André Moreira 16 de Setembro de 2009 às 12:00

Choques petrolíferos

As flutuações do preço do petróleo têm sido alvo do interesse dos economistas desde a década de 70. A atenção dedicada ao mercado do "crude" justifica-se pela forte correlação historicamente observada entre picos no preço do petróleo e o despoletar de recessões nos EUA e no resto do mundo desenvolvido.

As flutuações do preço do petróleo têm sido alvo do interesse dos economistas desde a década de 70. A atenção dedicada ao mercado do "crude" justifica-se pela forte correlação historicamente observada entre picos no preço do petróleo e o despoletar de recessões nos EUA e no resto do mundo desenvolvido. De facto, segundo os dados do National Bureau of Economic Research, as quatro maiores subidas de preço do século XX - em 1973, 1979, 1991 e 1999/2000 - coincidiram todas, de forma mais ou menos exacta, com o início de trajectórias descendentes no ciclo económico americano.

Entre 2003 e 2007, porém, enquanto o preço do barril escalava de cerca de 30 até uns astronómicos 140 dólares não se verificavam sinais de recessão. Pelo contrário, a economia global e a economia americana, em particular, continuavam a crescer de forma surpreendente. Estaria o problema da vulnerabilidade às flutuações de preço do ouro negro finalmente resolvido?

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Muitos economistas atribuíram a aparente imunidade face ao choque de 2003-2007 a factores como o aperfeiçoamento das políticas monetárias, a flexibilização dos mercados de trabalho e a redução da intensidade energética de vários países. Não colocando em causa a potencial relevância destes, trabalhos recentes como os do Professor Lutz Kilian têm vindo a chamar a atenção para a importância de um outro tipo de factores: as próprias causas da variação do preço do petróleo.

Enquanto os choques petrolíferos anteriores a 2003 - associados a recessões - tinham sido provocados por cortes de oferta ou aumentos de procura resultantes de receios quanto a quebras de abastecimento (devido a tensões políticas, ataques terroristas, desastres naturais), entre 2003 e 2007 a escalada do preço do petróleo foi induzida em boa parte pelo incremento da actividade económica global e consequente aumento da procura de energia, catalisados pela ascensão da China e da Índia.

Analisando a situação recente a partir da perspectiva de um país importador de petróleo, é natural que nestas condições se gerem dois efeitos de sinal contrário sobre a economia real. Por um lado espera-se, como é usual, que por si só a subida do preço do petróleo produza um impacto negativo. Por outro lado é de esperar simultaneamente que o crescimento da economia mundial (na origem da subida do preço!) estimule a economia doméstica por via das exportações e do investimento estrangeiro. Assim, dependendo da importância relativa dos dois efeitos referidos, é possível conceber, de forma consistente com a teoria económica, subidas do preço do petróleo não associadas a efeitos contraccionistas.

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Os resultados empíricos do projecto desenvolvido indicam que, no caso dos EUA no período pós-1975, subidas de preço induzidas pela expansão da economia mundial foram de facto acompanhadas, em média, por uma ligeira aceleração da actividade doméstica no curto prazo, revertida ao fim de alguns meses. Isto sugere que o estímulo da procura global seja apenas suficiente para contrabalançar o impacto recessivo do preço mais elevado numa fase inicial, após a qual o efeito total se torna negativo.

Estes resultados oferecem assim uma explicação para as características particulares do choque petrolífero de 2003-2007, período em que uma rápida sucessão de incrementos de procura global - resultantes do crescimento asiático - foi responsável pela subida do preço do petróleo, contribuindo assim para que este efeito positivo de curto prazo tenha predominado durante os vários anos em que não ocorreu uma recessão.

Em termos mais gerais, os resultados obtidos demonstram que o impacto económico de uma dada variação do preço do petróleo pode depender crucialmente do factor específico que a causa. Assim, é importante que estes factores passem a ser claramente identificados e que esta informação seja utilizada para efeitos de previsão do impacto de choques petrolíferos futuros, tendo em vista a formulação de respostas de política económica cada vez mais adequadas às características únicas de cada episódio.

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Baseado no trabalho de projecto "The Macroeconomic Effects of (Different) Oil Shocks: A VAR Approach", Mestrado em Economia, Faculdade de Economia da Universidade Nova de Lisboa, 2009. Trabalho orientado pelo professor Joaquim Pina.

Aluno de Mestrado em Economia

Faculdade de Economia da UNL

Aluno de Mestrado em Economia

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