Bruno Faria Lopes
Bruno Faria Lopes 25 de janeiro de 2018 às 20:33

De PIGS a nórdicos do Sul em 5,3 segundos

A irritante onda mediática que se formou subitamente sobre Portugal tem o valor das aparências – e deve ser surfada com estilo enquanto durar.

Há pouco mais de quatro anos, a BBC abriu um artigo sobre o Porto com seis mulheres que lavavam a roupa em tanques públicos. Para o jornalista, aquele "equivalente medieval de uma lavandaria" era "a única coisa" que "as pessoas sem dinheiro para electricidade ou para reparar uma máquina de lavar roupa podiam usar". Estávamos na altura em que Portugal era o P do humilhante acrónimo PIGS e em que toda e qualquer leitura nos media pegava em histórias simbólicas, mesmo que desligadas da austeridade, para ilustrar o peso da crise.

 

É altamente provável que aquelas mulheres continuem hoje a lavar a roupa nos mesmos tanques. Mas agora não são vítimas do "peso da austeridade" - foram elevadas ao estatuto de "nórdicos da Europa", para citar o jornal La Voz de Galicia, que adoptou o "soundbite" do Presidente Marcelo. Se em 2012 o The Wall Street Journal citava os números terríveis da falta de qualificações dos portugueses, esta semana a Forbes elogiou a população "jovem e qualificada" que faz de Portugal um destino óbvio de investimento. Até o desemprego jovem, antes repisado em inúmeras reportagens, é visto agora pela Forbes como sinal da existência de "um reservatório de talentos", impacientemente à espera de uma oportunidade" (!).

 

Portugal não era redutível a um "pig" sobreendividado, mal qualificado e preguiçoso em 2012, como não se tornou de repente na Suécia do Sul da Europa. Eu, por exemplo, sinto-me pouco nórdico e não é só pela cor escura do escasso cabelo que me resta. Suponho que para muitas pessoas que vivem em Portugal seja difícil ler e ouvir estas coisas sem uma dose de cinismo, de humor ou de pura irritação. No Portugal dual, uma grande parte da população ainda vive no lado com menos luz - o dos salários baixos e estagnados na retoma, da cultura de trabalho inimiga do mérito e da conciliação com a família, da emigração forçada pela necessidade. Estes títulos que ouvem aqui e ali são desligados da sua realidade. 

 

E, no entanto, esta transformação da imagem externa do país é mais do que mera espuma ou mel para a propaganda política. Tem o valor das aparências. Ajuda ao financiamento mais barato da República, à atracção de pessoas qualificadas e de investimento a partir do exterior, à revolução estrutural no turismo, às exportações e à (re)construção de uma marca para o país. Não é pouco. Vale empregos e potencialmente salários mais altos a prazo, apenas para citar o lado económico da coisa.

 

Para quem há décadas tinha um problema claro de imagem - ou, como testemunhei em Pequim quando lá trabalhei em 2003, para quem não tinha sequer imagem numa potência como a China -, a onda é para surfar com estilo enquanto durar. Como estamos a assistir agora, o efeito de halo na forma como olham para nós é muito forte. Portugal é uma pequena economia aberta, vulnerável ao vento que sopra de fora, com grandes fragilidades estruturais que se mantêm e que serão notícia numa nova crise. Nessa altura, as lavadeiras do Porto vão voltar a aparecer na imprensa internacional. Até lá é aproveitar o que se puder - de preferência sem perder de vista cá dentro que realidade e aparência não são a mesma coisa.   

