Mercados John Mauldin: "Temos as duas maiores bolhas da História"

John Mauldin: "Temos as duas maiores bolhas da História"

É autor de uma das "newsletters" mais populares sobre investimento e antevê a chegada de uma nova crise. Defende que a dívida e as promessas dos governos são as duas maiores bolhas da História da humanidade.
John Mauldin: "Temos as duas maiores bolhas da História"
Bruno Simão
Rui Barroso 09 de outubro de 2017 às 07:00

John Mauldin defende que se aproxima uma nova crise. O especialista em mercados financeiros esteve em Lisboa para ser um dos oradores do Global Management Gathering, um encontro de quadros organizado pela Sociedade Francisco Manuel dos Santos. Em entrevista ao Negócios, refere que se está na presença das duas maiores bolhas da História. E que a próxima crise até pode ter o efeito positivo de levar os governos a agir.

Recentemente escreveu que iria chegar uma nova crise financeira. O que poderá causar essa nova crise?

 Não faz qualquer tipo de diferença qual a causa. Na próxima vez, algo irá causar a crise. Nos EUA tivemos uma nova lei, a Dodd-Frank, para regular o sistema bancário. E uma das regras parece muito boa à superfície. Mas terá muitas consequências. Os reguladores e os congressistas não querem que os bancos voltem a ter demasiada alavancagem. E disseram que os bancos só podem ter uma determinada exposição ao mercado de obrigações. Historicamente toda a liquidez nos mercados de obrigações tem sido fornecida pelos grandes bancos de investimento que são os fazedores de mercado. Agora as exposições são cerca de 10% do que eram, o que é perfeitamente adequado quando não existe uma crise. Mas assim que houver o princípio de uma crise financeira, a liquidez no mercado de obrigações "high yield" seca. E assim que secar, os mercados de acções vão começar a dizer "oh meu Deus, que está algo a acontecer". E começa a ansiedade.

E os bancos centrais terão de intervir novamente?

Os bancos centrais vão intervir para fornecer liquidez. Mas a liquidez não é o problema. O problema  é quem irá comprar numa crise. Será uma oportunidade para os que compram dívida em dificuldades. Mas a volatilidade vai disparar. Há sempre um gatilho, mas só o podemos ver em retrospectiva. Posso antever que a crise seja no mercado de obrigações e que se espalhe ao resto. Esse será o resultado. Mas não sei qual será o gatilho.  E, desta vez, se tivermos uma crise o congresso republicano não vai salvar os bancos, nem as instituições financeiras. 

E na Europa, como seria?

Se houver uma crise e os bancos alemães estiverem contra a parede, talvez se procure uma solução.

Diferente do que aconteceu com a Grécia em 2010?

Não quiseram saber. Era a Grécia. Mas quando foi Itália no ano passado, os alemães perceberam que se não permitissem que salvasse os seus bancos,  Itália sairia do euro e seria o adeus ao euro. E  isso dá-me esperança no projecto do euro, apesar de ser provavelmente a moeda mais estúpida do mundo. Portugal ou Itália deviam ter a mesma taxa de juro que a Alemanha e a Holanda? Não. Mas têm. E o que têm de fazer é contra as regras. Mas uma coisa que  observei nas regras dos bancos centrais na Europa é que os advogados são muito bons a encontrar novas interpretações quando precisam. Acredito que quando chegarmos a uma crise, e haverá uma crise, acabar-se-á por nacionalizar todas as dívidas de todos os países, que serão colocadas no balanço do BCE.

"As más notícias: vamos ter uma crise. As boas: os políticos apenas fazem algo quando temos uma crise."

Mas a causa para a nova crise poderá ser a normalização da política da Fed, a retirada de estímulos do BCE ou problemas na dívida chinesa?

Temos as duas maiores bolhas na História da humanidade. A bolha da dívida governamental e a bolha das promessas dos governos. E tudo isto está a acontecer no meio de uma enorme mudança tecnológica e grandes pressões sociais. Na Europa, Japão, EUA, não há nascimentos suficientes. Vai-se conseguir ter uma vida muito mais longa e saudável. Viemos de 80% da população a trabalhar na agricultura para 2%. E produzimos agora 20 vezes mais. Isso levou dez gerações. Agora vamos destruir centenas de milhões de empregos em meia geração. Isso é bem mais uma crise para o grupo social do que qualquer crise financeira a que os bancos centrais atiram dinheiro e em que as bolsas descem e as pessoas ganham e perdem dinheiro.

E que soluções poderiam ser adoptadas?

Penso que teremos de ter emprego garantido e não garantir um rendimento básico. Temos de perceber como dar emprego para que se possa fazer algo pela sociedade e contribuir para o mundo. E isso não é uma tarefa fácil. Nunca falámos sobre isso em toda a História. E, ainda assim, nos próximos dez anos isso irá ser fundamental para o nosso futuro e para a nossa felicidade social. É uma pergunta bem mais importante sobre se um banco central irá reduzir estímulos.

E nota preocupação dos líderes mundiais em relação a esse problema?

Não. Mas as más notícias são de facto as boas notícias. As más notícias: vamos ter uma crise. As boas: os políticos apenas fazem algo quando temos uma crise. Portanto, a crise irá forçá-los a começar a tomar medidas. E como a próxima crise vai ser uma longa série de crises, terão muitas oportunidades para fazer mudanças, fazer experiências e de acertar.

perfil

Um conservador na linha da frente

Diz que na escala política é "muito conservador". Mas defende algumas ideias que considera não serem normais num conservador. John Mauldin é autor de livros sobre investimento. Teve quatro obras na lista dos "best-sellers" do "New York Times". É orador frequente em conferências e reflecte sobre a economia e o mundo financeiro há mais de 30 anos. Em 2006 alertou para o problema do "subprime". É o autor da "Thoughts from the Frontline", uma popular "newsletter" sobre temas financeiros. Preside à Mauldin Economics, entidade de análise económica e financeira, e à Mauldin Solutions, empresa de aconselhamento financeiro.




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