A chaga económica
Qualquer boa notícia sobre redução de desemprego é de aplaudir, mas a forma como o Governo celebrou os recentes dados divulgados pelo INE é manifestamente exagerada.
Até deu direito a um twitter do primeiro-ministro a colher os louros pelo alegado "bom resultado" das políticas económicas do executivo.
Acontece que a contribuição normal de um governo para a redução do desemprego no verão é semelhante à contribuição da política para a chuva em dezembro. Isto porque no verão, há sol praia e este ano até houve mais turistas. De Norte a Sul e nas ilhas, houve mais clientes, os preços até subiram. A maré do low cost invadiu Lisboa e Porto de dezenas de milhares de visitantes. A instabilidade política e as ameaças de segurança desviaram outras dezenas de milhares de pessoas do mediterrâneo oriental para o Algarve. Em suma, no turismo, quase tudo correu bem e este é um setor que precisa de muita mão de obra.
O emprego sazonal também aumenta porque há muitas empresas que recorrerem à contratação nesta época para substituir pessoas que vão de férias. Portanto, é normal que haja sempre menos desemprego.
Acresce ainda que outra boa notícia revelada pelo INE, a redução do desemprego jovem, pode ter ainda outra causa externa: a emigração.
Preocupante é o desemprego ainda registar níveis de dois dígitos. E as más notícias chegam em setembro. Acabada a época alta das férias, milhares de trabalhadores perdem o emprego. Há ainda a contar com mais um contingente de recém-diplomados das universidades que entram no mundo do trabalho e desgraçadamente para a maioria deles essa entrada será através das filas do IEFP. Até alguns anos era o Estado o principal empregador deste exército de jovens licenciados, com a entrada nos quadros do Ministério da Educação, mas agora a quebra demográfica obriga ao brutal emagrecimento do quadro dos docentes.
E no universo dos estágios profissionais que mitiga os números do desemprego, há milhares deles em fase de conclusão, sendo que a maioria dos jovens nestes programas não vê o seu contrato renovado.
A verdade é que só com a economia a crescer é que há criação sustentável de emprego. E nem é com uma evolução à volta de 1% que as coisas mudam para melhor. Aliás, como explicou um artigo publicado aqui no Jornal de Negócios, as empresas estão a despedir menos, mas não estão a contratar mais pessoas. Contam com a prata que já têm em casa.
Vivemos num mundo estranho de dinheiro tão barato, mas sem investimento. As empresas e empresários não investem, porque não têm confiança. Sem confiança, não há investimento e sem investimento não há criação sólida de emprego.
O Governo vai certamente apostar na aceleração dos fundos comunitários para dinamizar a economia a tentar minorar esta chaga económica e social do desemprego. Mas se não se concretizar um clima de expansão económica em que as empresas e empreendedores acreditem que vale a pena apostar, os cheques dos fundos comunitários arriscam a ser mais um desperdício negligente de milhões e de recursos.
Nenhuma empresa séria investe só por causa de subsídios de curto prazo, nem gasta o dinheiro para diminuir as estatísticas do desemprego num gesto de filantropia. As empresas investem para ganharem dinheiro de forma sustentada.
Director-adjunto do Correio da Manhã
Este artigo está em conformidade com o novo Acordo Ortográfico
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