Fernando  Sobral
Fernando Sobral 27 de julho de 2017 às 21:02

A desertificação de Portugal

A tartaruga poderia ser o símbolo perfeito de Portugal. Da sua lentidão para concretizar qualquer sonho ou para resolver qualquer desafio. Entre os prós e os contras de cada opção, o país coloca uma venda nos olhos como a justiça e tenta equilibrar os benefícios e danos.

O resultado é a ausência de decisões. A reforma da floresta é, ela própria, o palco mais óbvio deste desencontro com o calendário veloz dos tempos recentes. Basta ouvir o essencial do que disse, sensatamente, o vice-presidente da Câmara de Mação: ardeu agora o que tinha ardido em 2003. Durante todos estes anos os responsáveis locais alertaram o poder central para a necessidade de alterações. O Terreiro do Paço, como sempre, fez ouvidos de mercador e o resultado é esta vergonha nacional que promete prolongar-se durante Agosto, até que as condições atmosféricas acalmem. O fogo será vencido pelos tempos frescos e porque já há pouco para arder. Este é o tempo de se cortar a direito, doa a quem doer. Porque num país como este, que tem pouco mais do que a sua beleza natural como recurso estratégico, deixar desaparecer o seu ambiente é um crime.

 

Falta alguma cisa para que se enterrem machados de guerra e interesses políticos, ou cumplicidades económicas, e se faça um consenso nacional sobre a floresta, sobretudo num país onde o Estado tem um peso insignificante na sua propriedade? Um dia destes não há país verde. Haverá um imenso deserto. O que está a acontecer afecta os próximos 10, 20 ou 30 anos. Com a ameaça, cada vez mais real, da desertificação do país, ficar sem floresta (e a sua riqueza de fauna e flora) é um tiro na própria testa. É nestes momentos que se recordam as palavras do início do século XX, de um político incontornável como Augusto Fuschini, que escreveu no seu "O Presente e o Futuro de Portugal": "Em geral as nações do mundo podem classificar-se entre vivas e moribundas." Parecemos estar a ver o dilema dos nossos dias. E acrescentava ele: "Este cinismo e esta inépcia dos poderes públicos em Portugal é, sem dúvida, o mais grave sintoma da nossa decadência, indicando, por um lado, a profunda imoralidade que lavra nas classes elevadas do país, patenteando, por outro lado, a covardia e ignorância com que as classes populares suportam estas miseráveis intrigas partidárias e palacianas, que as afectam na própria dignidade e nos legítimos interesses." Quando se tem assistido, entre incêndios e mortes, a uma chicana política sem limites morais ou éticos, importa reflectir nestas palavras. Elas dizem muito sobre a desertificação reinante. Não só do território, mas também da inteligência política e social. O conceito de deserto afecta já as ideias e a forma como se discute certos temas entre nós.

 

Vivemos tempos de extremos. E este pequeno país à beira-mar especado tem de aprender a preservar aquilo que tem de mais rico: o seu ambiente e as suas gentes. É isso que, nestas décadas, não foi feito. Por ignorância, ganância e desprendimento. Por falta de cultura das elites que mandam. Quando acabar este tempo de incêndios e se olhar para um país mais cinzento, com menos pessoas no interior, menos árvores, menos pássaros e animais selvagens, menos diversidade e menos beleza, se perceberá melhor o que se perdeu. E, agora, só se trava o deserto ou ele transformará Portugal num Sahara com prédios com ar condicionado pelo meio. 

A sua opinião2
Este é o seu espaço para poder comentar o nosso artigo. A sua opinião conta e nós contamos com ela.
Faltam 300 caracteres
Negócios oferece este espaço de comentário, reflexão e debate e apela aos leitores que respeitem o seu estatuto editorial, promovam a discussão construtiva e combatam o insulto. O Negócios reserva-se ao direito de editar, apagar ou mesmo modificar os comentários dos seus leitores se atentarem contra o bom senso e seriedade.O acesso a todas as funcionalidades dos comentários está limitada a leitores registados e a Assinantes.
comentar
comentários mais recentes
Mr.Tuga 28.07.2017

Excelente!

Os tugas sem CIVISMO, IMBECIS TROGLODITAS e ATRASADOS, como sempre deixam tudo para a ultima e quando já NADA existe!
CRIMINOSOS!
Este sitio sebento MERECE-SE!

Anónimo 28.07.2017

Gostei. Como quase sempre, um bom artigo, muito bem escrito.

pub