Líderes têm de saber comunicar decisões, diz Clara Raposo
Vive-se uma “crise de confiança” no mundo. O diagnóstico é feito por Clara Raposo que vê no excesso de informação e desinformação a causa da frustração das populações, gerando desconfiança sobre o modelo institucional atual. É um contexto de grande instabilidade que exige clareza na comunicação dos líderes, mas também independência por parte das instituições, entre elas os bancos centrais que, diz a vice-governadora do Banco de Portugal, têm de ser um “padrão de estabilidade”.
“Há desconfiança sobre se o modelo institucional atual é capaz de entregar o que as pessoas esperam”, atira Clara Raposo na avaliação do contexto atual. “Há dúvidas sobre se quem está a decidir, está a decidir bem”, acrescenta, alertando que há, entre os líderes, a “intenção clara de tomar as melhores decisões, mas há a preocupação sobre a perceção da decisão que se está a tomar. Sobre a forma como se comunica”.
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Na conferência “O Poder de Fazer Acontecer 3.0”, do Negócios, a responsável diz que “é preciso simplificar a comunicação” por parte de quem decide, alertando que é essencial que as decisões sejam compreendidas por todos. É a forma de, entende, travar a desinformação que prolifera, sendo a outra a garantia de independência de quem decide. Seja dos políticos, seja dos bancos centrais, que têm o papel de estabilizador da economia.
Num momento em que há uma enorme pressão sobre Jerome Powell, o presidente da Fed dos EUA, com vários nomes a serem apontados para o suceder, muitos deles alinhados com a política de Donald Trump, Clara Raposo diz que o “importante é que a independência dos bancos centrais seja mantida”, sendo que o risco de perda de independência da Fed sobe a fasquia da responsabilidade por parte dos bancos centrais da Zona Euro.
Clara Raposo, Vice-governadora do Banco de Portugal
“Temos de ser um padrão de estabilidade. Temos de garantir que as nossas decisões são seguras para o mundo. E os bancos do Eurossistema têm sido capazes de o fazer”, diz a vice-governadora do Banco de Portugal, apontando a moeda única como o “melhor exemplo de aprofundamento do projeto europeu”. Lamenta, contudo, que ainda se fale da Europa “de forma muito parcelar” e não “como uma grande potencia”. “Não conseguimos olhar como um todo para nos compararmos com grandes potências económicas mundiais”, atira.
A defesa do papel dos bancos centrais da Zona Euro, e do Banco Central Europeu, é feita não só por estarem a conseguir ser um garante de estabilidade perante a instabilidade, nomeadamente a provocada pelas tarifas de Trump, mas também pelo trabalho de supervisão de um sistema financeiro que está sólido.
“Estamos ainda a recuperar de uma sequência de crises. Mas o que verificamos é que com toda a transformação do setor, também em termos de regulação e supervisão, o setor bancário tem-se mostrado extremamente resiliente, em Portugal e na Zona Euro”, disse Clara Raposo. “Conseguimos ter um sistema bastante resiliente, com almofada para choques”, mas “falta completar a União Bancária”. E “precisamos de ter mais instrumentos de financiamento”, nomeadamente para as novas empresas que despontam.
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