Lisboa recebeu a primeira edição do PT Carbon Link, uma iniciativa da Associação Portuguesa de Cimento (ATIC) dedicada à reflexão e ao debate sobre o futuro da indústria em Portugal e o papel decisivo que a tecnologia de CCUS (Captura Utilização e Armazenamento de Carbono) pode desempenhar no caminho para a neutralidade carbónica. O encontro, no dia 23 de janeiro, reuniu representantes da indústria, Governo, academia e consultoria especializada, abrindo um espaço de diálogo sobre a transformação estrutural necessária para que setores industriais críticos continuem competitivos, gerem emprego e cumpram metas climáticas ambiciosas.
O vice-presidente da ATIC, Otmar Hübscher, abriu o evento sublinhando a importância estratégica do encontro para a indústria cimenteira nacional, recordando que em 2021 a associação apresentou o primeiro roadmap da indústria para um futuro sustentável rumo à neutralidade carbónica até 2050.
Hübscher destacou que, nos últimos 20 a 25 anos, a indústria cimenteira já conseguiu reduzir cerca de 15% das emissões específicas de CO2 por tonelada de cimento, resultado de melhorias na eficiência energética, redução da incorporação de clínquer e aumento do uso de combustíveis alternativos com biomassa. Contudo, alertou para a existência de limites tecnológicos: “O potencial de redução das emissões de CO2 além dos 50% está limitado no caso do cimento, especificamente pelas emissões do processo de fabrico do clínquer.”
Para atingir a neutralidade carbónica ao longo de toda a cadeia de valor, Otmar Hübscher referiu que tecnologias disruptivas como o CCUS serão indispensáveis. E deixou uma mensagem clara à tutela: “Aquilo que precisamos do governo é que crie as condições para que nós, a indústria, possamos avançar com os investimentos e projetos de captura, ou seja, que crie as condições para a infraestrutura de transporte do carbono e capacidade de armazenamento em Portugal. Sem isso, é a nossa sobrevivência que está em causa.”
O projeto PT Carbon Link, desenvolvido em parceria com a BCG, a ATIC e a Universidade de Évora, visa responder a esta necessidade. Otmar Hübscher descreveu-o como “a solução necessária para a descarbonização da indústria nacional, um estudo para a implementação da captura, transporte e armazenamento de carbono em Portugal”. Salientou ainda que a iniciativa combina o conhecimento científico, a experiência internacional e a cooperação entre a indústria e o Estado, abrindo caminho a ações concretas de CCS (Captura e Armazenamento de Carbono) no país.
CCS é parte da solução
A ministra do Ambiente e da Energia, Maria da Graça Carvalho, sublinhou que o roteiro para a neutralidade carbónica 2050, apresentado pela indústria cimenteira em 2021, é, “a vários níveis, um exemplo de ambição sustentada por uma abordagem assente no recurso a soluções inovadoras”, considerando natural que esse trabalho evoluísse agora para um projeto concreto como o PT Carbon Link. “É com gosto e sem surpresa que tomo conhecimento que houve desenvolvimento destas ideias”, afirmou, sublinhando que esta iniciativa representa “um sinal muito importante não apenas para o setor dos cimentos, mas para toda a indústria nacional”.
Maria da Graça Carvalho destacou que alguns setores industriais, como cimento, vidro e cerâmica, e meios de transporte, como aviação e marítimo, são particularmente difíceis de descarbonizar. Para esses setores, a substituição energética e os ganhos de eficiência não são suficientes, e soluções de captura, transporte e armazenamento de CO2 são indispensáveis.
A responsável recordou que o Governo assumiu desde o início a descarbonização da economia como um grande desígnio nacional, associando-a à criação de melhores condições para as pessoas e para as empresas, bem como à atração e fixação de investimento. Nesse contexto, destacou a revisão do Plano Nacional de Energia e Clima 2030, assente numa trajetória ambiciosa de descarbonização e no aproveitamento das vantagens competitivas do país ao nível das energias renováveis. “Somos hoje, em conjunto com Espanha, o melhor lugar para investir em projetos de produção de energias renováveis ou em indústrias que necessitam de eletricidade renovável”, afirmou, sublinhando que esse posicionamento já se reflete no volume de pedidos de investimento.
