Os Adivinhos
Na rúbrica "O capitalista curioso" ("The curious capitalist", no original) que publica na revista "Time" periodicamente, Zachary Karabell (economista, historiador e consultor financeiro com formação nas Universidades de Columbia, Oxford e Harvard) desmonta um dos principais argumentos que (ainda) levam alguns incautos - muitos deles, governantes - a considerar que os mercados financeiros e as suas oscilações têm algum significado real do ponto de vista da evolução da actividade económica. A demonstração é feita através de uma evidência estatística, uma análise cristalina: a evolução dos resultados das grandes cotadas dos principais índices americanos não tem qualquer paralelo com a evolução do PIB doméstico - essa evolução é até, na maioria dos casos, inversamente proporcional; grandes empresas europeias são também citadas como estando não necessariamente em linha com as suas economias: é o caso da alemã Siemens ou da holandesa Philips. Com o escancarar dos mercados internacionais e a consolidação do processo de globalização, o "divórcio" entre as empresas e a suas "pátrias" está consumado - como lucidamente frisa o autor, "o que hoje é bom para a General Motors, já não o é necessariamente para a América". Sinais dos tempos. Ou do que mudou na aferição racional que podemos fazer dos tempos.
Em Portugal, o "Estado Social" transformou-se no "furo" político do momento - supostamente fracturante, ele garante visibilidade e ajuda a marcar a diferença que os programas partidários, demasiado comprometidos e pouco imaginativos, não conseguem assinalar; as diversas forças partidárias têm-se posicionado com a frivolidade habitual, mas desta feita de forma suicidária - trata-se a matéria como se ela fosse passível de um referendo, consagrando a retórica "anti-estado" por oposição à declamação "pró-estado", e incansavelmente vice-versa. É a toca onde se enfiou a classe política, um último sopro de vaidade: do modelo económico, da sua sustentabilidade, de estratégias de investimento, de propostas qualificantes e diferenciadoras - além de vender "o ouro a preço de cobre", claro está, como há sempre quem sugira nestas alturas - nada. Os "sintomas" são assim associados a outra "doença" - são os adivinhos a dar corda à superstição.
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Particularmente fluente na forma deliberada de chegar à notoriedade abusando da perigosa descontextualização deste tema, é a entrevista da Ministra da Cultura, Gabriela Canavilhas, ao Jornal "i" e as preconizações nela inscritas, sobre "o colapso do estado social". Cada um assimila e discorre sobre as evidências que entende relevantes. Nesse espírito, aliás, aqui fica uma, à atenção da sra. ministra e do estado-maior do partido do Governo: o Dr. Rui Pedro Soares ganha num ano de ordenado o que chega para pagar a produção inteira de um Teatro Nacional da vossa tutela.
Normalmente, o colapso dá-se pelas fundações.
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