Empresas portuguesas acreditam no TACO e têm medo de nova crise financeira e de ciberataques

A adaptação das empresas ao “efeito Trump” e à ideia de que “Trump Always Chickens Out”, o que nem sempre acontece, atira o risco dos conflitos comerciais para fora do pódio das suas preocupações, com a eventual disrupção das cadeias de abastecimento a entrar no top três.
Marcelo Rebelo de Sousa e Donald Trump
Rui Neves 00:01

Os ciberataques de grande dimensão, numa lógica de ameaça híbrida, a crise financeira e a disrupção das cadeias de abastecimento - que sobe ao terceiro lugar –, são os riscos geopolíticos que mais preocupam as empresas portuguesas, enquanto os conflitos comerciais entre Estados Unidos, China e União Europeia descem para o quinto posto.

Estas são as principais conclusões da 2.ª edição Barómetro do Risco Geopolítico para Empresas, do Observatório do Risco Geopolítico para Empresas da Porto Business School (PBS), que entre 8 e 20 de dezembro inquiriu 340 executivos de empresas baseadas em Portugal, e com operação nacional e internacional, abrangendo uma análise setorial que inclui a indústria transformadora, exportadoras e importadoras.

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Tal como há um ano, colocaram na liderança da lista de preocupações, avaliada como risco elevado por quase dois terços (63%) dos inquiridos, ciberataques de grande dimensão a infraestruturas críticas ou empresas, num contexto de guerra híbrida com patrocínio estatal.

Neste ponto, o estudo indica a possibilidade de cruzamento de riscos “ciber” (criminais e estritamente geopolíticos) para justificar o primeiro lugar (a um e três anos).

Também apontado como de risco elevado por 58% dos que responderam mantém-se a apreensão de que as consequências da crescente corrida geopolítica possam, através de instabilidade e eventual disrupção, conduzir a uma nova crise financeira, à semelhança da verificada em 2007, referência negativa marcante e ainda muito presente no imaginário económico das empresas.

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Para Jorge Rodrigues, cocoordenador do Observatório do Risco Geopolítico para Empresas, esta perceção entra “num ‘terreno familiar’ de um risco cíclico, agravado pela identificação de que o risco geopolítico pode ainda desencadear ou agravar uma crise financeira ao gerar instabilidade, perda de confiança nos mercados e choques económicos que afetam investimentos, crédito e crescimento”, afirma, em comunicado da PBS.

Eventual disrupção das cadeias de abastecimento sobe cinco posições

Também o receio ligado aos conflitos intraeuropeus assume particular relevância nesta edição do barómetro. “Quer na sua forma cinética, quer no contexto de ameaças híbridas – altamente relacionadas aos ataques no centro e leste da Europa –, este risco reforça a principal preocupação das organizações, tanto no curto prazo (63%) como no médio e longo prazo (53%)”, destaca.

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Nessa sequência, e em estreita ligação com a atuação da nova administração norte-americana, a eventual disrupção das cadeias de abastecimento sobe cinco posições e entra no top 3 das maiores inquietações das empresas, sendo identificada como um risco elevado por 55% dos inquiridos.

"A adaptação das empresas ao ‘efeito Trump’ e ideia de que ‘Trump Always Chickens Out’ (TACO) [acobarda-se sempre, em tradução livre], o que nem sempre acontece, parecem explicar a colocação do risco dos conflitos comerciais apenas no quinto lugar – tanto a curto como a médio e longo prazo –, a par da mitigação do risco feita pelas negociações e estratégia da própria União Europeia”, observa Jorge Rodrigues.

“Resta saber se será mesmo assim futuramente, sobretudo no caso de riscos geopolíticos mais complexos, como, por exemplo, o programa nuclear do Irão ou a crise de Taiwan”, conclui.

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De forma algo surpreendente, a negação do acesso à tecnologia pode ser um risco subavaliado ao surgir apenas nos oitavo e sexto lugares (um e três anos), “já que, no atual contexto de forte competição geoeconómica, sobretudo sino-americana, mas com reflexos globais, é um risco sério - embora o grau de impacto dependa dos setores de atividade”, enquanto a desinformação da inteligência artificial aparece somente na nona posição (um e três anos).

Entre as restantes preocupações do tecido empresarial nacional encontram-se as explosões nucleares ou biológicas e químicas, a radicalização e as migrações.

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Exportadoras e importadoras mais expostas à disrupção logística

O barómetro demonstra, também, um agravamento da perceção de risco entre empresas importadoras e exportadoras relativamente à disrupção das cadeias de abastecimento, tendo esta sido identificada como risco elevado por 72% dos inquiridos, com o pódio a ficar completo com os ciberataques e a crise financeira, deixando desta vez de fora do top 3 os conflitos comerciais EUA/China/UE.

“Contrariamente ao panorama geral das empresas, nas organizações com investimento direto no estrangeiro, o fator da disrupção das cadeias de abastecimento não integra os três principais riscos de gestão identificados a três anos”, nota no mesmo comunicado enviado às redações.

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“A instabilidade geopolítica traduz-se numa elevada incerteza no comércio internacional, sendo naturalmente sentida com maior intensidade pelas organizações com maior exposição aos mercados externos”, sublinha Jorge Rodrigues.

Por outro lado, as empresas da indústria transformadora identificam a disrupção das cadeias de abastecimento como a principal preocupação, seguindo-se os ciberataques e os conflitos na Europa.

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Em comparação com o ano passado, saem do pódio os riscos ligados à crise financeira e os conflitos comerciais EUA/China/UE.

No caso das empresas financeiras e de seguros, existe uma elevada perceção de risco relativamente às questões energéticas.

Parcerias estratégicas são a principal ferramenta de mitigação do risco

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O barómetro da PBS questionou também os gestores sobre quais as principais estratégias para lidar com estes riscos geopolíticos, tendo recebido a indicação de que as empresas continuam a privilegiar soluções assentes nas parcerias estratégicas (44%), tratados multilaterais (42%), na capacidade interna (I&D) (40%) e na melhoria da preparação geopolítica (37%).

Acresce que “o reforço do conhecimento geopolítico como estratégias de mitigação, através da investigação e desenvolvimento, revelam que o setor empresarial pretende aumentar as suas competências e meios endógenos e não ficar apenas à espera do Estado para mitigar riscos geopolíticos”, considera o cocoordenador do Observatório do Risco Geopolítico para Empresas da PBS.

Segundo Jorge Rodrigues, “apoio estatal não é uma prioridade, embora se acredite, talvez um pouco em contraciclo face ao afastamento da multilateralidade no plano global, na necessidade de concretização de tratados internacionais estabilizadores”.

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Entretanto, a PBS prepara a 8.ª edição do “open executive program” denominado “Risco Geopolítico e Estratégia para Executivos”, desenvolvido com o Instituto da Defesa Nacional, que enquadra a geopolítica como fator estratégico com impacto direto na sustentabilidade, resiliência e competitividade. A formação arranca a 5 de março, com candidaturas abertas até dia 2.

 

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