Ana Ventura Miranda
Ana Ventura Miranda 23 de novembro de 2017 às 13:30

Portugal… no limiar da felicidade

Se Borges escrevesse esta frase hoje, aposto que acrescentaria a hipótese de ser português, para poder fazer parte do momento que se vive em Portugal.
"Se tivesse de nascer outra vez, escolheria algo totalmente diferente. Gostaria de ser norueguês. Talvez persa. Uruguaio não, porque seria como mudar de bairro".
Jorge Luis Borges

Agora, que já temos consciência do real valor de cada um de nós, do país e das nossas capacidades, talvez o próximo passo para Portugal seja lançar-se na reinvenção da economia da felicidade. Se há um momento em que podemos agarrar esse sentimento, que é a razão da vida, esse momento é agora.

Portugal pode e deve ser um precursor nesta matéria. Temos um país, em termos geográficos e climatéricos, com as condições perfeitas para sermos dos povos mais felizes da Europa, se não do mundo, e temos de superar os desafios que nos colocam no meio de tabelas como as do "Happy Planet Index Score".

O desenvolvimento do país tem, claro, de centrar-se no crescimento económico, sabendo que esse objectivo não pode custar a nossa saúde - mental e física enquanto indivíduos - e a sustentabilidade ambiental. Sem estas três premissas, nada do resto existe. Mas a lista continua, na persecução da felicidade, temos de proteger o sentimento de pertença a uma comunidade, que nos faz menos sós e que nos dá a sensação de confiança e de protecção, que é um garante à nossa identidade como grupo, como nação.

E talvez essa famosa felicidade implique alguns passos atrás, como voltarmos às raízes. Se calhar, há que voltar a promover as economias locais, tal como acontecia antes de sermos esta aldeia global. Se calhar, há que voltar a habitar partes deste nosso país que estão a desaparecer e que, em tudo, nos dariam melhor qualidade de vida, com mais tempo. Para isso mesmo servem as novas tecnologias, a vantagem de trabalharmos a partir de qualquer lugar, seja na cidade ou no campo. Numa altura em que, por causa do flagelo dos incêndios, tanto se voltou a falar da desertificação de Portugal, se calhar está na hora de repensar os benefícios das novas tecnologias e pô-los em prática para o bem-estar dos cidadãos.

Quanto mais voltarmos a nós próprios e àquilo que é a essência do espírito humano e do seu habitat natural, mais perto estamos de acabar com esta crise mundial do espírito humano. Sem saber aquilo que somos e de onde viemos, limitamo-nos a ser apenas um corpo em movimento, que produz resultados e concretiza objectivos. A vida é sentirmos o vento na pele, é abrirmos os olhos e o azul do mar e do céu deitar-se a descansar na nossa retina, são os braços dos nossos amigos nas horas que precisamos e a mão dos que mais amamos ao nosso lado… E nada disso se compra com moedas... - talvez com as de chocolate, porque o chocolate esconde em si uma metafísica que também vai para além da economia.

Se o mundo vem a Portugal para ser feliz e consegue, nós, os portugueses, também temos de ser capazes de o ser.


No âmbito do 20º aniversário do Negócios, pedimos um artigo a várias personalidades sobre ideias para o futuro de Portugal.  


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comentários mais recentes
surpreso Há 3 semanas

Em linguagem popular ,chama-se "Comer fiado".Não dura sempre,como se sabe

Anónimo Há 3 semanas

Estou de acordo, é possível ser-se feliz em Portugal, os exemplos são perfeitos.
Ma há um senão, enquanto os políticos forem aliados dos mafiosos e especuladores, não há sossego para ninguém.
Os que nos visitam não têm estes problemas, gostam de nós enquanto país e povo mas de seguida vão embora..

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