A rotunda do poder
A investigação da Operação Marquês acaba por ser uma autópsia de um crime de que fomos todos vítimas. O crime de um clique do poder em Portugal até ao resgate da troika.
E talvez ajude a explicar porque é que este país se afundou, o império Espírito Santo explodiu e a PT se queimou num casamento ruinoso com a Oi e no papel de banco privativo do accionista mais poderoso.
Duas figuras principais emergem neste processo. O ex-primeiro-ministro José Sócrates, que em 2005 conseguiu uma maioria absoluta, e que a partir de certo momento desenvolveu um projecto pessoal de poder, criando um gigantesco esquema de enriquecimento ilícito e um projecto pessoal de poder, que, como é notório nas investigações do processo Face Oculta, incluíam a compra de órgãos de comunicação que atrapalhavam esse projecto global.
O aliado improvável de Sócrates foi o banqueiro a que chamavam o dono disto tudo, Ricardo Salgado, herdeiro da dinastia centenária financeira mais poderosa desde o Estado Novo, cabeça de um império mal gerido, com as culpas a recaírem no contabilista. A PT era a galinha de ovos de ouro que alimentava com generosos dividendos e até financiava num esquema ruinoso o grupo do patrão. E no meio surgem dois destacados e respeitados gestores, suspeitos de ganhar luvas milionárias. Salgado justificou os milhões para Granadeiro com o "know-how" agrícola, enquanto as luvas de Bava eram uma "garantia fiduciária".
Dizia um poeta que isto anda tudo ligado. E o que se sabe da Operação Marquês, conjugado com o destino da PT, a tragédia do BES, mostram que o que aconteceu não foi azar. Foi a consequência de gestão danosa, com o fim de enriquecimento de um pequeno grupo. E vamos continuar a pagar esse crime. Da lista de crédito que tira valor ao Novo Banco estão os grandes devedores. Um deles até ofereceu uma prenda milionária a Ricardo Salgado. Uma liberalidade, disse o banqueiro. Empobrecem o país, mas enriquecem a língua.
Director-adjunto do Correio da Manhã
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