Viriato Soromenho-Marques
Viriato Soromenho-Marques 23 de novembro de 2017 às 08:00

Ecopolítica

Coloquemos as coisas ao contrário. Como será observado 2017 a partir dos olhos de um futuro de médio e longo prazo? Talvez como um breve período de transição entre duas crises.
Na verdade, do ponto de vista de uma análise realista, que seja capaz de projectar cenários a partir do que conhecemos razoavelmente, Portugal tem uma pequeníssima margem de manobra na modelagem dos factores de que depende o seu futuro. Política e economicamente, estamos umbilicalmente ligados a uma União Europeia em fragmentação e à deriva, sem sinais de alterar o desnorte. A esperança de tímidas reformas na disfuncional união monetária do euro, reavivadas pelo jovem presidente francês, E. Macron, embateram nas falésias graníticas das eleições alemãs. Basta seguir o provinciano debate germânico, culminando na gorada coligação "Jamaica", para perceber que, da Alemanha, nada há a esperar. O renovado eixo franco-alemão é um mito, que será pago por Macron nas próximas eleições presidenciais.

Ambientalmente, Portugal obteve no Verão de 2017 a confirmação do que estudos de 2002 e 2006 (Filipe Duarte Santos et alia, SIAM) já projectavam: estamos na linha da frente das alterações climáticas. Seremos cada vez mais uma nova região subtropical. Com menos pluviosidade, mais fenómenos extremos, mais erosão costeira, mais desertificação e perda de solos.

Para que Portugal possa sobreviver num futuro de desordem europeia e de retracção da globalização, teremos de apostar na ecopolítica, de que o conceito de desenvolvimento sustentável é uma face diplomaticamente ambígua. As políticas públicas que controlamos devem ser calibradas no aumento da resiliência nacional em recursos básicos para a sobrevivência colectiva: segurança alimentar, autonomia energética a partir de fontes renováveis, protecção dos serviços dos ecossistemas, segurança hídrica. Com quase 6% do território nacional ardido em 2017, Portugal habita numa existência sonambular, desbaratando o solo e os recursos naturais que serão sempre a última fronteira entre a vida e a aniquilação. É preciso acordar se quisermos ter futuro.



No âmbito do 20º aniversário do Negócios, pedimos um artigo a várias personalidades sobre ideias para o futuro de Portugal. 
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