A criação da Agência para o Clima foi outro dos instrumentos destacados, com o objetivo de reforçar a política pública e otimizar o financiamento de projetos estruturantes. A ministra referiu ainda o reforço do apoio às indústrias eletrointensivas, explicando que, na fatura da eletricidade, pode existir “uma redução entre 75% e 85%, dependendo da incorporação de energias renováveis”, bem como o reforço, em 2025, da compensação dos custos indiretos do Comércio Europeu de Licenças de Emissão.
Pilar da competitividade industrial
O ministro das Infraestruturas e Agricultura, Miguel Pinto Luz, reforçou a ligação entre descarbonização, infraestruturas e competitividade económica. Defendendo uma abordagem pragmática, afirmou que é necessário “rematar a baliza” e passar “dos protótipos à realidade comercial”, sublinhando que só assim será possível cumprir os objetivos da neutralidade carbónica.
Dirigindo-se ao setor cimenteiro, Miguel Pinto Luz foi claro: “Vocês representam um setor que é essencial”, lembrando que os investimentos públicos em obras apresentados recentemente em Conselho de Ministros demonstram, por si só, a necessidade de avançar com projetos estruturantes para não perder competitividade. “As infraestruturas têm de andar a par e passo com a economia”, afirmou, defendendo que o setor industrial deve acompanhar os objetivos estratégicos de investimento e desenvolvimento infraestrutural do país.
O ministro enquadrou este esforço num objetivo mais amplo de crescimento económico sustentável, defendendo que a Europa não pode abdicar do caminho verde, mas também não pode abdicar do crescimento económico, sob pena de comprometer a sustentabilidade do Estado social. “Para isso precisamos de fazer crescer a nossa economia”, afirmou, garantindo o compromisso do Governo em prosseguir este caminho de forma concreta e articulada.
Do plano à ação: como descarbonizar a indústria
O investimento está pronto. A decisão política é o fator em falta. É esta ideia que Cecília Meireles, secretária-geral executiva da ATIC, deixa no ar quando se fala em descarbonização do setor do cimento. Para a responsável, é certo que, “se o Governo criar as condições, pode contar que a indústria cimenteira está preparada para ir em frente com o PT Carbon Link, que nós consideramos a solução necessária para a descarbonização da indústria nacional”. O desafio é estrutural e tem um calendário definido que esteve em evidência nas intervenções de Cecília Meireles e de Filipe Torres, partner da BCG Lisboa, na apresentação do estudo que sustenta a criação de uma infraestrutura nacional de CCUS.
Para a representante da indústria cimenteira, o cimento continua a ser insubstituível e está presente nas infraestruturas essenciais, nas obras públicas e privadas, e permanece como um dos materiais mais duradouros e resistentes conhecidos. “É um setor absolutamente central para o crescimento económico”, sublinhou, lembrando que, em Portugal, o cimento está representado por seis fábricas e foi responsável por cerca de 3 mil milhões de euros de valor acrescentado bruto entre 2005 e 2020, além de aproximadamente 5 mil empregos diretos e indiretos.
É preciso avançar já
Mesmo com o investimento já realizado em inovação, eficiência energética e iniciativas climáticas e um novo ciclo que prevê mais de 500 milhões de euros até 2030 para reduzir emissões, há um limite tecnológico que não pode ser ultrapassado sem CCUS. No cimento, cerca de 60% das emissões são emissões de processo, resultantes da produção de clínquer, e mantêm-se mesmo com a eliminação de combustíveis fósseis. “Para estas emissões, só há uma solução tecnologicamente possível: a captura”, afirmou a responsável.
Este dado explica por que razão a discussão deixou de ser apenas ambiental e passou a ser económica e industrial. Sem uma solução nacional de transporte e armazenamento de CO2, não há investimento possível na captura. E o tempo é um fator crítico, uma vez que com o fim das licenças de emissão no horizonte de 2040, a margem de manobra é curta. “O relógio está a fazer tiquetaque”, alertou Cecília Meireles, lembrando que projetos semelhantes na Europa demoraram mais de uma década a concretizarem-se. Começar agora, defendeu, “já é começar tarde”.
Foi para responder a esta urgência que o estudo apresentado pela BCG procurou transformar a necessidade numa proposta concreta. Segundo Filipe Torres, Portugal não parte do zero. Existe um histórico europeu sólido, com décadas de investigação e projetos em diferentes fases de maturidade, incluindo exemplos como Ravenna, em Itália, ou Northern Lights, na Noruega. Na Europa, existem já mais de 40 locais de armazenamento identificados e vários projetos-piloto em funcionamento.
