Bruno Faria Lopes
Bruno Faria Lopes 08 de janeiro de 2017 às 20:40

Nacionalizar o Novo Banco é uma má ideia

A nacionalização do Novo Banco ganhou força instantânea quando o país acordou para o que já se sabia há algum tempo: não há boas opções para vender o Novo Banco.

Dois anos e meio depois da resolução o melhor que há para mostrar é a proposta de um "fundo abutre" que pede uma garantia do Estado contra a desvalorização excessiva de activos do banco. Surge então a pergunta: se é para isto, porque não nacionalizar? 


Há várias razões que desaconselham esse rumo. Primeira: a nacionalização temporária, a ser possível (um "se" crucial que o Governo deve andar a testar nos bastidores europeus), significaria adiar o problema. O Novo Banco nunca seria uma segunda Caixa Geral de Depósitos: continuaria, na prática, a ser um banco de transição. Seguiria sem definição, a perder valor como aconteceu até aqui sempre que se comprou tempo. (Portugal não é o Reino Unido, a banca portuguesa em 2016 não é a britânica em 2008 - e o Lloyds Bank, caso bem sucedido de nacionalização temporária, não é o Novo Banco.) O tempo serviria para esperar pelo "banco mau" que limparia a banca em Portugal, incluindo o Novo Banco? Talvez, mas essa via enfrenta muitos obstáculos e é de concretização altamente incerta.

Certo é que nacionalizar significa trazer para o Estado um sorvedouro de dinheiro. O Novo Banco foi baptizado de "BES bom", mas já queimou mais de sete mil milhões de euros desde a resolução. A administração diz que o banco precisa de mais 750 milhões este ano, mas quem segue o caso diz que as necessidades de capital serão superiores num futuro próximo. Mais: em caso de recessão ou de turbulência no financiamento do país, um risco não negligenciável, a factura do Novo Banco seria maior para o accionista Estado. A nacionalização não oferece travão aos custos ao longo do tempo, como aprendemos com o BPN. A garantia pedida pelo Lone Star é má - mas pelo menos define um tecto para as perdas públicas (entre dois a 2,5 mil milhões, valor por confirmar oficialmente).

A nacionalização tem, ainda, um impacto externo negativo maior do que a venda: reforça o ruído nos mercados sobre a má saúde do sistema bancário português e o respectivo impacto nas finanças públicas, numa altura em que a pressão sobre os juros da República é evidente.

Sem pesar estas razões argumenta-se que o Lone Star vai "desmantelar o Novo Banco", que tem 16% do mercado e financia muitas PME. Mas o Lone Star, ou outro comprador, tem pouco interesse em liquidar o banco - a ideia é comprar barato, limpar e vender com lucro. Esse tipo de acção é o que acabaria por ser feito, com mais demora e muito menos vocação, pelo accionista Estado. De resto, se o Novo Banco passar a servir menos bem as PME, sobra pelo menos um concorrente público recapitalizado, segundo nos dizem, com a ambição de financiar essas empresas: a Caixa Geral de Depósitos.

Há uma regra na política portuguesa: um "consenso" entre empresários, a esquerda-dura e senadores do bloco central significa que quem paga a conta são os contribuintes. O "consenso" em favor da nacionalização do Novo Banco parece ter tudo para confirmar a regra. A acontecer, servirá principalmente para evitar custos políticos hoje, abrindo uma frente de risco imprevisível para o erário público no futuro. 

 

P.S. Mário Soares foi o maior político do seu tempo. É o pai fundador da democracia portuguesa - dentro desta paternidade, que admiro e agradeço, cabem a sua coragem e visão. Com a economia teve uma relação particular, que será o próximo tema desta coluna.

*Jornalista da revista Sábado

A sua opinião5
Este é o seu espaço para poder comentar o nosso artigo. A sua opinião conta e nós contamos com ela.
Faltam 300 caracteres
Negócios oferece este espaço de comentário, reflexão e debate e apela aos leitores que respeitem o seu estatuto editorial, promovam a discussão construtiva e combatam o insulto. O Negócios reserva-se ao direito de editar, apagar ou mesmo modificar os comentários dos seus leitores se atentarem contra o bom senso e seriedade.O acesso a todas as funcionalidades dos comentários está limitada a leitores registados e a Assinantes.
comentar
mais votado JCG Há 2 semanas

Perante as alternativas, acho que o NB deve ser nacionalizado, desde que fique claro que o banco tem de ser bem gerido, tem de ser rentável e tem de ser capaz de remunerar adequadamente os capitais nele injetados.
Se for para manter empregos artificiais muito bem remunerados, então estamos mal.
O banco deve ser declarado em processo de reestruturação, deve dispensar os trabalhadores de que não precisar (o bancos os bancos e as empresas não foram inventados para criar e manter empregos quando desnecessários à sua atividade, mas para exercer um negócio de forma rentável e sustentável produzindo um bem ou serviço útil e necessário para a comunidade) pagando-lhes o que o Código do trabalho prevê e deve rever as remunerações em linha com o padrão do que se passa no sector, tirando a CGD, que em 2015 foi muito inferior quer aos custos na Caixa quer no NB (embora neste caso, se trate de um ano irregular). Se for assim, deve ser nacionalizado.

comentários mais recentes
Anónimo Há 2 semanas

Negócio bancário"estabelecido", não vale mais de750 milhões?
VALE !A IDÉIA É : PORTUGAL NÃO É REINO UNIDO E "NOVO BES" NÃO É O LOYDS...
COM O DEVIDO RESPEITO, DEVIA SER PEDIDO UM VALOR POR PARTE DO VENDEDOR,ABAIXO NÃO HAVIA NEGÓCIO. HÁ SOCIAL DEMOCRATAS COMO EU QUE ASSIM PENSAM

JCG Há 2 semanas

Perante as alternativas, acho que o NB deve ser nacionalizado, desde que fique claro que o banco tem de ser bem gerido, tem de ser rentável e tem de ser capaz de remunerar adequadamente os capitais nele injetados.
Se for para manter empregos artificiais muito bem remunerados, então estamos mal.
O banco deve ser declarado em processo de reestruturação, deve dispensar os trabalhadores de que não precisar (o bancos os bancos e as empresas não foram inventados para criar e manter empregos quando desnecessários à sua atividade, mas para exercer um negócio de forma rentável e sustentável produzindo um bem ou serviço útil e necessário para a comunidade) pagando-lhes o que o Código do trabalho prevê e deve rever as remunerações em linha com o padrão do que se passa no sector, tirando a CGD, que em 2015 foi muito inferior quer aos custos na Caixa quer no NB (embora neste caso, se trate de um ano irregular). Se for assim, deve ser nacionalizado.

surpreso Há 2 semanas

Eles julgam que é o Fundo de Resolução ,os outros bancos,quem vai pagar a conta.Nacionalizar significa "bail-in" e reestruturação ,como pediram a Itália para o MPS

Anónimo Há 2 semanas

Este senhor opinadeiros, acabou de formar sociedade com o caga.tacos, bruxo de Fafe , também opinadeiros profissional M.mentes!

ver mais comentários