Weekend O novo muro cultural que divide a América

O novo muro cultural que divide a América

As presidenciais americanas estão a trazer uma nova era. No fundo, há uma mutação cultural que tem que ver com a globalização e com a destruição da classe média e da possibilidade de mobilidade social.
O novo muro cultural que divide a América
Brendan McDermid/Reuters
Fernando Sobral 04 de Novembro de 2016 às 13:30
Em "Casino", de Martin Scorsese, o "gangster" Ace Rothstein (Robert De Niro) diz, com convicção, que em Las Vegas se vendem sonhos às pessoas em troca de dinheiro. No fundo, o sonho do dinheiro tem que ver com fé. E com o "sonho americano", em que cada um pode conquistar a última fronteira e ter sucesso. Sem mobilidade social, não há sonho americano. Las Vegas, claro, pode ser a solução rápida para a mobilidade social. Mas esse eterno tema - tratado por F. Scott Fitzgerald em "O Grande Gatsby" ou por Tom Wolfe em "A Fogueira das Vaidades" (já nem se fala no lado radical do tema, visível em "Psicopata Americano", de Bret Easton Ellis, ou no seu lado negro dos livros de Don DeLillo) - esteve sempre no centro da política americana.

A liberdade esteve sempre no centro da cultura americana. Tal como o seu sonho fulcral, a mobilidade social. E é ela que hoje volta a ser a melhor bússola para compreender o fenómeno Donald Trump. Com isso, todo o mundo tem também de olhar para o espelho. Porque a cultura americana tornou-se hegemónica no mundo, especialmente após a década de 1960.

O individualismo e o hedonismo americanos (com a sua cultura do consumo, em que o cinema e a música foram pontas-de-lança) cercaram e ofuscaram o relativismo europeu. O espírito pragmático americano - onde tudo é possível alcançar como numa longa auto-estrada conquistada pelo carro (outro símbolo da liberdade) - impôs-se às lógicas europeias, ao equilíbrio oriental e à própria centralidade de Deus como balança da moral. Nos EUA, tornou-se realidade o "super-homem" idealizado por Friedrich Nietzsche, depois de ter "morto" Deus.

O mundo não é plano

A globalização e o "fim da história" (em que se julgou que, depois da queda do império soviético, a democracia liberal ao modo americano se tornaria o sol que iluminaria toda a humanidade) pareciam ter criado um novo paradigma. "O mundo é plano", disse, com ar de futurólogo, Thomas Friedman. A sua ideia era que a idade da globalização, onde o capital cruza as fronteiras de forma tão fácil e saltita de país para país para responder a novas oportunidades de negócio, possibilitaria o desenvolvimento em todas as partes do mundo. Não foi assim.

Se a globalização criou classes médias mais fortes na Ásia ou em África, não deixou de continuar a deixar na pobreza populações em todas as partes do mundo, sufocadas pelos preços baixos do trabalho. O valor do trabalho foi, de resto, uma das grandes vítimas da globalização. E isso foi um tiro no coração da "middle class" norte-americana, destruindo a capacidade de mobilidade social.

Mesmo com todos os seus defeitos, Trump (tal como Bernie Sanders no lado democrata) percebeu essa fragilidade do sonho americano nos dias que correm. O conceito de Adam Smith (onde é preciso balançar "Wealth of Nations" com "Theory of Moral Sentiments") é que o interesse individual é o guia e isso contribui para o interesse público, havendo assim uma auto-regulação da sociedade. Mas alertava ele que o interesse pessoal envolvia mais do que fazer dinheiro: era preciso moralidade. Ou seja, eram necessários valores culturais, que delimitassem o ganho pessoal. Ligamos esta questão ao pensamento de Max Weber, que referia que a ética protestante de trabalho era superior à dos católicos, uma vez que se baseava na crença de que a busca da fortuna era um dever. E não se deveria viver com culpa disso. Os americanos nasceram e conquistaram o mundo com base nessa esperança. Mas, agora, internamente, chocaram com a parede.

Do herói social ao herói individual

O que sempre foi mais importante para os americanos foi ganhar dinheiro. O dinheiro, acreditam, é que pode comprar a boa vida. Não deixa de ser curioso que, se olharmos para a história dos EUA, verificamos que tem havido mutações nesta lógica. Na década de 1960, palco de luta contra a guerra do Vietname e pela defesa dos direitos cívicos, o herói social era a pessoa que ajudava os outros. Nos anos 80, tudo mudou: o herói era a pessoa que se ajudava a si própria. O sucesso de cada um era medido pelo dinheiro que ganhava.

Pelo meio, ficaram os anos de mutação, a década de 1970, em que os EUA sofreram uma profunda recessão económica com alta inflação. As lutas sociais cansaram e os americanos estavam fartos de perder dinheiro. O interesse pessoal voltou a sobrepor-se a tudo. O fenómeno Ronald Reagan foi o reflexo desta nova atitude. A música reflecte bem estas mutações: na década de 60, a folk era central na cultura; nos anos 70, o punk instalou-se com o seu "no future"; a música de dança instalou-se nos anos 80 ao lado da tecnologia. Os livros de auto-ajuda tornaram-se o "must" dos anos 70 para os americanos. Ronald Reagan era um "deles": durante a primeira parte da sua presidência, a recessão acabou. Reduziu impostos. Todos voltaram a sonhar em ganhar dinheiro e em subir na vida. Os "yuppies" tinham chegado para vencer. "Dallas", com o tenebroso J. R. Ewing, era o símbolo da nova era. No cinema, o exemplo perfeito era "Wall Street", um filme sobre um jovem poderoso e desonesto que trabalhava na bolsa. Mas também "Rambo", o herói impossível. Nenhum deles seguia as regras estabelecidas.

As presidenciais americanas estão a trazer uma nova era. Mesmo que alguns ainda não a compreendam completamente, fracturados entre Hillary e Donald. O Partido Republicano parece irremediavelmente dividido entre as facções do "establishment" e do populismo e nada garante que aos democratas não aconteça o mesmo. No fundo, há uma mutação cultural que tem que ver com a globalização e com a destruição da classe média e da possibilidade de mobilidade social. Ou seja, entre a ortodoxia (até económica) dos republicanos e dos democratas e a "working class". E esta viu em Trump alguém que lhes falava ao coração: empregos, futuro, capacidade de voltar a vencer na vida. Trump derrubou o conceito sintetizado por Paul Ryan: cortes na Segurança Social e substituição do Medicare por "vouchers". Mesmo a "working class" que se aproximou de Trump quer a Segurança Social como está. E Trump promete isso. E, com isso, o "comércio livre" está a ser combatido, a curto ou a médio prazo. Não só na livre circulação de mercadorias, mas também de pessoas. Entre o nacionalismo renovado e os globalizadores enfraquecidos, um novo sonho americano parece estar a nascer.





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