Mais 9 milhões de euros. Apenas mais 1% de embalagens recicladas. Até quando?

Resultados da reciclagem de embalagens - 3.º trimestre 2026
Um casal recicla embalagens
1
15 de Outubro de 2026 às 14:17

Nos primeiros nove meses de 2026, as embalagens da recolha seletiva enviadas para reciclagem registaram um ligeiro crescimento de 1%, com apenas 373 182 toneladas de embalagens recolhidas dos ecopontos (+4 194 toneladas face ao período homólogo). No mesmo período, as entidades gestoras (EG), como a Sociedade Ponto Verde, financiaram mais 9,2 milhões de euros em operações de recolha seletiva e triagem, através dos Valores de Contrapartida (VC), um aumento de 5,9%. Num contexto em que o financiamento do sistema deverá continuar a aumentar, a SPV questiona a eficácia do investimento realizado e exige maior transparência sobre a sua aplicação.Na prática, o crescimento de apenas 1% traduz uma evolução praticamente estagnada, sobretudo quando comparada com o aumento do financiamento do sistema. Perante este desfasamento, a SPV considera incontornável perceber porque é que os recursos mobilizados não estão a produzir os resultados esperados e questiona: se o financiamento continua a aumentar, onde estão os resultados proporcionais a esse investimento?Este tema ganha particular relevância num contexto em que o investimento no sistema tem vindo a ser reforçado de forma consistente e histórica, e que continuará a crescer nos próximos anos. Em 2025, o financiamento assegurado pela SPV e pelas restantes entidades gestoras aumentou 90 milhões de euros e, nos primeiros nove meses de 2026, registou um novo reforço de 9,2 milhões de euros. Com a execução prevista para este ano, estima-se que em dois anos – entre 2024 e 2026 – o investimento acumulado quase duplicou (valor estimativo).Assim, os sistemas municipais, multimunicipais e concessionários, responsáveis pela recolha seletiva de resíduos de embalagens, viram a sua capacidade de investimento aumentar em 2025 e beneficiaram de um novo reforço em 2026, decorrente da aplicação dos atuais valores de contrapartida, precisamente para acelerar a execução no terreno e incentivar uma maior participação dos cidadãos. “Estamos a investir cada vez mais num sistema que continua a apresentar resultados manifestamente insuficientes. Um crescimento de apenas 1% nas quantidades retomadas, obriga-nos a questionar a eficácia do investimento realizado. Importa lembrar que este financiamento tem origem nas contribuições das empresas clientes da SPV e das restantes entidades gestoras, que enfrentam também um contexto económico exigente. Num momento em que o sistema está mais financiado do que nunca, não podemos continuar a aumentar os encargos das empresas sem garantir uma melhoria efetiva do serviço e resultados concretos na reciclagem de embalagens. É fundamental perceber onde estão os constrangimentos, como estão a ser aplicados os recursos e que mudanças concretas vão permitir inverter esta trajetória”, afirma Ana Trigo Morais, CEO da Sociedade Ponto Verde.De recordar que, em 2025, Portugal registou uma taxa de retoma de resíduos de embalagens de 60,5%, ficando abaixo da meta de 65% atualmente em vigor. A evolução registada nos primeiros nove meses de 2026 reforça a necessidade de acelerar o desempenho do sistema, sob pena de o País continuar sem conseguir alcançar as metas estabelecidas.A EFICÁCIA DO SISTEMA TEM DE SER A PRIORIDADEAlém da otimização operacional, é essencial assegurar uma maior transparência nos sistemas de recolha e triagem e reforçar a utilização de dados na sua gestão. Para isso, é fundamental dispor de um registo único e de uma base comum de dados do sistema, que permitam assegurar indicadores fiáveis e comparáveis, apoiar decisões informadas e avaliar o impacto das medidas implementadas. Neste sentido, a SPV tem vindo a defender a criação de um Observatório Nacional de Resíduos, que permita consolidar informação e acompanhar, de forma mais rigorosa, o desempenho do sistema. Só através de uma gestão baseada em dados fidedignos será possível medir resultados, identificar oportunidades de melhoria e acelerar o cumprimento das metas de reciclagem de embalagens. 

 

Esta informação é também fundamental para orientar o investimento em soluções que aumentem a eficácia da recolha seletiva, como ecopontos mais inovadores, equipados com tecnologias de sensorização, sistemas de recolha porta a porta mais eficientes e modelos pay as you throw. De destacar que a SPV tem assumido, nos seus 30 anos de atividade, um papel de liderança na inovação e investido no desenvolvimento de soluções para o setor, com um investimento acumulado de 19,4 milhões de euros em inovação e I&D. 

 

DADOS DA RECICLAGEM DE EMBALAGENS POR MATERIAL 

 

A evolução por material demonstra que persistem dificuldades em acelerar a recolha de determinadas embalagens. No entanto, há matérias, como é o caso do papel/cartão e das embalagens de cartão para alimentos líquidos (ECAL), que cresceram 4% e 3%, respetivamente, alcançando um desempenho positivo face ao 1.º semestre do ano. 

 

Já o vidro registou um crescimento de apenas 1% entre janeiro e setembro de 2026, mantendo-se praticamente estagnado.  

 

No que diz respeito ao plástico, a análise revela uma realidade distinta entre os diversos tipos de plásticos. Embora, genericamente, apresente uma quebra (-4%), o filme (sacos com e sem asas e plástico que envolve os packs de pacotes de leite) registou um crescimento de 10%; e o PEAD, (embalagens como frascos de champô e detergentes) aumentou 4%. O decréscimo na quantidade de plástico reciclado pode ser explicado pelo PET (utilizado nas garrafas de bebidas), que regista um decréscimo de -2%; e pela diminuição das chamadas Outras Embalagens de Plástico (categoria que inclui, por exemplo, embalagens de batatas fritas, copos de iogurte e embalagens de frutos secos). Além disso, também o alumínio apresenta um decréscimo de -5%. 

 

Assim, apesar da evolução positiva de algumas tipologias, o crescimento global de apenas 1% demonstra que continua a ser necessário melhorar o desempenho do sistema como um todo.  

 

A SPV defende, por isso, que a próxima etapa da gestão de resíduos de embalagens deve estar centrada na eficácia e em transformar o financiamento em melhores operações e melhores níveis de serviço; e apela ao Governo que acelere as medidas previstas no programa Terra + para que o País possa cumprir as metas de reciclagem de embalagens.  

 

Lisboa, 13 de outubro de 2026 

 

Sobre a Sociedade Ponto Verde 

Desde 1996 que a Sociedade Ponto Verde (SPV) tem como missão contribuir para a promoção da economia circular através do Sistema Integrado de Gestão de Resíduos de Embalagens (SIGRE), assente num forte compromisso com a inovação e I&D, a literacia ambiental e a cidadania ativa. Entidade privada sem fins lucrativos e líder de mercado, é responsável pelo encaminhamento para reciclagem e valorização dos resíduos de embalagens resultantes do grande consumo. Atualmente, serve cerca de 8 000 clientes, apoiando-os na conceção de embalagens mais circulares e propondo novas soluções para melhorar os processos de recolha, separação e tratamento. 

Para reforçar a comunicação e sensibilização, em 2025, foi criada a Ponto Verde, uma nova marca com uma imagem renovada, que visa estar mais próxima dos cidadãos, criando um movimento agregador que une gerações de norte a sul do País e ilhas numa jornada coletiva pela reciclagem de embalagens e pela sustentabilidade.