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Fernando Sobral - Jornalista fsobral@negocios.pt
16 de Novembro de 2016 às 18:46

A solidão de Passos Coelho

Quando chegaram à Terra as primeiras imagens do planeta Marte, onde só se viam desertos e pedras, perguntaram ao escritor de ficção científica Ray Bradbury o que poderia dizer sobre o assunto. Afinal ali não havia vida nem poderia vir a existir.

Bradbury respondeu eloquentemente: "Claro que há vida em Marte! Nós somos os marcianos." Este é talvez o grande dilema de Passos Coelho: acredita que ainda há vida para a sua forma de oposição. O problema é que a sua fórmula de oposição está tão seca como o deserto do Sahara ou a planície de Marte. Passos Coelho, depois de ter sido removido do Governo, passou um ano a acreditar que ainda era primeiro-ministro e que o apocalipse ia chegar. Mas o seu discurso foi sempre o de um Nostradamus de segunda. Agora começa a tropeçar no seu imobilismo retórico.

Os dados de crescimento económico apresentados pelo INE podem não ser sustentáveis a prazo, mas são uma machadada nas convicções de Passos Coelho. Depois, mesmo não tendo passado na UE (por pressão dos falcões do sítio), a ideia de Pierre Moscovici de colocar Portugal no grupo dos países cujo OE está próximo da normalidade com as regras europeias, na Europa começa a haver a convicção de que o tempo da austeridade pura e dura está a terminar. E não vai haver suspensão dos fundos estruturais, uma boa notícia para António Costa. O que Barack Obama disse em Atenas e as consequências da política de Donald Trump vão acelerar essa mutação, para garantir crescimento. Ou seja, o balão de ar de Passos Coelho começa a esgotar-se. Depois há a frente interna. Ao contrário de Assunção Cristas, que está a apostar em Lisboa para relançar o seu partido (a escolha do mais dinâmico vereador da CML, João Gonçalves Pereira, para coordenador de campanha simboliza isso), o PSD está refém do seu mutismo. Maria Luís Albuquerque será uma má escolha. Resta assim quem? No PSD, as sombras agitam-se. E Passos Coelho vai ficando cada vez mais só, apenas com os fiéis da sua retórica pastoral. Até quando?

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