O setor cimenteiro em Portugal está empenhado em atingir a neutralidade carbónica até 2050. Para o conseguir, em 2021, foi desenhado um roadmap desta indústria. O roteiro está a ser seguido pela ATIC – Associação Portuguesa de Cimento, da qual a Secil Portugal faz parte. Só que, antes de se conseguir a missão de alcançar a neutralidade carbónica dentro de 24 anos, há que cumprir as metas intermédias já em 2030. “Estamos sensivelmente a meio desse prazo e já temos iniciativas em curso que nos levam a considerar que estamos a bom ritmo. Já efetuámos investimentos, temos outros em curso, estamos envolvidos em inúmeras iniciativas, alterámos produtos, processos, logística, encetámos novos negócios como a construção modular industrializada”, começa por explicar Otmar Hübscher, CEO da Secil e também vice-presidente da ATIC.
Em concreto, no caso da Secil, Otmar Hübscher informa que houve um investimento em larga escala – 86 milhões de euros – na descarbonização parcial da fábrica Secil Outão, em Setúbal, através do projeto CCL – Clean Cement Line, em funcionamento desde 2024, e que permite a esta fábrica ter “reduções significativas nas emissões de CO2, na ordem dos 20%, aumentar a eficiência energética do processo em 20% e gerar 30% das necessidades de consumo elétrico da fábrica por meio de um mecanismo de recuperação de calor perdido do forno”.
Está igualmente em curso na Secil um projeto similar de melhoria operacional e ambiental na fábrica Maceira-Liz, em Leiria, designado Profuture, com um valor estimado de 67 milhões de euros, que “diminuirá até 30% as emissões de CO2, reduzirá em 20% o consumo global de energia e permitirá eliminar os combustíveis fósseis através da utilização de hidrogénio verde”. O CEO acrescenta que, paralelamente, a Secil continua a investir noutros processos e produtos menos carbónicos, como o Low Carbon Cliquer, a produção de cimentos compostos e a produção de betões com menor incorporação de cimento, além da introdução de ferramentas digitais para otimizar fórmulas, produções e a componente logística, entre várias outras iniciativas. “Noutro plano distinto, investimos em conjunto com a construtora Casais, na Krear, uma empresa de construção modular industrializada, situada em Estarreja, marcando assim posição num segmento de mercado com muito potencial”, relembra.
No que diz respeito ao que falta fazer no roteiro, por impedimento tecnológico, encontram-se “o desenvolvimento de projetos de hidrogénio verde que ainda apresentam dificuldades, embora mais regulatórias e económicas do que tecnológicas; e a captura, transporte e armazenamento de carbono que ainda não tem plena maturidade para entrar em fase de execução técnica, faltando também definir o quadro legislativo e regulatório para a sua implementação”.
Uma conferência que fez a diferença
Os exemplos da Secil demonstram que em Portugal se está a trilhar o caminho para alcançar a neutralidade carbónica. “Mas não é um caminho que possamos fazer sozinhos, tem de ser partilhado com clientes, fornecedores, autoridades, academia…”, salienta. Fundamental neste objetivo foi a recente conferência PT Carbon Link, que se realizou em Lisboa, na qual foi apresentada publicamente pela primeira vez o tema da “Captura, Armazenamento e Uso de Carbono em Portugal” a um vasto auditório de stakeholders, “desde responsáveis governamentais à academia e empresas, pelo que foi um momento naturalmente muito importante”, destaca Otmar Hübscher.
O responsável recorda que Portugal não tem tradição industrial e energética profunda, pelo que temas de infraestruturas energéticas ou industriais não são habitualmente conhecidos ou objeto de reflexão pelos decisores e pela opinião publica. “Mas tratando-se este projeto de algo muito estruturante para o país, que vai satisfazer necessidades de descarbonização e sustentabilidade de inúmeras empresas e representar um elevado investimento, é natural que tenha granjeado interesse por parte dos decisores e das principais instituições interessadas, marcando por isso o início desta longa maratona técnica, regulatória e económica até à inauguração do projeto, dentro de alguns anos”, explica.
A prova da importância da conferência está no facto de a ministra do Ambiente e da Energia, Maria da Graça Carvalho, e o ministro das Infraestruturas e Habitação, Miguel Pinto Luz, terem participado nesta reflexão.