2,2 mil milhões de euros de investimento
Como explicou o responsável, o país encontra-se ainda numa fase preliminar, mas essa posição oferece uma vantagem estratégica. “Portugal está ainda numa fase que chamamos de screening ou de avaliação. Se por um lado isso nos dá a mensagem clara de que é necessário acelerar, por outro lado temos também a oportunidade de aprender o caminho das pedras que estes países já fizeram”, afirmou Filipe Torres. O estudo aponta para a Bacia Lusitânica, em ambiente offshore, como local preferencial de armazenamento geológico, com base no conhecimento científico já desenvolvido, nomeadamente com o contributo da Universidade de Évora. Trata-se de uma área extensa, com mais de 200 quilómetros ao longo da costa, baixa atividade sísmica e um potencial de armazenamento que pode chegar a várias centenas de milhões de toneladas de CO2, suficiente para servir as necessidades nacionais durante décadas.
A infraestrutura proposta assenta numa rede partilhada de cerca de 680 quilómetros de gasodutos, ligando os principais emissores industriais ao local de armazenamento, incluindo um troço offshore. O objetivo é reduzir custos unitários e evitar investimentos incomportáveis para cada empresa isoladamente, abrindo a porta à participação de diferentes setores industriais. Do ponto de vista financeiro, o estudo estima um investimento de cerca de 2,2 mil milhões de euros para a componente de transporte e armazenamento, a realizar ao longo de 20 anos, através de um modelo de ativos regulados e de uma concessão de longo prazo. A captura do CO2, sublinhou Filipe Torres, ficará a cargo das indústrias, com investimentos adicionais que, no caso do cimento, podem atingir 200 a 300 milhões de euros por fábrica.
Apesar do impacto significativo nos custos de produção do cimento, Filipe Torres sublinhou que o efeito no custo final da construção é limitado. “Quando pomos isto em perspetiva com o setor da construção, o impacto acaba por ser residual, entre 2% e 4%, porque o cimento representa apenas cerca de 5% do custo total de uma obra”, explicou. Em contrapartida, os benefícios macroeconómicos são expressivos: entre 2027 e 2065, a nova infraestrutura poderá gerar 14 mil milhões de euros de impacto no PIB e criar mais de 20 mil empregos, associados a uma nova cadeia de valor que envolve engenharia, construção, operação e monitorização.
O calendário é exigente. Até 2028 será necessário garantir aprovações e enquadramento legal; entre 2030 e 2033, avançar com o projeto-piloto; e, a partir de 2034-2035, iniciar a fase de comercialização. “É um calendário ambicioso, com pouca margem para erro”, reconheceu o responsável da BCG, defendendo uma coordenação estreita entre Estado, indústria e reguladores.
A mensagem final é clara e transversal às intervenções de Cecília Meireles e Filipe Torres, que garantem que sem revisão do enquadramento legal, sem uma estratégia nacional de CCUS e sem um envolvimento ativo do Estado, a infraestrutura não sairá do papel. Segundo estes especialistas, o estudo PT Carbon Link não pretende ser um ponto de chegada, mas um ponto de partida, um guião para mobilizar os diferentes atores e transformar uma necessidade industrial numa decisão estratégica para o país.
Oportunidades e desafios no caminho da indústria
A primeira edição do PT Carbon Link terminou com duas mesas-redondas dedicadas ao tema “Do plano à ação: como descarbonizar a indústria”, deixando claro que a transição climática apresenta desafios profundos, mas também oportunidades estratégicas para vários setores industriais em Portugal. No primeiro debate, Joana Veloso, diretora do Departamento de Alterações Climáticas da Agência para o Clima, enquadrou a conversa com dados que mostram a evolução já alcançada. A responsável sublinhou que a indústria nacional reduziu as emissões de gases com efeito de estufa em 48% desde 2005, acompanhada por uma redução significativa dos consumos energéticos, o que gerou ganhos de eficiência e economias de escala. Para Joana Veloso, esta trajetória demonstra que a transição climática não deve ser vista apenas como um constrangimento, mas como uma oportunidade para inovar, modernizar processos e aumentar a produtividade, apoiada por instrumentos como o PRR e por uma política europeia cada vez mais orientada para o reforço da base industrial.
