Manuel Esteves
Manuel Esteves 10 de dezembro de 2017 às 23:00

Não se é produtivo ao volante de um tuk-tuk

O turismo transformou-se no principal sector dinamizador da economia. (...) Por mais que acelere e se esforce, um condutor de um tuk-tuk nunca será muito produtivo.
É difícil olhar para os principais indicadores económicos de Portugal e não ficar contente. A economia cresce ao ritmo mais alto deste século, o emprego recupera a passos largos, as exportações estão sólidas e o investimento regressa a uma trajectória de crescimento. Mas há duas coisas que não crescem: produtividade e salários.

Tradicionalmente, a direita e os patrões gostam mais de falar de produtividade, enquanto a esquerda e os sindicatos preferem pôr a tónica nos salários. Mas no fundo estão todos a discutir a mesma coisa. Aos primeiros é preciso lembrar que a produtividade não depende essencialmente dos trabalhadores; e aos segundos tem de se dizer que os salários não dependem sobretudo das empresas. Produtividade e salários andam de mãos dadas e caminham num trilho de margens estreitas, definidas pela estrutura económica existente e pelos recursos produtivos aplicados.

Recentemente, o Banco de Portugal voltou a alertar para a estagnação da produtividade no nosso país. As razões que motivam essa estagnação não são consensuais: o banco central descreve uma redução da produtividade dentro cada sector, que reflecte um aumento mais acelerado do emprego face ao valor acrescentado bruto, identificando uma transferência de emprego para os sectores mais produtivos. Mas o Centro de Estudos Sociais, por exemplo, considera que esta redução da produtividade reflecte essencialmente uma alteração da estrutura económica, onde novos sectores menos produtivos ganham maior peso - é o caso do turismo.

O turismo transformou-se no principal sector dinamizador da economia. Segundo os dados da Conta Satélite do Turismo do INE, o turismo cresce quatro vezes mais depressa do que a economia, já representa 7% do PIB e mais de 9% do emprego.

Boas notícias para a economia? No curto prazo, sim. No longo prazo, a discussão complica-se. A forma como o turismo tem crescido gera preocupações sobre uma excessiva dependência da economia. Além de ser um sector que vive quase exclusivamente da procura externa, tem características que assumem contornos preocupantes quando atinge esta importância: é um sector que cria um emprego tipicamente sazonal, que assenta em mão-de-obra desqualificada e que tende a praticar salários baixos com contratos precários.

Além disso, é um sector que tem pouco potencial de criação de valor, é pouco atreito à incorporação de inovação e tecnologia e, portanto, pouco produtivo. Não se pode esperar que um licenciado a conduzir um tuk-tuk ou a servir às mesas seja tão produtivo, e tão bem pago, como um colega seu empregado numa fábrica automóvel ou numa instituição financeira.

Quando estes sectores com baixa produtividade se tornam preponderantes, ficam mal servidos os trabalhadores, que levam para casa um salário reduzido, mas também o país que, pelo mesmo esforço, produz menos riqueza que os restantes. É que, por mais que acelere e se esforce, um condutor de um tuk-tuk nunca será muito produtivo.
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