 

Jornalista da revista Sábado

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mais votado Anónimo Há 3 semanas

Se numa qualquer economia deixarem despedir colaboradores excedentários ou, por outras palavras, deixarem desalocar factor trabalho mal alocado por não ter procura real justificável face às reais condições de mercado ditadas pela racionalidade económica que interpreta e se adapta ás forças de oferta e procura de mercado e que conduz à criação de valor, e desde que o Estado de Bem-Estar Social garanta um mínimo de condições básicas de sobrevivência em dignidade, como já se faz até certo ponto em Portugal apesar de vários constrangimentos financeiros que se prendem precisamente com a sobrealocação de factor trabalho desnecessário que é em si mesmo um parasitário concorrente de peso perante o Estado de Bem-Estar Social fragilizado, os restantes mercados de factores produtivos e bens e serviços encarregar-se-ão de tornar toda a economia mais rica e mais desenvolvida com inegáveis ganhos e benefícios para toda a sociedade residente naquela economia. Este é o tão propalado "Modelo Nórdico".

comentários mais recentes
Anónimo Há 2 semanas

a grande maioria dos governos depois do 25 de Avril sao oriundos das ex-colonias o resultado depois destes anos todos està a vista "somos um pais geogràficamente europeu mas de mentalidade africana"

Anónimo Há 3 semanas

Os salários ou o custo do trabalho em Portugal são mais reduzidos do que noutras economias mais ricas e desenvolvidas do que a portuguesa, mas o que se passa é que aí as empresas gozam de economias de escala que as empresas portuguesas só atingiriam se se internacionalizassem. E o que é facto é que muito raramente isso acontece porque sindicatos e esquerda não deixam que se reúnam as condições para que tal aconteça. Por outro lado, e não menos importante, há que salientar que o sector empresarial dessas economias mais ricas e desenvolvidas tem uma muito maior alocação de capital com grande incorporação de tecnologia de ponta, económica e eficiente, que poupa enormemente em factor trabalho. Uma coisa é ter 200 assalariados a ganhar 1000 outra é ter 50 a ganhar 2000 para produzir o dobro do que se consegue produzir empregando os primeiros. Agora, sem fazer nada disto e sem obedecer a estas regras económicas, também se pode decretar salário de 2000 para os 200. Enquanto der.

Anónimo Há 3 semanas

Se numa qualquer economia deixarem despedir colaboradores excedentários ou, por outras palavras, deixarem desalocar factor trabalho mal alocado por não ter procura real justificável face às reais condições de mercado ditadas pela racionalidade económica que interpreta e se adapta ás forças de oferta e procura de mercado e que conduz à criação de valor, e desde que o Estado de Bem-Estar Social garanta um mínimo de condições básicas de sobrevivência em dignidade, como já se faz até certo ponto em Portugal apesar de vários constrangimentos financeiros que se prendem precisamente com a sobrealocação de factor trabalho desnecessário que é em si mesmo um parasitário concorrente de peso perante o Estado de Bem-Estar Social fragilizado, os restantes mercados de factores produtivos e bens e serviços encarregar-se-ão de tornar toda a economia mais rica e mais desenvolvida com inegáveis ganhos e benefícios para toda a sociedade residente naquela economia. Este é o tão propalado "Modelo Nórdico".

Anónimo Há 3 semanas

A ruína e atraso de Portugal, face aos seus congéneres europeus mais desenvolvidos e ricos, tem como base o facto de se ter criado em Portugal um sistema que, gradualmente, gerou duas seguranças sociais públicas. Uma oficial e outra oficiosa. A oficiosa é parte integrante não de um Estado de Bem-Estar Social legítimo mas antes de um Estado de Bem-Estar Salarial iníquo e insustentável para sindicalizados, em especial do sector público, que auferem uma onerosa e injustificável prestação social sob a forma de remuneração em clara situação de sobreemprego vitalício ou sobrepagamento em crescendo, mesmo quando o preço de mercado para as tarefas que realizam não pára de descer nos mercados mundiais ou a procura, em variadíssimos casos, pura e simplesmente desapareceu se é que alguma vez existiu. Os 4000 despedimentos na banca lusa em 2017, tirados a ferros de forma tardia, cara e incompleta, foram apenas a ponta de um vergonhoso icebergue que as esquerdas teimam em querer esconder.

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