Diana Tomázio, diretora de Inovação da Valorsul, reforçou essa leitura positiva, explicando que a empresa tem desenvolvido um trabalho contínuo para reduzir emissões em várias frentes, desde o transporte à eficiência energética. A responsável destacou que a incorporação de soluções de CCU e CCUS está a ser analisada de forma integrada, no contexto de investimentos já em curso, sublinhando que o principal desafio reside atualmente nos custos destas tecnologias, o que torna essencial o seu desenvolvimento e escala em Portugal para garantir viabilidade económica.
Do lado da indústria da cal, Juan Martinez Goytre, diretor de Operações da Lhoist Ibéria, salientou que a descarbonização já está em marcha há vários anos, com a substituição progressiva de combustíveis fósseis por biomassa. Em Portugal, essa transição representa já cerca de 30% do consumo energético, com a ambição de atingir 60% a 65% até 2030. No entanto, alertou que o principal bloqueio à adoção de tecnologias como o CCUS não é técnico, mas sim regulatório e político, defendendo a necessidade de um compromisso de longo prazo que ultrapasse ciclos governativos, dada a dimensão dos investimentos envolvidos.
Portugal deve estar na linha da frente
Na segunda mesa-redonda, Tiago Moreira da Silva, presidente da AIVE – Associação dos Industriais de Vidro de Embalagem, recordou que a indústria vidreira tem uma longa tradição de eficiência energética, tendo reduzido em cerca de 30% o consumo de energia e em mais de 50% as emissões de CO2 nas últimas décadas. Ainda assim, sublinhou que a eletrificação e a reciclagem, apesar de fundamentais, não serão suficientes para alcançar a neutralidade carbónica, tornando inevitável o recurso à captura de carbono. Para o responsável, a simplificação de processos, a coordenação e uma atuação mais célere das entidades públicas são determinantes para manter a competitividade industrial.
Gonçalo Almeida Simões, diretor-geral da Biond – Forest Fibers from Portugal, trouxe para o debate a perspetiva das fileiras florestais e da biomassa, defendendo que Portugal não pode só assumir um papel de seguidor na União Europeia, mas também estar na linha da frente. O responsável apontou falhas estruturais, como a lentidão dos licenciamentos, a ausência de um mercado de carbono funcional e a fraca captação de fundos europeus, destacando que o país tem aproveitado pouco instrumentos como o European Innovation Fund, apesar da sua dimensão financeira.
Por sua vez, Margarida Mateus, diretora-executiva do C5Lab – CoLAB for Sustainable Cement, defendeu que o transporte e armazenamento de carbono é uma solução segura e necessária no curto e médio prazo, enquanto outras tecnologias de utilização do CO2 não atingem maturidade comercial. A responsável explicou que o C5Lab atua como ponte entre a academia e a indústria, trabalhando em três eixos complementares que são a otimização de processos, a captura e utilização de carbono e a inovação de produto, considerados essenciais para alcançar a neutralidade carbónica até 2050.
No balanço final, as intervenções convergiram numa mensagem clara, que foi sintetizada por Cecília Meireles, secretária-geral da ATIC, que afirmou que a transição climática só será compatível com a competitividade industrial se passar das intenções à execução. “Sem esta infraestrutura de transporte e sem esta capacidade de armazenamento, nós não teremos descarbonização, nós teremos desindustrialização”, afirmou, sublinhando que a captura, o transporte e o armazenamento de CO2 são hoje um pressuposto de sobrevivência da indústria. A indústria, reforçou, está disponível para realizar os investimentos necessários na captura, mas exige uma resposta clara do lado do Governo.
O estudo PT Carbon Link e os dados do projeto EU H2020 PilotStrategy, apresentados pelo professor Júlio Carneiro, da Universidade de Évora, permitiram traçar o roteiro para a ação, identificando os pontos cardeais a seguir e os passos críticos para cumprir as metas climáticas europeias sem sacrificar a base produtiva do país. O debate evidenciou ainda que, apesar de se aguardar a definição regulatória, já existe um alinhamento sólido entre a indústria, a academia e os emitentes, que também está sustentado por experiências europeias de sucesso, como o projeto Northern Lights, na Noruega, que demonstra que é possível avançar rapidamente com segurança, eficiência e resultados concretos.