamada "IA de Negócio" da IA genérica, nomeadamente o contexto de negócio, uma base semântica comum, assegurada pelo SAP Business Data Cloud, lançado no ano passado, e governação corporativa, que inclui auditoria, rastreabilidade e perfis de autorização. “Se estivermos desgovernados nessa utilização, podem advir daí problemas sérios.”
Casos reais, de diferentes escalas
O discurso de abertura não se ficou pelo plano teórico. Foram apresentados casos concretos de empresas portuguesas já a operar neste novo paradigma. Os CTT, com mais de 500 anos de história, foram dos primeiros clientes nacionais a migrar para o SAP S/4HANA Cloud, num contexto de disrupção acelerada pelo e-commerce. A necessidade de suportar novos modelos de faturação e expedição, como o lançamento de serviços express pré-pagos, tornou a transformação tecnológica uma condição de sobrevivência competitiva.
A Symington, família de origem britânica instalada no Douro desde 1872 e maior proprietária de quintas da região, aplica hoje inteligência artificial à monitorização de cada vinha. Um negócio secular a operar com ferramentas de ponta e, segundo Carlos Lacerda, com “um nível de gestão profissional ímpar”.
A EDP surge como exemplo de transformação à escala global. Com o objetivo de atingir 100% de energias renováveis em 2030, o grupo utilizou o SAP S/4HANA Cloud numa abordagem Greenfield, ou seja, partindo do zero para rever processos, melhorar o cashflow e posicionar-se para uma utilização intensiva de IA nos dados operacionais em tempo real.
Foram ainda mencionadas a BluePharma e o Grupo Paulo Duarte como exemplos mais recentes e de menor dimensão, provando que a transição para a cloud e para a IA não é exclusiva das grandes corporações.
Com a competitividade empresarial a depender cada vez mais da capacidade de execução tecnológica, a posição defendida pela SAP aponta para um papel mais ativo de Portugal na transformação digital europeia. O encerramento da sessão de abertura assumiu um tom estratégico e ambicioso. Carlos Lacerda deixou uma mensagem direta às empresas presentes, admitindo que o futuro da inteligência artificial na Europa não será definido fora do continente. “O futuro vai ser escrito aqui, em Portugal, com todos vós”, afirmou, acrescentando que o país “está a tomar essa decisão agora mesmo”.
Da ambição à prática
Mais do que demonstrar potencial, os diferentes painéis evidenciaram níveis distintos de maturidade na adoção de cloud e IA em Portugal, com organizações a avançar a ritmos variados, mas com desafios comuns: integração de sistemas, qualidade de dados e capacidade de execução.
Na área de recursos humanos, o foco esteve na necessidade de alinhar pessoas, processos e objetivos de negócio num contexto de transformação acelerada. A fragmentação de sistemas continua a limitar a eficiência, sobretudo em organizações multinacionais ou em crescimento.
Casos como o da BA Glass evidenciaram uma transformação transversal a sete países em apenas nove meses, com a transferência dos sistemas instalados nos servidores da empresa para a cloud, permitindo maior consistência de processos e visibilidade organizacional. Já o Grupo Simoldes destacou a digitalização das áreas de core HR e payroll, com ganhos operacionais e maior capacidade de adaptação. A adoção de plataformas como o SAP SuccessFactors, com suporte de inteligência artificial, surge neste contexto como um elemento estruturante para ligar estratégia de talento à execução operacional.
Finanças e compras: dados unificados para decisões mais rápidas
Nas áreas de finanças e procurement, o desafio passa por transformar pressão, custos, incerteza e complexidade em capacidade de controlo e decisão.
A Infraestruturas de Portugal apresentou a sua jornada de transformação no âmbito do RISE with SAP, com foco na simplificação de sistemas e melhoria da eficiência operacional. A Caixa Geral de Depósitos destacou a modernização da contabilidade, enquanto a Finerge evidenciou a adoção de SAP S/4HANA Public Cloud como suporte a um modelo financeiro mais ágil.
No setor segurador, a Fidelidade partilhou a evolução do seu modelo de corporate finance, alinhando tecnologia com gestão estratégica. Na vertente de compras, empresas como o Pestana Hotel Group e a EDP demonstraram como soluções como o SAP Ariba permitem centralizar processos, melhorar a relação com fornecedores e aumentar a transparência, com impacto direto na eficiência e controlo de custos.
Supply chain: visibilidade para responder à inovação
A evolução das cadeias de abastecimento exige hoje maior resiliência e capacidade de adaptação. A falta de visibilidade continua a ser um dos principais entraves à eficiência logística. Empresas como a Cimpor e a Bondalti apresentaram abordagens centradas na digitalização dos processos de procurement e supply chain, com recurso a dados em tempo real para antecipar disrupções e otimizar operações. A integração entre sistemas e a utilização de inteligência artificial surgem como fatores críticos para garantir continuidade operacional num contexto global cada vez mais volátil.
Customer experience e despesa: eficiência e proximidade ao cliente
Na área de experiência do cliente, o destaque foi para o papel da inteligência artificial na personalização e na criação de relações mais consistentes e duradouras. As soluções SAP CX foram apresentadas como instrumentos para transformar dados em interações com impacto direto na fidelização do cliente e crescimento das receitas.
Em paralelo, o SAP Concur Day reforçou a importância da gestão integrada de viagens e despesas. Empresas como a EDP Global Solutions, a Greenvolt, o Banco de Portugal e a Cimpor partilharam casos de digitalização destes processos, evidenciando ganhos assinaláveis em controlo, transparência e de eficiência operacional.
TI e transformação digital: reduzir complexidade para acelerar inovação
As equipas de TI continuam no centro da transformação, com a responsabilidade de integrar sistemas, garantir segurança e, simultaneamente, suportar inovação contínua. Casos como os da Portway e da MAP Engenharia demonstraram a importância da interoperabilidade e da extensibilidade em ambientes SAP S/4HANA Public Cloud, permitindo adaptar rapidamente os sistemas às necessidades do negócio, o que só é possível simplificando arquiteturas e ligando aplicações, dados e inteligência artificial.
Reconhecer e premiar a transformação
O SAP Connect Day Portugal ficou também marcado pela atribuição de prémios a organizações que se destacaram na transformação digital, em particular na área de recursos humanos. A iniciativa procurou reconhecer não apenas projetos concluídos, mas percursos sólidos de evolução, inovação e impacto organizacional.
Entre as empresas distinguidas, a Logoplaste foi reconhecida na categoria Success Hero, que distingue percursos de excelência na transformação digital de RH. O Grupo Trivalor recebeu o prémio HR Evolution, destacando a evolução contínua na gestão de pessoas.
No setor público, a CP – Comboios de Portugal foi distinguida na categoria Public Sector, enquanto a BA Glass recebeu o prémio Go Live Leader, associado à implementação bem-sucedida de soluções de transformação digital da gestão de pessoas.
A dimensão internacional foi reconhecida com o prémio Global HR, atribuído ao Grupo Simoldes, enquanto a Fundação Calouste Gulbenkian foi distinguida na categoria People Success, focada na capacitação e no desenvolvimento das pessoas e equipas.
Já o Banco de Portugal recebeu o prémio Data Driven HR, que valoriza a utilização de dados para transformar a gestão de pessoas, e o Grupo Casais foi reconhecido como Pioneer, destacando uma abordagem inovadora e visionária na transformação organizacional na área de Recursos Humanos.