Francisco Veloso
Francisco Veloso 09 de Outubro de 2016 às 18:05

A página de austeridade e a cartilha do empobrecimento

Esta semana é apresentado pelo Governo o Orçamento do Estado para 2017. Existirão os esperados aumentos de rendimento para alguns grupos, bem como impostos surpresa para todos, e um quadro negro de crescimento para o país.

A grande promessa deste Governo, bem espelhada no documento "Uma Década para Portugal", foi o virar a página da austeridade para que o país pudesse voltar a crescer. Essa estratégia tinha uma quantificação, apresentada no quadro abaixo. A uma estimativa base de crescimento anual do PIB de 1,7% com a política (de austeridade) do anterior Governo contrapunha-se uma perspetiva de mais 1 a 1,5 pp de crescimento se o país confiasse os seus destinos ao Partido Socialista.

 

De facto, a principal forma de eliminar o empobrecimento de um país é através do crescimento. Se crescermos de forma robusta, não só podemos aumentar salários e pensões, como diminuir o desemprego e ainda pagar a nossa dívida. É fundamental para Portugal ter o crescimento como principal desígnio nacional, independentemente do Governo. Por isso, estava correta a ênfase que o PS deu a esta ideia, tendo mesmo preconizado um estímulo ao consumo como uma forma de antecipar e acelerar a dinâmica de crescimento existente até então. Apesar das dúvidas que a estratégia apresentada levantava, os resultados eleitorais permitiram que, com grande habilidade política, o PS ficasse à frente dos destinos do país.

 

Mas a atual dinâmica económica, não só está longe dos cenários mais risonhos apresentados em período pré-eleitoral, como representa a perspetiva de crescimento mais negra desde 2014. Como se pode ver no quadro, o Governo já admitiu um quadro de crescimento para 2016 e 2017 que é inferior ao seu próprio cenário base para o Governo de austeridade que queriam repelir, e às piores estimativas de qualquer dos documentos de planeamento económico apresentados desde 2014. E as estimativas dos analistas económicos apresentam um quadro ainda mais sombrio, com crescimentos inferiores a 1,5% e à média europeia até pelo menos 2021.

 

Estes resultados são inaceitáveis e deveriam fazer o Governo refletir sobre a sua estratégia e políticas. Mas não é isso que temos observado e não parece que o orçamento que se avizinha denote uma alteração de direção. Sem crescimento e presos pelas promessas aos partidos de esquerda, o Governo substitui a austeridade de direita pela da esquerda, em que a principal novidade é a substituição de impostos diretos por indiretos, e também a invenção de novos impostos.

 

Na medida em que se afigura como possível acomodar as promessas eleitorais à esquerda, com as regras orçamentais de Bruxelas, parece cada vez mais provável que a geringonça continue à frente dos destinos do país. Será uma grande vitória política de António Costa, mas com enormes custos para o país. Sem fazer reformas que são críticas para a competitividade do país, mas inaceitáveis para os parceiros à sua esquerda, iremos continuar com este crescimento medíocre e continuar a empobrecer face aos nossos congéneres europeus. O feito político tem na sua contraparte uma grande perda económica e social.



 

Este artigo está em conformidade com o novo Acordo Ortográfico

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comentários mais recentes
Anónimo Há 4 semanas

Excelente artigo, muito incisivo e absolutamente pertinente no contexto de um país em negação da sua triste realidade económica. Pena um artigo como este estar relegado para as "catacumbas" da "webpage" do Jornal de Negócios!

5640533 Há 4 semanas

E a realidade.

Outro Há 4 semanas

Outro profeta da desgraça que acha que vem aí o Diabo. lol Só palhaços, força Costa