Distribuir sem crescer
As atenções (e despesas) foram concentradas na formulação de um modelo de distribuição, como se ainda houvesse modelo de desenvolvimento. Não se distribui o resultado do crescimento, distribui-se dívida como se fosse crescimento.
A FRASE...
"Portugal precisa de crescer, para isso precisa de investir. A condição é necessária, infelizmente, não é suficiente. Em Portugal, nas últimas décadas, investiu-se muito. Mas investiu-se mal e, por isso, a economia não cresceu, nem cresce."
Daniel Bessa, Expresso, 18 de Março de 2017
A ANÁLISE...
Para que uma economia cresça é preciso que tenha um modelo de desenvolvimento que sirva de referenciação às múltiplas decisões dos seus agentes económicos e que sirva de base de orientação para a formação das expectativas sociais dos seus múltiplos grupos sociais. Esta é a condição para que as estratégias de desenvolvimento, na economia e na sociedade, não sejam distorcidas por episódios de conflitualidade sobre o modo de distribuir os resultados do crescimento.
O último período longo em que a economia portuguesa cresceu de modo consistente iniciou-se ainda na década de 1950 e durou até à primeira parte da década de 1970. Os vectores desse modelo de desenvolvimento foram a intensificação das relações intersectoriais explorando o atraso da economia portuguesa para desenvolver uma estratégia de imitação da configuração das economias mais evoluídas, a internacionalização dos mercados, a articulação com os mercados coloniais para constituir uma plataforma de conectividade com os mercados mais desenvolvidos (de que o projecto de Sines foi o produto mais elaborado), compensando a reduzida dimensão do mercado interno com uma função de ligação de economias do Atlântico Sul com economias do Atlântico Norte.
Este modelo de desenvolvimento foi inviabilizado com a descolonização e com a nacionalização dos grupos empresariais portugueses - e nunca foi substituído por outro modelo de desenvolvimento. Os curtos períodos de crescimento que existiram depois foram induzidos do exterior (a integração europeia com investimentos externos e a integração no euro com a descida da taxa de juro), mas não foram produzidos nem incorporados num modelo desenvolvimento.
As atenções (e despesas) foram concentradas na formulação de um modelo de distribuição, como se ainda houvesse modelo de desenvolvimento. Não se distribui o resultado do crescimento, distribui-se dívida como se fosse crescimento.
Este artigo de opinião integra A Mão Visível - Observações sobre as consequências directas e indirectas das políticas para todos os sectores da sociedade e dos efeitos a médio e longo prazo por oposição às realizadas sobre os efeitos imediatos e dirigidas apenas para certos grupos da sociedade.
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