As farmacêuticas exageram nos preços?

A presidente do Infarmed, Maria do Céu Machado, diz que não percebe o elevado preço dos medicamentos inovadores e revela que os genéricos são "perversos" enquanto dura a patente do fármaco.
As farmacêuticas exageram nos preços?
O preço dos medicamentos inovadores, a digitalização dos hospitais e a gestão sustentável das unidades de saúde foram os principais temas discutidos no painel.
Inês Lourenço
Bruno Simões 12 de outubro de 2017 às 14:39
A presidente do Infarmed, Maria do Céu Machado, disse não compreender os preços dos medicamentos inovadores - para o cancro, hepatite C ou sida - durante a mesa redonda que precedeu a entrega dos prémios Saúde Sustentável, no passado dia 3 de Outubro. A responsável citou estimativas de que a inovação nos medicamentos "tem aumentado todos os anos 10% a 15%" e interroga-se: "porque é que a inovação está a este preço?".

Maria do Céu Machado, médica há 45 anos, diz que a "inovação nunca teve este custo" e que isso representa um problema. "A inovação é incomportável neste momento se quisermos dar acesso a todos os doentes, a todos os medicamentos inovadores em todas as áreas. Temos de discutir qual a melhor forma deste acesso ser conseguido".

Mas o problema não existe só nos medicamentos inovadores. Os genéricos também levam a uma distorção dos preços. "O mundo dos genéricos e bio-similares é extremamente perverso, porque achamos que poupamos milhões", mas não é bem assim. O que acontece, referiu, é que "durante o tempo da patente [do medicamento], a indústria põe o preço mais alto que conseguir fazer passar, porque sabe que quando a patente acabar" e a substância passar a genérico "terá de o baixar".

A responsável diz que é hora de "repensar todo este mercado de genéricos e biossimilares. Se calhar os genéricos e biossimilares têm o seu papel, mas não desta maneira", sem que "haja esta redução tão abrupta".

Josep Catllá, vice-presidente da farmacêutica Sanofi, tinha dito, instantes antes, que "é fácil culpar a indústria por muitos dos problemas que acontecem". "Não quero que ninguém ganhe dinheiro com a minha saúde, mas não é esse o papel da indústria farmacêutica, ou pelo menos não é exactamente esse o papel da Sanofi", referiu. "Todos nos movemos pelo mesmo objectivo: trazer esperança e cura aos que sofrem". E "quando nos encontramos nesse papel queremos que empresas como a Sanofi tenham investido o máximo em medicamentos para que eu possa ter a minha situação de saúde resolvida", observa.

Novos medicamentos demoram a chegar aos médicos

Maria do Céu Machado admite responsabilidades do próprio Infarmed na demora dos medicamentos inovadores. "Passamos os dias a estudar e depois negociar os medicamentos inovadores, sendo que culpamos a indústria farmacêutica pelo preço da inovação, e depois não conseguimos chegar aos prescritores". Isto porque "fechamos uma negociação com um medicamento que é inovador e vai levar a poupança com outros que não são tão inovadores, mas o [médico] prescritor não tem acesso e não sabe que isso está a acontecer". E há "exemplos vários de que isso está a acontecer".

Aqui fica um: Maria do Céu Machado falou com o director-geral de saúde depois de se aperceber "que estamos a reavaliar um anti-coagulante de última geração que nos custa milhões por ano", e quando ele foi aprovado "passou ao lado da DGS".

Além de uma maior articulação entre as entidades públicas da saúde, Maria do Céu Machado diz que está prevista "uma aplicação para médicos que envia um alerta que lhes diz que foi aprovado um medicamento inovador em cardiologia" ou noutra área. O Infarmed também vai chegar ao Facebook, para os cidadãos poderem "comunicar efeitos adversos".





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Anónimo Há 1 semana

Os glutões

Imaginem! Ainda têm tempo para perguntar. É preciso ter mesmo gosto de falar, .ou então é uma necessidade para continuar no desaforo com o dinheiro alheio