Após a informação prestada pela ATIC, pelos consultores da BCG – consultora responsável pelo estudo apresentado na conferência PT Carbon Link que traça o roteiro necessário para descarbonizar o setor cimenteiro português – e pelos restantes oradores que apresentaram casos muito concretos já em início de operação noutros locais da Europa, a indústria cimenteira nacional acredita que o poder executivo vai considerar já este tema na sua agenda, desenvolvendo “todo o trabalho preparatório no que respeita à arquitetura legal e regulatória necessária para dar segurança jurídica aos contratos de conceção e execução destas importantes obras de infraestrutura”.
Indústria nem sempre reconhecida
Questionado se o peso económico do setor é devidamente reconhecido nas políticas públicas nacionais, Otmar Hübscher responde que a indústria cimenteira “é responsável por abastecer de cimento o mercado da construção civil e obras públicas, um dos setores mais relevantes para o PIB e emprego nacionais, além da qualidade de vida da população”. “O cimento e o betão são indispensáveis ao nosso modo de vida e têm um peso económico muito relevante. Por outro lado, sabemos que os poderes públicos, historicamente, atribuem pouca importância à atividade industrial em Portugal” alerta.
Ou seja, para o CEO da Secil a indústria cimenteira merece um olhar mais atento das autoridades. Como? “Aliviando custos de contexto, melhorando o enquadramento do fornecimento de energia, proporcionando melhores condições de circularidade da economia – uso de resíduos urbanos e industriais para substituir combustível fóssil e matérias primas virgens –, sobretudo quanto ao uso de CDR – Combustíveis Derivados de Resíduos já tratados pelos sistemas multimunicipais de tratamento de resíduos e defendendo ao nível europeu as condições de competitividade da indústria europeia, designadamente através da solidez a abrangência do CBAM (Mecanismo de Ajustamento Carbónico Transfronteiriço)”, explica Otmar Hübscher.
“O CCUS é a tecnologia-chave para podermos continuar a produzir cimento na Europa”
O rumo à neutralidade carbónica tem diversos desafios para o setor cimenteiro, desde os tecnológicos até aos regulatórios, como explica Otmar Hübscher, CEO da Secil.
Que papel tem a tecnologia de CCUS (Captura Utilização e Armazenamento de Carbono) no caminho para a neutralidade carbónica?
No caso da indústria cimenteira, em que cerca de 65% das suas emissões de CO2 provêm da descarbonatação da própria matéria-prima, calcário, sendo por isso pouco mitigável, o CCUS parece ser a principal solução tecnológica para evitar a emissão de CO2 para a atmosfera, através da sua captura nas fábricas, separação de outros gases, e posterior transporte para armazenamento ou utilização noutra cadeia de valor. É uma solução promissora, mas que encerra ainda desafios ao nível jurídico, económico, tecnológico e também social. Os decisores e a população precisam de compreender que esta é a tecnologia-chave para podermos continuar a produzir cimento na Europa a um preço aceitável. Este é um material indispensável às infraestruturas, defesa, segurança, proteção, conforto e património das populações, cuja produção no próprio espaço europeu não pode ser negligenciada, pois é também um material crítico.
Em relação ao quadro regulatório, Portugal e a Europa estão em desvantagem na indústria cimenteira face a concorrentes fora da UE?
É sabido que as decisões globais da UE em matéria de descarbonização e sustentabilidade apresentam sérias ameaças à continuidade de inúmeras indústrias europeias, e a indústria cimenteira é precisamente uma delas. A incorporação do custo das emissões de CO2, tal como tem vindo a ser desenhada, vai criar grandes dificuldades às indústrias europeias, primeiro na vertente de exportação e depois no mercado interno, se mecanismos como o CBAM não se revelarem suficientemente robustos e eficazes.
As regras que existem na Europa podem levar à deslocalização da indústria cimenteira para outros continentes?
No limite, se a competitividade externa da indústria cimenteira europeia não for assegurada por mecanismos regulatórios que criam a igualdade de condições com os concorrentes fora da UE, poderá assistir-se ao encerramento e deslocalização de unidades para fora do espaço europeu. A acontecer, terá consequências económicas, sociais – via emprego – e até ambientais, pois haverá um acréscimo de emissões associadas à produção e ao transporte do produto a longa distância, quando hoje é feito com grande proximidade e num contexto de grande exigência ambiental.